Monday, December 30, 2013

Falando de um Reino Maravilhoso




Graça Morais | Autoretrato


Miguel Torga - Graça Morais
Um Reino Maravilhoso
Edições Dom Quixote (2002)

É um maravilhoso livro-objecto. Junta dois enormes vultos da cultura portuguesa do século XX. O escritor Miguel Torga (natural de São Martinho da Anta) e a pintora Graça Morais (natural do Vieiro). Dois transmontanos. Por inteiro. 

O texto de Torga começa em jeito de fábula: 

"Vou falar-lhes de um Reino Maravilhoso..."

foi proferido num congresso sobre Trás-os-Montes em 1941.

As pinturas de Graça Morais (num total de 49 gravuras) fazem parte das séries Terra Quente, As Deusas da Montanha e Metamorfose. 



Graça Morais | Autoretrato

"As cabeças das mulheres que pintei mostram rostos de olhos fechados que meditam numa vida cheia de histórias e de sofrimento."

Graça Morais



Miguel Torga - Graça Morais
Um Reino Maravilhoso

É um mundo fantástico, das árvores, das gentes, dos animais. Do granito, das serras, das montanhas. O maravilhoso reino da terra.

"Embora muitas pessoas digam que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo. O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade e o coração, depois, não hesite. Ora, o que pretendo mostrar, meu e de todos os que queiram merecê-lo, não só existe como é dos mais belos que se possam imaginar."

Miguel Torga



Miguel Torga - Graça Morais
Um Reino Maravilhoso


Mensagem perfeita para este Novo Ano que se abre. Um Novo Ano. Atravesso estes dois últimos dias e vou em frente, oásis da inquietação. Não invento, não imagino. 

"Apenas se move e faz ouvir o coração no peito, inquieto, a anunciar o começo de uma grande hora."

Miguel Torga

Bom Ano 2014 ! 

G-S

Fragmentos Culturais 2013

30.12.2014
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Tuesday, December 24, 2013

Natal (des)encanto?




Christmas windows
http://static.guim.co.uk/


Natal ! Não me sinto particularmente inspirada para escrever sobre o Natal. Natal quase deixou de ser Natal.

O encanto se vai, a alegria se desprende. E até o tempo  na sua bravura das últimas horas se familiariza nos desencantos que nos afogam. As nuvens não são esperança, o céu não demontra bondade.

Não vou deixar nenhum poema de Natal. Até os poetas estão gastos. 

Não há nuvens de esperança, escrevi, e, no entanto, resta ainda um pequeno azul-céu de fraternidade na alma das pessoas.

As casas se preparam para iluminar este dia sombrio e entrar na noite com os odores das romãs, frutos secos, mel, erva doce, canela, chocolate quente ao findar a noite.


No íntimo de cada um nós prevalece então um sentimento mais puro. 


E a haste de azevinho poisada na mesa. Tradições guardadas.

Ah! E a magia! Alguns de nós não deixam perder-se a magia do tempo de Natal. A imagem assim o simboliza.

O que guardamos? Afectos que se envolvem nesta noite mais macia.

Deixo, amigos, na curta mensagem, votos de esperança. E que o ano que termina, se abra para um Novo Ano de Luz.

Festas Felizes !

G-S

Fragmentos de Natal

24.12.2013
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Saturday, December 14, 2013

E se o Pai Natal fosse a sério !





Havia previsto um post bem diferente. Mas, depois do dia chuvoso e triste de ontem, um magnfico dia de sol, hoje. 

Pois bem! Aproveitando esta onda de positividade que o sol nos transmite, decidi-me pelo espírito natalício que anda já pelo ar, mas um pouco arredado da lusa terra.

Uma semana e meia de lutos e tristezas, entre Nelson Mandela e Nadir Afonso (sobre quem estava a escrever).

Eis se não quando me deparo com este vídeo viral, que não deixa de ser publicitário, mas que fez mais de 250 pessoas muito felizes! 




Depois de uma longa espera junto ao tapete das bagagens, a porta abriu-se rolaram presentes em lugar de malas. Com o nome dos passageiros em cada um.

Ora há lá coisa melhor do que ver gente feliz? Concordam comigo, não? Estamos bem a precisar de momentos bons, ternurentos, daqueles que ns fazem sorrir, mesmo só de ver a felicidade no rosto dos outros.

Cá vai, para quem ainda não viu! Uma companhia aérea que não menciono, mas facilmente identificada no vídeo, supreendeu muitos dos seus passageiros num voo tão especial que estes jamais esquecerão.




