Sunday, November 17, 2013

Duas escritoras, um concerto, um domingo




Outono no Parque de Serralves
foto: Serralves 
Escrevia este post quando li a notícia da catástrofe nas Filipinas. Não podia publicar fragmentos de cultura quando vidas de milhares de pessoas eram destruidas.

Emocionada, prestei tributo a um povo sofredor. Sentia-me triste. E adiei.

Hoje, voltei a ele. Não por completo. Dividi-o. Suponho que alguns assuntos poderão ser interessantes, apesar de um pouco desfazados no tempo - tudo passa tão rápido no mundo em que vivemos - e outro juntei, mais 'actual' (entenda-se 'actual' como sendo de hoje).

Mas em fragmentos, falo dos meus afectos culturais, presentes ou passados, andando por aí, entre trabalho, momentos de pausa, música e/ou concerto(s), cinema. E claro! Leituras.

Do Outono, voltou a sentir-se o aroma nesta luminosidade leveAs folhas soltas arrumam-se por cantos, perdidas. O sol de inverno tem dado alento aos nossos dias. 

Das janelas, avista-se a paisagem em tons pastel sob o infinito suave. Na rua, aconchegam-se os agasalhos.

Tempo ideal para escrever, falar de música e/ou concertos - uma noite passada na Sala Suggia - livros, com uma fumegante tisana aromatizada por perto. Noite fria. Lua cheia.


Doris Lessing (1919-2013)
foto: Toby Melville Files | REUTERS

"A compelling storyteller with a fierce intellect and a warm heart”

Doris Lessing, Prémio Nobel da Literatura (2007) morreu esta manhã. A escritora britânica, nascida nIrão, vivera no Zimbabué, mudando-se em 1949 para Inglaterra.

"that epicist of the female experience, who with scepticism, fire and visionary power has subjected a divided civilisation to scrutiny".

Nobel Prize

Doris Lessing

Doris Lessing foi a 11ª escritora (no feminino) a receber o Nobel. Nâo era muito conhecida, na altura, como muitas vezes acontece. Lembremos Herta Mueller (2009).

Mas triste é saber que Lessing perdera a memória há algum tempo. Que lástima! Uma vida intelectual tão intensa. Atroz doença.

Não lembrava mais ter sido escritora, nem galardoada com o Nobel. Quase tudo se esvaíra. Mas adorava ouvir ler. Quando os amigos a visitavam, liam-lhe excertos dos livros que ela escrevera. Dizem que se emocionava, mas não recordava tê-los escrito. E, no entanto, tem uma vasta bibliografia, cerca 60 obras publicadas.

Autora de O Caderno Dourado, A Erva CantaO Quinto Filho, e tantos outros, era conhecida pelos seus romances, contos, poesia e outros obras, mas também pelas suas posições anti-apartheid, anti-colonialistas e feministas.

BBC dedica-lhe vários artigos que podem ler. Também há um interessante vídeo a ver aqui. Nele, Lessing, na 1ª pessoa, fala de si e dos seus livros. 

Alice Munro | Amada Vida
Relógio d'Agua

Uma outra escritora, Alice Munro, contista canadiana, foi galardoada em Outuobro com o Nobel da Literatura 2013

 "master of the contemporary short story”. 

Nobel Prize

Munro é assim a 13ª mulher a receber este prémio. No entanto, a escritora já recebera outros importantes prémios literários. Man Booker Prize (2009) é um deles.

Tem livros traduzidos em mais de dez idiomas. Supnho que toda a a obra de Alice Munro está publicada em  Portugal pela Relógio d'Agua

Amada Vida, uma colectânea, é segundo a autora o seu último livro. Foi editado por cá em Maio 2013. Um estilo delicado, histórias de vidas comuns, contadas com sofiticada sensilibildade. Li de cada uma das autoras, apenas um livro. 



Alice Munro
foto: autor não identificado

"Alice Munro não desmerece – mas, perdoem-me a franqueza, não é melhor do que Lídia Jorge, Luísa Costa Gomes ou Teolinda Gersão, antes pelo contrário.

Clarice Lispector, Marguerite Duras, Marguerite Yourcenar, Sophia de Mello Breyner e Virginia Woolf nunca o receberam. Fora as muitas outras que nunca chegámos a ler, porque escreviam em húngaro, checo ou árabe, e nunca sequer chegaram a ser traduzidas, ou mesmo publicadas.

