Saturday, July 4, 2009

Pina Bausch




Pina Bausch
http://sol.sapo.pt


O corpo e o movimento são a melhor possibilidade de expressar o que me emociona e nos emociona a todos.

Pina Bausch


Morreu abruptamente a bailarina e coreógrafa alemã Pina Bausch.

E Pina Bausch é para mim, como para todos os verdadeiros admiradores desta arte sublime, a dança, a referência maior e única das últimas décadas!



A coreógrafa nasceu na Alemanha, em Solingen, no ano de 1940. Estudou dança a partir de 1955, em Essen, na Folkwang School, e obteve o diploma em 1958.
Uma bolsa permitiu-lhe estudar em Nova Iorque, onde permaneceu por três anos.

©AP



Helena Pikon e Rainer Behr em "For the Children of Yesterday, Today and Tomorrow"

http://www.nytimes.com

Pina Bausch veio a Portugal variadíssimas vezes. A primeira em 1989 nos "Encontros Acarte" e a penúltima em 2007 com o bailado "For the Children of Yesterday and Tomorrow", apresentado no Teatro Camões em Lisboa. Relembro algumas linhas que redigi em 25.04.2007:

Na entrevista dada ontem, sentada à mesa do foyer do Teatro Camões, Pina Bausch respondeu, discreta nos gestos e nas palavras, a perguntas sobre o seu papel de criadora e coreógrafa:

Talvez eu tivesse trazido a capacidade de fantasiar e interrogar.

Pina Bausch
defendeu acima de tudo que a dança deve dar atenção aos sentimentos, desejos e dores de modo a tocar o público e não ser apenas algo de belo e de bom.

Este é um trabalho baseado em excertos das obras Keepers of the Night - Native American Stories, Nocturnal Activiteas for Children de Michael J. Caduto e How the Bath Came to Be de Joseph Bruchac.

Como músicas escolheu, entre outras, peças de Prince, Caetano Veloso, Nina Simone, Goldfrapp, Gerry Mulligan, Lisa Ekdahl, Naná Vasconcelos, Shirley Horn e Gotan Project.

[fontes de informação DN e Sol online]



Em 2008, o nosso país homenageou-a com o Festival Pina Bausch co-organizado pelo Centro Cultural de Belém e pelo Teatro S. Luís. Um ciclo de conversas, filmes e três peças: a estreia nacional de "Nefés", sobre Istambul, "Masurca Fogo", feita sobre Lisboa em 1998 e apresentada na altura, e o mais lembrado "Café Müller".


A criadora foi agraciada com vários prémios, o último dos quais o Prémio Goethe, na Alemanha. Na cerimónia de entrega, o realizador Wim Wenders dizia que este era um reconhecimento da sua criatividade na dança moderna e por ter inventado "uma nova arte". Segundo Wenders, as coreografias de Bausch mostram "o movimento como meio de comunicação vernáculo do ser humano".

Participou no filme de Fellini O Navio (1982) e depois em Fala com Ela, de Pedro Almodóvar (2001). Quem não lembra?!
Estava a planear fazer um filme com Wim Wenders.
©Lusa


Ruth Amarante e Jorge Puerta Armenta “Nefés

http://www.nytimes.com

Há muito que seguia a obra de Bausch. Diferente, original, inovadora, provocadora. Sentida! Vida!

Relembro um texto original que escrevi em 2007:

Dançar! Expressão corporal que diz tudo da alma. Soltar seus passos, lançar seus braços em gestos de mil sentires. Revolta extasiante e libertadora das pulsões não experienciadas.

Todo o ser é ilhéu na sua verdadeira, íntima essência. Todo o ser se encontra solitariamente contido no cabo bojador dos dias e das tormentas. E na dança dos gestos não contidos, ele avança sem véus nem máscaras.


Todo o ser espera com olhos levantados, muito para além do quebrar das fendas de se âmago, pela acalmia em sabores de musical maresia.

Vibrações do tempo em
crescendo ou rallentando que se espraiam no horizonte da vida, em movimentos soltos e desanuviadores de um corpo que grita da alma aromas de jardins e sons intensos.

Fragrâncias onde a vida repousa e a morte se abriga. Compassos sincopados, vozes e murmúrios modulados em notas ora dolentes ora arrebatadoras, sentidas, num pianissimo dedilhadas, explodindo depois de um da capo portentoso, dramático, sons de percussão, metais e cordas.


Sintonia de sentimentos polifónicos profundos que tanto reflectem a turbulência das emoções do meu Ser!



