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sexta-feira, 8 de março de 2024

Em Dia da Mulher !

 




creditos: Autor não identificado
via Google Images Archive



Comigo me desavim
minha senhora
de mim

sem ser dor ou ser cansaço
nem o corpo que disfarço

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

nunca dizendo comigo
o amigo nos meus braços

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

recusando o que é desfeito
no interior do meu peito

Maria Teresa Horta, Minha senhora de mim

in Minha Senhora de Mim, livro de poesia, 1971





Minha Senhora de Mim
Maria Teresa Horta, livro de poesia
Dom Quixote, 1971


Minha Senhora de Mim, o nono livro de poesia de Maria Teresa Horta, foi editado em Abril de 1971 pela Dom Quixote, na colecção «Cadernos de Poesia». 

Em 3 de Junho seguinte, a editora foi objecto de um auto de busca e apreensão da obra por parte da PIDE/DGS, operação que foi extensiva a todas as livrarias do país. 

A proprietária da editora, Snu Abecassis, foi advertida de que a Dom Quixote seria encerrada se voltasse a editar Maria Teresa Horta

Em 2015, o livro voltou a ser editado pela mesma Dom Quixote.




Público
Especial 34º Aniversário
Maria Teresa Horta/ Directora Convidada


O Público, que celebrou 34 anos dia 4 Março 2024, está duplamente de parabéns: pelo seu aniversário, mas também por ter convidado, para directora da edição especial aniversário, Maria Teresa Horta, cuja obra é toda publicada pela Dom Quixote.

A autora de Minha Senhora de Mim, reconhecida e notável defensora dos direitos das mulheres e da liberdade, desde a altura em que era muito arriscado fazê-lo.

Para além de uma extraordinária entrevista à jornalista Isabel Lucas, onde aborda assuntos que a todos nos dizem respeito, como política, democracia e a deriva para regimes totalitários que se verifica um pouco por todo o mundo, oferece aos leitores do jornal um poema inédito.


G-S

Fragmentos Culturais

08.04.2024

Copyright © 2024-Fragmentos Culturais Blog, fragmentosculturais.blogspot.com®


sexta-feira, 14 de julho de 2023

Tributo : Milan Kundera [1929 -2023] volta ao seu país !

 




Milan Kundera [1929-2023]

créditos: MP/ LeeIamage/ Photo Grossetti, 1981


"Procuramos sempre o peso das responsabilidades, quando o que na verdade almejamos é a leveza da liberdade."


Milan Kundera


«He was a "novelist," not a "writer," in the full meaning that he gave to the art of the novel, which he saw as a means of total knowledge – aesthetic rather than theoretical.»


 Martine Boyer-Weinmann(professor of French literature, Lyon-II University)


O escritor checo, Milan Kundera, que satirizou os regimes totalitários, mesclando a sua prosa de ironia sombria e reflexões filosóficas, morreu esta semana, dia 11 Julho 2023 em França onde vivia desde o exílio. 


Nascido a 1 de Abril de 1929 em Brnö, na antiga Checoslováquia, exilou-se em França por questões políticas, em 1975. Aí permanceu, tendo adquirido a nacionalidade francesa. Uma parte dos seus livros são escritos em francês.


Segundo sua vontade, as cinzas de Milan Kundera e de sua mulher Vera foram repatriadas para  Brnö, na antiga Checoslováquia, terra natal do escritor.


Vera e Milan Kundera, que viveram em França desde 1975, regressaram simbolicamente a Brnö”, declarou a Biblioteca da Morávia num comunicado de imprensa.


A Câmara Municipal de Brnö lançou um concurso de arquitectura para a concepção do túmulo do escritor no ano passado, e espera concluir a obra em meados deste ano 2025.





Milan Kundera

credits: Getty Images


Estudou em Praga, onde foi professor de História do Cinema, na Academia de Música e Arte Dramática e no Instituto de Estudos Cinematográficos.


Autor de uma vasta obra, que abrange o romance, o ensaio e a poesia, Kundera é considerado um dos mais importantes escritores do século XX.





A Arte do Romance
Milan Kundera, 1986
Edições Dom Quixote 


"A Arte do Romance" ou The Art of the Novel, é um ensaio de 1986 sobre a literatura europeia de Milan Kundera, no qual o autor descreve suas opiniões sobre o romance / novela, e suas próprias experiências ao escrever este género literário.

"Each of the parts in my novels could carry a musical indication: moderato, presto, adagio, and so on."

Milan Kundera, in The Art of Novel


Milan Kundera é pois uma referência incontornável da literatura. É um daqueles escritores impossíveis de esquecer, depois de o ler. Todos os seus livros têm grande profundidade e engenho. Mas, A Insustentável Leveza do Ser (1984) é o mais aclamado, a nível mundial.