E o conto é, sem dúvida, uma delicada forma de arte, mas o trabalho do contista não se compara à exigência arquitectónica implícita no trabalho de um bom romancista."

Inês Pedrosa (excertos de artigo a ler aqui)

Bem, não posso concordar completamente com Inês Pedrosa, embora ela tenha enunciado nomes 'grandes' da literatura que muito admiro e releio.

Não é apenas pelo mérito da escrita que se recebe um Nobel. E não vejo o conto como arte menor da literatura! Bem pelo contrário.  Felizmente estão comigo dois críticos literários na revista Ler.

Há muitos romancistas. Mas há poucos escritores considerados bons  na arte do conto. Nada assim tão linear.

Aimee Mann | Casa da Música
foto: Créditos Gustavo Machado


A música! Aimee Mann quase encheu a Sala Suggia, no dia 7 Novembro, Casa da Música. Concerto semi acústico, intimista.

A cantautora californiana que muitos associam ao tema One em Magnolia, filme de Paul Thomas Andersen (1999), encantou os fãs pela simplicidade e talento. Veio apresentar seu último trabalho Charmer (lançado em Setembro 2012). 

Se esperavam um noite quente, bem animada, desenganem-se! Aimee Mann permaneceu igual a si própria, tal como transparece na sua música. Calma, simpática, talentosa sem dúvida, muito pragmática.




Aimee Mann | Casa da Música
foto: Créditos Gustavo Machado

Ninguém se levantou, entusiasmou, ou acompanhou suas canções. Tudo muito soft, ao jeito mesmo de Aimee Mann. No registo quase monocórdico, ninguém ousou levantar-se, trautear, balançar. Nada. 

Não fossem as luzes, o envolvimento humano, a sala, quase não nos sentiríamos num concerto ao vivo. 

É óbvio que a belíssima One da banda sonora de Magnolia fez sucesso. Mas sem muito envolvimento. A canção é intimista.

Apenas para o encore, nos levantámos. Uma ovação de agradecimento (a cantora permaneceu em palco mais de duas horas) trouxe de novo Aimee Mann e os seus músicos, bem como Ted Leo que fez a primeira parte do concerto e dividiu alguns temas com Aimee Mann na segunda parte.

Saí desiludida? Não. Pressentia este género de concerto. Conhecia o estilo da cantora. Para valorizar, dois excelentes músicos, baixista/voz e pianista imprimiram um estilo mais pop aos temas instrospectivos de Aimee Mann.

Uma noite serena, como esta de domingo, apesar da lua cheia. E a noite em azul-rei está linda.


G-S
Fragmentos Culturais

17.11.2013
Copyright © 2013-Fragmentos Culturais Blog, fragmentosculturais.blogspot.com®
Licença Creative Commons

13 comments:

aflores said...

São momentos assim que eu adoro...o sol quase, quase e desaparecer, o sentir o frio a chegar, enquanto eu passo por este cantinho e me abandono em agradável leitura.
Por aqui há sempre algo de novo para aprender ou aumentar o nosso (meu) conhecimento. Obrigado!

Fragmentos, momentos, que tornam esta vida muito mais agradável e saudável.

As tragédias... nem consigo dizer nada, simplesmente a minha solidariedade.

Tudo de bom.

:)
;)

Petrus Monte Real said...

Fragmentos,

Espero e desejo que esteja tudo bem consigo!

Entrei, através da Hélia Soveral,
e, de imediato,
o título da mensagem
chamou por mim.
À primeira leitura, atrevo o comentário.
É mais uma demonstração da alta qualidade (Palavra, Ilustração e Conhecimento) a que estamos habituados.
São momentos da vida real, ao ritmo da Arte e Cultura, que nos enriquecem, despertam e dão força
para enfrentar o dia a dia.
São momentos eternos,
cuja partilha muito,
muito lhe agradeço.

Um beijo grande de amizade.

Daniel C.da Silva (Lobinho) said...

Querida amiga

Havia algum tempo que aqui não passava. Confesso, igualmente, que tive de procurar no Google para votar a esta sala assim, límpida e sem a mistura de mercado caótico que se me afigura para mim o Google+ e a panóplia dispersa que me engana sempre. E como é bom voltar a um espaço onde cada post é de uma simultânea beleza e densidade, que cativa e faz saborear, lendo sem pressas, voltando atrás, incursando em links a revisitar e/ou outros novos.