Viram, então? E sorriram? Que coisa gostosa! É bom ser feliz.


Imaginação também é preciso. E a superprodução não a poupou. Três grandes equipas, 16 câmaras em três aeroportos. Claro! A companhia áerea já conseguiu lugar garantido entre os vídeos virais do Natal 2013.
A publicidade, segundo a companhia aérea, tem também um fim solidário, Consoante o número de visualizações, assim a companhia fará ofertas de voos para famílias desfavorecidas. A ler aqui
Espero que cumpra.
Retomamos Fragmentos Culturais no post seguinte. Para já, fica o sorriso.*


G-S

Fragmentos em formato web 2.0

14.12.2013
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*Nota: Devido ao excesso de ataques de spam sofridos ao longo destes dois últimos meses, sou forçada a passar para a opção de 'aprovação' de todos os comentários.

Aos amigos fiéis, peço que compreendam as razões. 

Thursday, December 5, 2013

Tributo a Nelson Mandela




Maureen Bisilliat photographer




"One issue that deeply worried me in prison was the false image that I unwittingly projected to the outside world; of being regarded as a saint," (...) "I never was one even on the basis of an earthly definition of a saint as a sinner who keeps on trying."
Nelson Mandela

"We give thanks for his life, his leadership, his devotion to humanity and humanitarian causes."
Nelson Mandela Foundation
Não há  muitas palavras. Há pessoas imortais. Há ideais  que mudam a História. 
G-S
Fragmentos
05.12.2013
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Sunday, December 1, 2013

A arte do objecto : a nova Pop Arte ?




Les marques, nouveaux objets du musée

Os museus abrem-se a novos conceitos de Arte. Não é para admirar. O mundo evolui e com ele evolui tudo o que está ligado à interacção da Humanidade com o quotidiano. Material, cada vez mais, alienação talvez. O que não é propriamente o melhor lado da vida.


Mas não me choca. Sou receptiva a todo o tipo de evolução. Apenas preservo a ética e a estética em cada uma das novas expressões.

Sigo repetindo que tudo está inventado no que concerne a Arte, as Humanidades. Reinventam-se apenas. Remisturam-se. Só as Ciências e as Tecnologias têm ainda novos caminhos a percorrer.

Vejamos então! Le Monde-Culture, uma das minhas leituras de fim-de-semana, tem hoje dois artigos que passo a expor.

Les marques, nouveaux objets du musée que fala de novos paradigmas de arte. Por exemplo, as exposições no Grand Palais. Depois de Miss Dior que terminou em 25 Novembro 2013: 

"Dior invite 15 artistes féminines venues du monde entier à s’inspirer librement de ce parfum de légende. En s’emparant de ses codes éternels, son flacon et son motif pied-de-poule, son noeud poignard comme son égérie Natalie Portman, leurs oeuvres visionnaires nous plongent dans l’histoire de la maison Dior. "


Grand Palais


Joana Vasconcelos Miss Dior (le noeud)

Entre as 15 artistas femininas, Joana Vasconcelos. Há quem ame. Há quem deteste. Eu aprecio algumas das suas obras. E admiro a excentricidade que põe na arte. Exuberante. Criativa.

Segue-se Cartier, le Style, l'Histoire (até 16 Fevereiro 2014):




"Cartier a pourtant joué un rôle très important dans l’histoire des arts décoratifs. Ses créations, du classicisme du « joaillier des rois » aux inventions radicales du style moderne, entre géométrie et exotisme, offrent un témoignage passionnant sur l’évolution du goût et des codes sociaux. Joaillerie, horlogerie, objets aussi pratiques que raffinés : Cartier a séduit les personnalités les plus élégantes du XXe siècle."

Cartier (app)





No Palais de Tokyo que pude visitar em Setembro último, está Dans les pas de Roger Vivier que foi precedida de Nº 5 Culture Chanel.



Jóias, perfumes, sapatos, vestuário de luxo, tomam lugar ao lado de George Braque, Félix Valloton no Grand Palais ou Philippe Parreno no Palais de Tokyo.

A arte do objecto? Continuo no Le Monde. Um outro artigo, este a propósito da exposição David Bowie no Victoria and Albert Museum. Mais de 300 000 pessoas 'interagiram' com o ícon musical. A exposição "Bowie Tour" anda agora pelo mundo, tendo já passado por Toronto, São Paulo, e Chicago. A  "Bowie Tour" chegará a Paris, La Villette, em 2015. Duvido que passe pelo nosso país. 