[texto original, publicado sob pseudónimo em 04.04.2007]


Minha alma é uma orchestra oculta; não sei que instrumentos tange e range, cordas e harpas, timbales e tambores, dentro de mim. Só me conheço como simphonia.

Bernardo Soares, Livro do Desassossego,
Tomo I, Atica 1982


G.S.


Fragmentos Culturais
06.07.2008

Creative Commons License

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.


* Vale a pena visitar a Fotogaleria do Público aqui

Saturday, June 27, 2009

Michael Jackson




REUTERS/Eric Gaillard/Files 1996


Nigel Roddis/Reuters 2009

www.reuters.com







G.S.

Fragmentos Culturais
27.06.2009

Sunday, June 21, 2009

No Limite do Amor - entre a poesia e a vida




The Edge of Love

Baseado numa fase da vida instável do grande poeta galês, Dylan Thomas, considerado um dos maiores poetas do século XX de língua inglesa. Morreu jovem, aos 39 anos, mas deixou um legado poético que tem influenciado toda uma geração de escritores.

No Limite do Amor é portanto um drama biográfico, um filme de época que retrata a relação entre a poesia de Dylan e a sua vida conturbada. Tem por base poética e biográfica The Love Letters of Dylan Thomas e outros Poemas.



Keira Knightley/ Vera Phillips

www.theedgeoflove.co.uk

Keira Knightley no papel de Vera Phillips, uma cantora de cabaret que entretém a população nos corredores do metropolitano (os tubes londrinos), durante a Segunda Guerra Mundial.

A actriz é talvez a força maior deste filme, a personagem que faz a ligação a Dylan mais coerente, destacando-se entre os quatro protagonistas. Uma excelente interpretação em que se disponibilizou até a cantar. E sem dúvida que este papel temático lhe assenta lindamente!



Mesa de Dylan Thomas
www.flickr.com

A história explora o submundo boémio da Londres em tempo de guerra e as complexas vidas íntimas de dois jovens casais cujos amores se vêem perigosamente interligados num filme biográfico que se distancia substancialmente do género tradicional.

Dylan Thomas/ Matthew Rhys


A realização é de John Maybury talvez utópica e pouco consistente. Em parte a personagem Dylan Thomas parece responsável por esta sensação!
Fica-nos a ideia que o actor Matthew Rhys (da galardoada série televisiva Brothers and Sisters) não consegue agarrar a personagem... ou o autêntico Dylan Thomas era mesmo assim?!


Dylan Thomas/ Harper Collins

www.eason.ie


This day winding down now
At God speeded summer's end
In the torrent salmon sun,
In my seashaken house
On a breakneck of rocks
Tangled with chirrup and fruit,
Froth, flute, fin, and quill [...]

Dylan Thomas, Prologue,
último poema, 1914-1953


"I couldn't be happier to be opening this most auspicious festival with this utterly seductive and fascinating film, which stars some of the most charismatic young performers in the business, and affirms John Maybury as one of our most important directors," said Hannah McGill, the event's artistic director. "It's a film that I personally adore, and opening with it is the perfect expression of our commitment to intelligent, impassioned, exciting new film-making."


Edimburgh International Film Festival

Um filme interessante, apesar de tudo, um drama intenso, não perfeito, excessivamente longo.

As críticas dividem-se, como sempre! Mas nunca me deixo influenciar quando um filme ou um livro me seduzem.

O que me atraiu? A poesia de Dylan Thomas, e a banda sonora de Angelo Badalamenti! Duas mais valias!


Composing music for The Edge of Love has been an absolute joy.

The opportunity to write a dramatic score with original songs for a film is rare and special. I was fortunate to have been involved with The Edge of Love early in the filmmaking process, as that allowed these ideas to come to fruition. It gave me a chance to tailor-make the songs as an integral part of the score.

Angelo Badalamenti







Angelo Badalamenti is a magician!


The breadth and range of his work as a composer speaks for itself. This work for my film The Edge of Love adds to his already astonishing body of work in the same way that it completes the film - the emotion, humour and pure invention enriches the images just as it supports them. The pleasure of working with this brilliant man is, I think, audible in the very substance of the music contained on this disc. All I really want to say is: Thank you Angelo - angel indeed.


John Maybury, 2008


G.S.

Fragmentos Culturais
21.06.2009

Wednesday, June 10, 2009

Júlio Pomar em Retrospectiva




Edgar Poe, Fernando Pessoa e o Corvo

Júlio Pomar, 1983 Colecção Particular
Postas de parte as atracções específicas que caracterizaram cada período do meu trabalho, sempre uma imagem deu origem a outras imagens, e sempre o meu quadro se fez - ou se desfez - de sucessivos encaixes ou desencaixes . E muitas vezes se faz à medida que as imagens se desfazem.