The Umbearable Lightness of Being
Milan Kundera, 1984


Entre as obras de Kundera estão O Livro dos Amores Risíveis (1969), A Vida Não é Daqui (1973), A Valsa do Adeus (1976), O Livro do Riso e do Esquecimento (1979), A Arte do Romance (1986), A Imortalidade (1990), Os Testamentos Traídos (1992), A Ignorância (2000) e o último, A Festa da Insignificância (2014). 






A Festa da Insignificância
Milan Kundera, 2014


Não sendo um dos melhores romances de Milan Kundera, segundo alguns críticos, 'A Festa da Insignificância' não pode deixar de ser lido como uma espécie de "testamento literário", uma divertida reflexão sobre o destino trágico do ser humano.


Li alguns dos seus livros, como A Imortalidade, A Ignorância, A Identidade, entre outros. Brilhante reflexão sobre temas universais da vida e da morte, do erotismo e das emoções. 







A Imortalidade
Milan Kundera, edição 2020


"Ser escritor não é pregar uma verdade, é descobrir uma verdade (...) Só uma obra literária que revela um fragmento desconhecido da existência humana tem uma razão de ser.”

Milan Kundera

'A Imortalidade' é essencialmente sobre pessoas e o receio de desaparecer sem deixar marcas no mundo. É um livro para ler com espírito aberto e vontade de pensar na vida e no ser.

Mas, sem dúvida, o livro 'A Insustentável Leveza do Ser' tornou-se mítico, não só para mim, como para quase todos os leitores de Kundera. E deu-lhe a notoriedade a nível mundial.


Este é um romance de amor, mas ao mesmo tempo, é muito mais do que isso. Essencialmente, trata do que todas as grandes obras falam. Do sentido da vida.





A Insustentável Leveza do Ser

Milan Kundera, 1984

https://www.bertrand.pt/


É um dos romances míticos do século XX, publicado em 1984. Uma obra que alterou talvez, o modo como encarávamos o mundo que nos  rodeava.  


Quatro personagens protagonizam este romance, Tereza e Tomas, Sabina e Franz. Por força de suas escolhas ou por interferência do acaso, - o acaso - cada um deles experiencia, à sua maneira, o peso insustentável que baliza a vida, esse permanente exercício de reconhecer a opressão e de tentar amenizá-la.


O livro é como uma grande crónica acerca da frágil natureza do destino, do amor e da liberdade humana.



A Insustentável Leveza do Ser
Philip Kaufmann, 1988



Adaptado ao cinema por Philip Kaufmann em 1988, tem como actores, os conceituados Daniel Day-Lewis (saudades deste actor), Juliette Binoche Lena Olin. Vi-o nas salas de cinema.
 

Passado nos anos 60 em Praga, antiga Checoslováquia, Tomas (Daniel Day-Lewis), um médico apolítico, tem como hobby ter diversas experiências sexuais com diferentes mulheres, evitando sempre envolver-se. Mas duas mulheres, Sabina (Lena Olin), uma artista plástica, e Tereza (Juliette Binoche), uma jovem que sonha ser fotógrafa, tornam-se muito presentes na sua vida. 


No entanto, ao serem atingidos pelo acontecimento político de 1968, conhecido como "A Primavera de Praga", a vida deste triângulo amoroso altera-se.







A Insustentável Leveza do Ser
Philip Kaufmann, 1988


Daniel Day-Lewis, Juliette Binoche e Lena Olin formam o inesquecível triângulo amoroso que ocupa o centro do mundo de Tomas. O seu é um mundo em contínua mutação, feito de esperanças que morrem e renascem, e de vidas destruídas pela opressão e reacendidas pelo amor, profundo e amadurecedor."


Ainda que tenha sido um sucesso, Kundera criticou a adaptação, e considerou que a arte visual havia sido degradada em 'imagologia'. Nunca mais autorizou a adaptação cinematográfica de seus romances.






A Insustentável Leveza do Ser
Philip Kaufmann, 1988


Fui ver o filme. Pelo livro, já que o lera. E pelos excelentes actores. O realizador? Não conhecia.


Deparei-me com um filme que trata sim da dualidade do amor sem compromisso, mas que se afasta da essência do romance, resumindo-o ao efeito imagético do erotismo físico. O erotismo é belo se falar de amor.







A Insustentável Leveza do Ser
Philip Kaufmann, 1988


Desvirtuado na insustável leveza do ser humano, como um todo. As cenas são ostensivamente baseadas nas relações físicas de um excessivo erostismo físico, afastando-se da vertente amorosa do qual o erotismo faz parte. E da sensibilidade humana. Saí um pouco desiludida. 