Aqui então o artigo, L'extension du domaine de l'art:


"Tout s’expose aujourd’hui. Y compris des créateurs qui ne sont pas faits pour ça. Des écrivains, des musiciens, des cinéastes..." A ler. Uma análise interessante.

É talvez uma faceta de arte que não esperava. A arte do objecto. Mas que se enquadra bem no estilo da época em que vivemos.

Se me perguntam se é a arte que visito? Não, com certeza. Se aceito? Sim, sem dúvida.


Uma excepção! 
David Bowie, essa sim. Como lamentei não poder ir a Londres!


"In the name of God, stop a moment, cease your work, look around you."

Leo Tolstoy (from Stop and Think)

G-S

Fragmentos Culturais Contemporâneos

01.12.2013
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Tuesday, November 26, 2013

Dia Internacional para a Eliminação da Violência de Género



Vanessa Paradis 

"I welcome the chorus of voices calling for an end to the violence that affects an estimated one in three women in her lifetime. I applaud leaders who are helping to enact and enforce laws and change mindsets. And I pay tribute to all those heroes around the world who help victims to heal and to become agents of change ."
Secretary-General Ban Ki-moon
No Dia Internacional para Eliminação da Violência Contra as Mulheres, agora também denominado Dia Internacional para a Eliminação da Violência de Género, as Nações Unidas divulgaram os seguintes dados:
"Entre 500,000 a dois milhões de pessoas são traficadas anualmente para situações que incluem prostituição, trabalho forçado, escravatura. 
As mulheres e meninas representam cerca de 80% das vítimas detectadas.
Em Portugal, trinta e duas mulheres já terão morrido este ano, vítimas de actos de violência masculina. 
Basta
- digo –
que se faça
do corpo da mulher

a praça – a casa
a taça

a água

Com que se mata
a sede
do vício e da desgraça

Maria Teresa Horta, Basta

(in Poesia Reunida, pág. 448, Dom Quixote-Leya, 2009)


Para que não se esqueça.

G-S

Fragmentos 

26.11.2013
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Sunday, November 17, 2013

Duas escritoras, um concerto, um domingo




Outono no Parque de Serralves
foto: Serralves 
Escrevia este post quando li a notícia da catástrofe nas Filipinas. Não podia publicar fragmentos de cultura quando vidas de milhares de pessoas eram destruidas.

Emocionada, prestei tributo a um povo sofredor. Sentia-me triste. E adiei.

Hoje, voltei a ele. Não por completo. Dividi-o. Suponho que alguns assuntos poderão ser interessantes, apesar de um pouco desfazados no tempo - tudo passa tão rápido no mundo em que vivemos - e outro juntei, mais 'actual' (entenda-se 'actual' como sendo de hoje).

Mas em fragmentos, falo dos meus afectos culturais, presentes ou passados, andando por aí, entre trabalho, momentos de pausa, música e/ou concerto(s), cinema. E claro! Leituras.

Do Outono, voltou a sentir-se o aroma nesta luminosidade leveAs folhas soltas arrumam-se por cantos, perdidas. O sol de inverno tem dado alento aos nossos dias. 

Das janelas, avista-se a paisagem em tons pastel sob o infinito suave. Na rua, aconchegam-se os agasalhos.

Tempo ideal para escrever, falar de música e/ou concertos - uma noite passada na Sala Suggia - livros, com uma fumegante tisana aromatizada por perto. Noite fria. Lua cheia.


Doris Lessing (1919-2013)
foto: Toby Melville Files | REUTERS

"A compelling storyteller with a fierce intellect and a warm heart”

Doris Lessing, Prémio Nobel da Literatura (2007) morreu esta manhã. A escritora britânica, nascida nIrão, vivera no Zimbabué, mudando-se em 1949 para Inglaterra.

"that epicist of the female experience, who with scepticism, fire and visionary power has subjected a divided civilisation to scrutiny".

Nobel Prize

Doris Lessing

Doris Lessing foi a 11ª escritora (no feminino) a receber o Nobel. Nâo era muito conhecida, na altura, como muitas vezes acontece. Lembremos Herta Mueller (2009).

Mas triste é saber que Lessing perdera a memória há algum tempo. Que lástima! Uma vida intelectual tão intensa. Atroz doença.

Não lembrava mais ter sido escritora, nem galardoada com o Nobel. Quase tudo se esvaíra. Mas adorava ouvir ler. Quando os amigos a visitavam, liam-lhe excertos dos livros que ela escrevera. Dizem que se emocionava, mas não recordava tê-los escrito. E, no entanto, tem uma vasta bibliografia, cerca 60 obras publicadas.