Júlio Pomar, Da Cegueira dos Pintores
Colecção arte e artistas, IN-CA, 1986, pág. 31


Júlio Pomar, um dos meus pintores favoritos, está em retrospectiva em Lisboa! Poderá ser vista no "Centro de Arte Contemporânea Manuel de Brito" que foi seu marchand e amigo pessoal durante a vida.

A retrospectiva manter-se-à aberta ao público todo o Verão e expõe obras das várias fases da obra do artista!

fonte: RTP



Centro de Arte Contemporânea Manuel de Brito

http://alexandrepomar.typepad.com

O Centro de Arte Contemporânea Manuel de Brito fica situado em Oeiras e foi inaugurado em Novembro de 2006. Está sediado no Palácio dos Anjos, edifício do século XIX, recentemente remodelado.

A aura de passado que envolve o local contrasta harmoniosamente com a arte aqui exposta: acervo de Manuel de Brito representativo da arte portuguesa do século XX.



Júlio Pomar
Fotografia: Luís Guita/ Lusa 2009


Pomar recebeu há poucos dias o Prémio da Latinidade 2009 'João Neves Fontoura', antigo Troféu Latino.

fonte: IC







Já dediquei neste espaço, em 2007, um post a Júlio Pomar. Aí explanei toda a minha atracção pela sua pintura. Poderão ler aqui


Fragmentos Culturais

10.06.2009

Wednesday, June 3, 2009

Feira do Livro volta à Baixa do Porto




79ª edição Feira do Livro do Porto

Fotografia: Cláudia Ribeiro/Agência Zero



De 27 de Maio a 14 de Junho os livros regressam aos Aliados para fazer “Viver a Leitura”. Novas instalações, espaços de convívio e lazer já estão a ser instalados no coração do Porto, que este ano começa a bater mais cedo.





A Feira do Livro do Porto 2009 voltou ao seu espaço de origem - a Avenida dos Aliados! Já não era sem tempo!

Depois de vários anos encurralada no Pavilhão Rosa Mota, a Feira do Livro do Porto rumou de novo à Avenida dos Aliados e está a decorrer desde o dia 28 de Maio, prolongando-se até 14 de Junho.

O projecto inseriu-se, segundo a Câmara Municipal do Porto, num amplo projecto de revitalização da Baixa portuense. Pois muito bem!

Considero que a Feira do Livro nunca deveria ter abandonado o seu espaço natural porque a Baixa se tornou muito mais sombria sem os seus espaços de cultura. E este é um dos mais importantes!

Supremos prazeres! Livros e debates, conversas amenas à volta de ideias, novos autores, outros olhares.




Fotografia: Jorge Padeiro/Agência Zero

feiradolivrodoporto.pt/blog


O programa é muito promissor e isso enche-nos a todos de satisfação! Finalmente, a cultura volta à Baixa!

Debates, apresentações, lançamentos, espectáculos coreográficos, conferências e outras celebrações em torno do livro, promovidos pela APEL e pelos participantes, terão lugar nas Praças distribuídas ao longo da Feira e no Auditório, constituindo, a par da alargada oferta de livros, um dos grandes motivos para a afluência de visitantes à Nova Feira do Livro do Porto.

Nos diferentes espaços serão aflorados temas tão diversos como ficção, ecologia, biografias, rock, linguística, história, astronomia, revistas literárias, entre outros. Autores, editores, livreiros, críticos literários, intelectuais e conhecidas personalidades da vida pública nacional, participarão nos debates, apresentações e sessões de autógrafos.

feiradolivrodoporto/blog


Livro das Virtudes *


Ler que pode ser um vício, uma pedanteria ou um hábito, está reduzido a ser uma questão de tempo.

(...)

A sociedade não se organizou no sentido de fazer do leitor um património cultural. Aquele que lê modera as leis da imbecilidade que é o mesmo que dizer as leis do mal.


L, Leitura, Agustina Bessa-Luís
Dicionário Imperfeito,
Guimarães Editores, Junho 2008



Fragmentos Culturais
02.05.2009


* Autor gravura não identificado

Tuesday, May 26, 2009

Palma de Ouro de Cannes para Salaviza




Suponho que foi motivo de orgulho para todos nós, saber que um jovem cineasta português foi galardoado em Cannes com o maior prémio deste festival - a Palma de Oiro.