Retenho, as interpretações dos actores. Actores excelência. Daniel Day-Lewis, como sempre genial! Saudade de o ver no grande ecrã. 


O filme foi tão longe na vertente que o realizador decidiu explorar, que chegou a ser considerado o melhor filme erótico, depois de O Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci (1972). Esse sim, apenas de carácter erótico-sexual.









Considero que Kundera teve razão na crítica ao filme, e na proibição de mais adaptações da sua obra ao cinema.


'A Insustentável Leveza do Ser' (editado em Portugal em 1987) é um livro que nos faz olhar com um olhar, por vezes melancólico e conformado, outras amargurado e revoltado, para o destino de um país, de um continente, de uma civilização. 


E poucas vezes se terá tão magistralmente representado a ligação existente entre a aventura individual e colectiva.







The Umbearable Lightness of Being
Milan Kundera, 1984
Audible Audiobook


"Justapondo lugares distantes geograficamente, reflexões brilhantes e uma variedade de estilos, este magnífico romance representa o auge daquele que é, verdadeiramente, um dos maiores escritores de sempre."

Inês Pedrosa,in Prefácio


Apesar de não ter sido galardoado com o Nobel, outros prémios lhe foram atribuídos: o Prémio Medicis (1973), Prémio Mondello (1978), Prémio Common Wealth (1981), Prémio Jerusalém (1985), Prémio Independent de Literatura Estrangeira (1991), Austrian State Prize for European Literature (1987),  e o Herder Prize 2000. 

Sarcástico retratista da condição humana, Kundera foi um dos raros autores incluídos em vida, na prestigiosa colecção literária La Pléiade (2011). 


“Like all great writers, Milan Kundera leaves indelible marks on his readers’ imaginations,” 

Salman Rushdie, The Guardian


"Muitas vezes nos refugiamos no futuro para escapar do sofrimento."

Milan Kundera

G-S
Fragmentos Culturais
14.07.2023
actualizado 22.01.2025
Copyright © 2023-Fragmentos Culturais Blog, fragmentosculturais.blogspot.com®

terça-feira, 5 de outubro de 2021

Júlio Dinis : 150 anos & Feira do Livro do Porto !





Feira do Livro do Porto 2021
@MS

Agosto foi bastante atípico. Um verão com aromas primavera-outono. A Feira do Livro do Porto começou a 26 Agosto. Sem chuva.

E Setembro entrou vistosamente! Fim-de-semana quente, sol resplandecente sobre o rio e o mar !

Noites amenas! Fui então à Feira do Livro. Sexta-feira, início de noite. Naquela hora quebrada, em que a maioria das pessoas está no horário de jantar. Uma noite de temperatura amena! Sem humidade.



Feira do Livro do Porto


Além de novos stands, tipo quiosques, bem mais apelativos, o espectáculo nocturno multicolor da Avenida das Tílias! As noites de sextafeira de jazz. Sobre o Douro!  E livros! Só coisas boas.

Vá se lá saber que estações do ano atravessámos nestes meses ! De tudo se experimentou ao longo de dois meses.




Feira do Livro do Porto


A simbólica tília dedicada a um.a escritor.a. Destas vez a Júlio Diniso homenageado desta edição 2021, que teve lugar na tarde de 12 de Setembro. Precisamente no dia e ano em que se assinalam os 150 anos da morte do escritor portuense, desaparecido precocemente, ainda nem completara 32 anos. Tão injustamente esquecido. 

Um autor particularmente acarinhado na cidade onde nasceu e morreu. O romancista que todos lemos no ensino secundário. Talvez demasiado cedo?






Uma Família Inglesa
Julio Diniz, 1875
via BNP Digital


Não esqueço Uma Família Inglesa. No meu imaginário, revivia as cenas do romance, quando passava pela casa que deu origem ao livro, e onde viveu efectivamente uma família inglesa. Uma casa ao bom estilo romântico, muito perto da casa de meus pais.

Uma Família Inglesa faz parte dos livros digitalizados da BN Portugal e poderá ser lido online.





Julio Diniz [1839-1871]


Pseudónimo literário de Joaquim Guilherme Gomes Coelho. Estudou na Academia Politécnica do Porto e na Escola Médico-Cirúrgica da cidade. Nunca exerceu Medicina mas foi durante algum tempo docente na instituição em que se licenciou, tendo posteriormente desistido devido à doença que o vitimou, A tuberculose. 







Obras de Júlio Dinis, vol. I e II, Lello & Irmão – Editores, Porto, s.d.
In-8º gr., de XXVIII-1232 e 1338 pp.,
Edição em papel-bíblia, c/ gravuras a cores, extratexto, de página inteira, assinadas por Laura Costa


Procurou curar-se em Ovar – localidade em cujo ambiente rural se inspirou para compor os romances As Pupilas do Senhor Reitor (1867) e A Morgadinha dos Canaviais (1868). A sua casa ovarense, é hoje Museu Júlio Dinis.