Autora de O Caderno Dourado, A Erva CantaO Quinto Filho, e tantos outros, era conhecida pelos seus romances, contos, poesia e outros obras, mas também pelas suas posições anti-apartheid, anti-colonialistas e feministas.

BBC dedica-lhe vários artigos que podem ler. Também há um interessante vídeo a ver aqui. Nele, Lessing, na 1ª pessoa, fala de si e dos seus livros. 

Alice Munro | Amada Vida
Relógio d'Agua

Uma outra escritora, Alice Munro, contista canadiana, foi galardoada em Outuobro com o Nobel da Literatura 2013

 "master of the contemporary short story”. 

Nobel Prize

Munro é assim a 13ª mulher a receber este prémio. No entanto, a escritora já recebera outros importantes prémios literários. Man Booker Prize (2009) é um deles.

Tem livros traduzidos em mais de dez idiomas. Supnho que toda a a obra de Alice Munro está publicada em  Portugal pela Relógio d'Agua

Amada Vida, uma colectânea, é segundo a autora o seu último livro. Foi editado por cá em Maio 2013. Um estilo delicado, histórias de vidas comuns, contadas com sofiticada sensilibildade. Li de cada uma das autoras, apenas um livro. 



Alice Munro
foto: autor não identificado

"Alice Munro não desmerece – mas, perdoem-me a franqueza, não é melhor do que Lídia Jorge, Luísa Costa Gomes ou Teolinda Gersão, antes pelo contrário.

Clarice Lispector, Marguerite Duras, Marguerite Yourcenar, Sophia de Mello Breyner e Virginia Woolf nunca o receberam. Fora as muitas outras que nunca chegámos a ler, porque escreviam em húngaro, checo ou árabe, e nunca sequer chegaram a ser traduzidas, ou mesmo publicadas.

E o conto é, sem dúvida, uma delicada forma de arte, mas o trabalho do contista não se compara à exigência arquitectónica implícita no trabalho de um bom romancista."

Inês Pedrosa (excertos de artigo a ler aqui)

Bem, não posso concordar completamente com Inês Pedrosa, embora ela tenha enunciado nomes 'grandes' da literatura que muito admiro e releio.

Não é apenas pelo mérito da escrita que se recebe um Nobel. E não vejo o conto como arte menor da literatura! Bem pelo contrário.  Felizmente estão comigo dois críticos literários na revista Ler.

Há muitos romancistas. Mas há poucos escritores considerados bons  na arte do conto. Nada assim tão linear.

Aimee Mann | Casa da Música
foto: Créditos Gustavo Machado


A música! Aimee Mann quase encheu a Sala Suggia, no dia 7 Novembro, Casa da Música. Concerto semi acústico, intimista.

A cantautora californiana que muitos associam ao tema One em Magnolia, filme de Paul Thomas Andersen (1999), encantou os fãs pela simplicidade e talento. Veio apresentar seu último trabalho Charmer (lançado em Setembro 2012). 

Se esperavam um noite quente, bem animada, desenganem-se! Aimee Mann permaneceu igual a si própria, tal como transparece na sua música. Calma, simpática, talentosa sem dúvida, muito pragmática.




Aimee Mann | Casa da Música
foto: Créditos Gustavo Machado

Ninguém se levantou, entusiasmou, ou acompanhou suas canções. Tudo muito soft, ao jeito mesmo de Aimee Mann. No registo quase monocórdico, ninguém ousou levantar-se, trautear, balançar. Nada. 

Não fossem as luzes, o envolvimento humano, a sala, quase não nos sentiríamos num concerto ao vivo. 

É óbvio que a belíssima One da banda sonora de Magnolia fez sucesso. Mas sem muito envolvimento. A canção é intimista.

Apenas para o encore, nos levantámos. Uma ovação de agradecimento (a cantora permaneceu em palco mais de duas horas) trouxe de novo Aimee Mann e os seus músicos, bem como Ted Leo que fez a primeira parte do concerto e dividiu alguns temas com Aimee Mann na segunda parte.

Saí desiludida? Não. Pressentia este género de concerto. Conhecia o estilo da cantora. Para valorizar, dois excelentes músicos, baixista/voz e pianista imprimiram um estilo mais pop aos temas instrospectivos de Aimee Mann.

Uma noite serena, como esta de domingo, apesar da lua cheia. E a noite em azul-rei está linda.


G-S
Fragmentos Culturais

17.11.2013
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