Depois de ter sido seleccionado de entre mais de 3.600 filmes, Arena do jovem realizador português João Salaviza foi o grande vencedor da secção Curta- Metragem do 62º Festival de Cannes.



REUTERS/Regis Duvignau
FRANCE ENTERTAINMENT

news.yahoo.com/photos

"Obrigado ao Festival por nos permitir mostrar a nossa paixão e amor pelo cinema, obrigado ao júri por seleccionar este filme e obrigado à minha produtora, que não pôde estar aqui esta noite mas está muito feliz".

João Salaviza


O autor-realizador explicou que Arena é um filme sobre violência urbana e juvenil, sobre bairros problemáticos que são verdadeiras "bombas-relógio".

ANC/SS
Lusa/fim

Expresso, 24.05.09


Ao percorrer as muitas fotografias do Festival de Cannes, encontrar-se-ão duas ou três de João Salaviza, duas das quais com legenda errada. Não é o nome do realizador português que nelas consta.

A própria página web IMB quase o desconhece!
Mas tudo isso que importa?! João Salaviza ganhou!

Tento relativizar porque o filme é anterior a tudo isto. Os prémios são coisas que nada têm a ver com os filmes. Representam a ideia de cinco pessoas que preferiram este filme em detrimento de outros.

João Salaviza


Arena fora já premiado no dia 2 Maio no Festival IndieLisboa, como Melhor Curta-Metragem Portuguesa.

O que Arena traz é um misto de realismo e narrativa. "O que não é muito comum em Portugal - quando se filmam as franjas, está-se muito mais próximo do documentário do que da ficção".

João Valverde (programador do IndieLisboa)
fonte: cinecartaz





Mais do que captar as transformações de um lugar, interessa-me a tensão dos momentos em que nada se altera. O protagonista de “Arena” está confinado a um espaço e a um tempo limitados. Ao filmar o Mauro em prisão domiciliária confrontei-me com a condição de um homem que não tem para onde ir. Segui esta ideia, desde o guião até à montagem. O princípio de que os planos não se antecipam às deambulações do protagonista, nem lhe sugere caminhos que ele, simplesmente, não pode ver. É justo para alguém que vive com grades nas janelas de casa, e que está secretamente à espera que as coisas mudem por si.

João Salaviza



FICHA TÉCNICA


Realizador:
João Salaviza
Género: Drama, Ficção
Ano: 2009 Data da Estreia: n/d
Duração:
10m
Com: Carloto Cotta, Rodrigo Madeira

fonte: Cinema Português


Apesar da Palma de Ouro, Arena ainda não tinha distribuição assegurada, em Portugal, segundo as palavras de João Salaviza no dia da atribuição do galardão.
Esperemos que esta situação se tenha alterado! Isto só nos envergonharia!


G.S.

Fragmentos Culturais
26.05.2009


Saturday, May 16, 2009

Hélia Soveral - uma homenagem



hem.fyristorg.com/piano

[...] Não havia limite, o teclado escondia o infinito. Parecia simples, sete oitavas, não mais, um espaço tão curto que cabia dentro dos seus braços - e no entanto tinha a vastidão do mar.[...]

Teolinda Gersão, Os Teclados, Publicações dom Quixote, 1ª edição, Abril 1999


Morreu Hélia de Soveral, minha professora de piano, minha amiga e mestre, numa das áreas em que me especializei.

De grande sensibilidade musical e humana, acompanhou a minha adolescência e depois a minha vida, enquanto a sua saúde o permitiu.

Estudou com Luís Costa, um dos notáveis compositores da música contemporânea portuguesa, e mais tarde com grandes mestres internacionais, destacando-se a sua participação no último curso de interpretação de Alfred Cortot, uma das maiores referências da música de piano.

Foi uma das professoras mais importantes que passaram pelo antigo Conservatório de Música do Porto.

Não impeças a música. Que música? Antes de mais, a deste concerto que é a vida humana, onde temos obrigatoriamente de ocupar o nosso lugar, pequeno ou grande. Não somos cigarras que gritam perdidamente no ramos de pinheiro em longo dia de verão. Devemos estar atentos ao que se passa à nossa volta: uma boa parte do nosso destino depende da sensibilidade do nosso ouvido, da qualidade da nossa inteligência e do virtuosimo dos nossos reflexos.


Paul Claudel [1868-1955]


A sua visão sagaz e pioneira da importância da música como parte integrante do ser humano, fê-la avançar posteriormente com dois grandes projectos na cidade do Porto - a Escola de Música do Porto - por onde passaram nomes tão consagrados como Pedro Burmester, António Pinho Vargas, Miguel Henriques e tantos outros.