Foi também até ao Funchal, tendo aí escrito Os Fidalgos da Casa Mourisca (1871), romance cuja revisão já não pôde concluir.

No ano da sua morte, tinha apenas 31 anos, publicou-se o romance Os Fidalgos da Casa Mourisca. Só depois da sua morte se publicaram Inéditos e Esparsos, em dois volumes, assim como as suas Poesias, dadas à estampa entre 1873 e 1874. 

A casa onde nasceu no Porto foi demolida com a abertura da Rua Nova da Alfândega, e aquela onde morreu, deu lugar à construção de uma casa de espectáculos cinematográficos. 

Que lição de cultura cívica deu Ovar ao Porto!






Monumento dedicado a Júlio Dinis
escultor, João da Silva
início Avenida dos Aliados, Porto

belíssimo monumento do escultor João da Silva, dedicado a Júlio Dinis que se situava na Avenida dos Aliados, rodeado do jardim de calçada portuguesa, está hoje situado no Largo do Professor Abel Salazar, em frente ao Hospital de Santo António. 

A homenagem partiu de uma iniciativa da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), tendo sido inaugurada em 1926.






Painel Sophia de Mello Breyner
com o filho Miguel Sousa Tavares
créditos: Miguel Nogueira

Ao longo da Avenida das Tílias, na Alameda dos Escritores, são já sete as placas que recordam e perpetuam o.as autore.as homenageado.as a cada edição do certame organizado pela Câmara do Porto.

Lembremos Vasco Graça Moura (2014), Agustina Bessa-Luís (2015), Mário Cláudio (2016), Sophia de Mello Breyner Andresen (2017), José Mário Branco (2018), Eduardo Lourenço (2019) e Leonor de Almeida (2020).




Feira do Livro do Porto 2021

Percorri os quisoques ditos stands, da Avenida das Tílias. Tirando uma ou duas editoras, uma escolha paupérrima, para quem gosta de livros.

Detive-me junto de um, em especial, onde encontrei o romance de Clara Ferreira Alves.





Pai Nosso
Clara Ferreira Alves,2015
edições Clube do Autor


"Porque tens medo desta história? Porque não sei se consigo contá-la direito."

Já lera sobre este livro. Suponho que o primeiro romance de Clara Ferreira Alves. Estava bastante curiosa, confesso. É alguém que escreve muito bem. 

Romance não é assim tão fácil, mas Clara tem um dos melhores background culturais do país. Muitos anos de escrita jornalítica e crítica literária. tem vários livros publicados. Estou certa que não se atreveria a enveredar pelo romance, sem ter a convicção que o faria bem.

Não me posso pronunciar para já. Ainda leio, partilhando com um livro de Antonio Tabucchi. Podem ler a sinopse aqui

Percorri antes de abandonar a feira, o corredor dos alfarrabistas, demasiado escondido, na minha opinião. É uma área que adoro! Descobrir raridades nos livros. 

Lembro-me que percorria, há alguns anos, os melhores alfarrabistas da cidade, como Chaminé da Mota, ou Moreira da Costa.

E eis que encontro um livro autobiográfico de uma das melhores violoncelistas portuguesas. Madalena Sá e Costa, filha do compositor Luis Costa, aluna de Gulihermina Suggia, e Pablo Casals. professora do antigo Conservatório de Música do Porto.





Conservatório de Música do Porto
Palacete dos Viscondes de Vilarinho
Travessa do Carregal, Porto


A edição original, 2008, completamente nova. Quantas recordações despoletaram em mim! O meu tempo de miúda e aluna da Professora Hélia Soveral, na classe de Piano do Conservatório de Música do Porto, instalado no Palacete dos Viscondes de Vilarinho,Travessa do Carregal. As duas professoras eram muito amigas. E conviviam de muito perto com os alunos de ambas.

 



Memórias e Recordações
Madalena Sá e Costa
Clube do Autor


"Esta herança que de forma simples e cativante é narrada na primeira pessoa por Madalena Sá e Costa, na obra “Memórias e Recordações” musicais que é também acompanhada de uma preciosa iconografia, acumulada ao longo de três gerações." 

A edição de 2015 foi apresentada na Casa da Música, suponho que no ano do Centenário  de Madalena Sá e Costa, com a presença da mesma.

Sem dúvida, uma viagem na cultura  literária e musical, nesta minha passagem pela Feira do Livro do Porto.

G-S

Fragmentos Culturais

05.10.2021
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