Mais tarde, compreendendo a importância de formar músicos profissionais - Escola Profissional de Música do Porto - de onde saíu uma nova geração de músicos que hoje são solistas ou integram as grandes orquestras nacionais.

Nunca esqueceu a vertente cultural! Considerava pioneiramente que um músico só seria inteiro se tivesse uma educação cultural alargada.

Daí ter integrado cadeiras de cultura geral nos seus cursos de música, que abriram muitas fronteiras a tantos jovens que buscavam a sua escola.

Teve um outro sonho! Fundar o Conservatório de Música de Viseu, como ilustre viseense que se orgulhou sempre de ser.

Foi com profunda mágoa que a vi ontem partir. E lembrei um texto que eu escrevi, em tarde quente de Agosto 2006:


Há dias em que as lembranças aparecem e se instalam de mansinho. E vêm para permancer in tempo, na imagética da vida.

Hoje é um deles! Já ontem à noite pairava no ar uma certa nostalgia, que fora arrumando no cantinho da memória, como que não querendo dar-lhe demasiada importância.

Mas, mal acordei, ela ali estava , certa e segura, como que relembrando que não é sentimento que se arrume. A pureza de momentos vividos é para ser presente.

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Fotografia: Mark Tucker

www.marktucker.com


A foto não foi escolhida só pela beleza estética que é inegável. Tocou-me profundamente. E porquê? Pela ilustração quase verídica de momentos próximos de meu ser.

Trouxe-me de volta longas horas sentada em frente ao piano, lendo partituras longas, repetindo repetindo escalas, exercícios, compassos, aprimorando peças, preparando exames, audições, participação em concursos.

Tudo isto fez efectivamente parte de um percurso já percorrido.

Lembro o rosto e o jeito da professora, o seu grau de exigência, um lápis sempre em toques ritmados, ou então o bater os pés nervosamente, quando sentia um compasso errado, num acompanhamento permanente das notas dedilhadas, tantas vezes distraídamente, em tardes de verão quentes, como a de hoje.

[...] Às vezes, ela saía, logo a seguir, caminhava na rua, tocando apenas mentalmente, para não se deixar interromper. Andava pelo meio das casas e ouvia ouvia (...) As árvores balançavam os ramos, e os carros passavam, as pessoas cruzavam-se com ela, mas não a interrompiam. Só quando chovia ela se abrigava debaixo de uma varanda ou no vão de uma porta, parava mentalmente de tocar e fechava o piano.

Teolinda Gersão, Os Teclados, Publicações Dom Quixote, 1ª edição 1999

 

Meus pensamentos voavam sempre para bem longe, pausas de sobrevivência de uma miúda que procurava também nos livros um recanto complementar àqueles pulsares repetitivos e por vezes fastidiosos. Mas o empenhamento, esse sempre foi constante.

E chegado o momento de ver o meu trabalho exaustivo trocado pelo prazer de tocar, mesmo que sob o imenso stresse de ser escutada ou avaliada, era um sentimento pleno de bem-estar melódico.

A música dava-me a outra vertente da minha sensibilidade que se desenvolveu e aprimorou no estudo dos grandes compositores.

Partitura original de Johann Sebastian Bach

Fotografia: Jens Meyer/AP 2006

news.yahoo.com/photos


Talvez que seja o tempo certo - há coisas inexplicavelmente sentidas - para inscrever neste espaço de alguns sentires, o meu enorme carinho pela minha professora de piano, uma afectuosa e sincera homenagem.

Uma excelente profissional e uma pianista de grande mérito que fez muito pelo ensino da música em Portugal, e tão pouco reconhecida.

Actualmente, restringida por uma doença implacável que lhe destruiu a capacidade maior - poder continuar a tocar e a leccionar.

 

Um beijo muito sentido e um abraço musical eternamente fraterno!

 

texto: G.Souto

30.Agosto.2006



[...] Et non seulement l'imagination musicale, celle d'un Chopin, d'un Schumann ou d'un Fauré, qui se suffit à elle-même et qui traduit, sans le formuler explicitement, les rêves et les désirs humains, [...]

Alfred Cortot, La Musique Française de Piano, Presses Universitaires de France, 3e édition, 1948






Fragmentos em tons dolentes de mágoa, homenagem terna a Hélia Soveral Torres, lição de piano de Alfred Cortot, seu querido mestre.

16.05.2009


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