Muitas vezes, mais do que comentar os assuntos abordados, é fazer uma degustação literária e humana dos mesmos, já que a sensibilidade perpassa-os sempre.

Também a mim, como a qualquer pessoa, julgo eu, tocou a tragédia das Filipinas (A associação Ajuda à Igreja Que Sofre e tantas outras tentam igualmente ajudar com donativos, e nem que sejam dez euros é já um contributo que se faz, tal como a Associação Cais e tantas outras embora para ajudas diferentes...

Gostei das citações feitas a a propósito da tragédia, e também lamento muito o desaparecimento dessa grande escritora que aprendi a apreciar ao longo do tempo e que é Doris Lessing. Não sei porquê penso também muito noutros nomes assim, como Simone de Beauvoir ou Marguerite Yourcenar,sem falar noutros que mencionas como Virginia Wolf ou mesmo Alice Munro, sem esquecer Vinícius ou Clarisse Lispector que recentemente teve exposto em Lisboa muito do seu trabalho...

Agradeço o comentário amável no meu canto, e far-te-ia o convite de voltares lá brevemente dado que é com emoção e alegria que dou à estampa o meu primeiro livro, de poesia e prosa poética, que terei todo o gosto em enviar autografado a quem o pedir, ou que prefira encomendar pelo site da editora. Não fiz lançamento púbçico; eu sei que é muitíssimo mais eficaz mas não sou muito dado às multidões e auma espécie de comercialização do livro. Sei que assim é, mesmo junto de quem já editou aqui pela blogosfera, mas tendo sempre à máxima preservação possível e não consigo incomodar ninguém com convites que podem parecer insistências de que não gosto. Fica, porém, atenta, e como provavelmente preferirás a edição e-book que sairá muitíssimo mais barata comparataivamente à de papel, também ela existirá...

Deixo um beijinho amigo e uma vez mais grato pela sempre amizade...

Nilson Barcelli said...

Tudo muda, facto, a uma velocidade vertiginosa.
Mas o teu post não ficou ultrapassado pelos acontecimentos.
Gostei dos temas e da forma como os abordaste. Coisa que é uma constante no teu blogue...
G., tem bom resto de semana.
Um beijo, minha querida amiga.

manuela catarino said...

Depois de uma semana bem atarefada, de um dia chuvoso, pegajoso, e também intenso, sabe bem passar por aqui...
e ficar.

Calmamente, a beber das palavras e das emoções partilhadas o sentido da vida! como numa tarde de outono...

"Brigados", pela presença deste abrigo no revoltear dos dias!
Tudo de bom, " Fragmentos"!!!!!
MC

heretico said...

uma "tisana" cálida e reconfortante - teu post...

beijo

G- Souto said...

Têm sido momentos lindos, neste Outono que se pôs sereno, apesar do frio.

Só posso agradecer essa tua amizade, 'aflores'.

Bom ter amigos atentos!

Tudo de bom !
( e excelentes fotos nesses teus domingos matinais)

G- Souto said...

Petrus,

Muito obrigada, estou bem! Espero que tudo esteja bem, também para si.

Foi com muita alegria que li seu comentário. Bom tê-lo por aqui !

Héia Soveral, nosso ponto de união. Muita saudade da pedagoga e da amiga :-(

A vida, sem a arte em todas as suas áreas, se assim podemos expressar, seria tão 'sem vida'.

A Arte preenche muitos dos nossos afectos.

Quem sabe, um dia nos reencontramos assistindo a um bom concerto na Casa da Música, por exemplo !

Para si também, um beijo grande de amizade.

G- Souto said...

Querido Daniel,

Tens razão, esquecera de deixar o link no Google +
Mas já lá está...

Tal como respondi à tua mensagem, sei que Google + (que não é uma melhoria tecnológica, é apenas mais um canal) foi criado para competir com FB.

Gosto de blogar, e embora o faça com muito menos frequência, sinto-lhe a falta, quando me afasto demasiado.
Prendem-me as amizades que criei virtualmente, algumas bem mais atentas do que as reais.
E prende-me a vontade de escrever... de vez em quando.

Não imaginas como sofri por não ter visitado a exposição dedicada a Clarice Lispector , na Gulbenkian :-(
Cheguei a dedicar-lhe um post muito sentido, de grande admiração.

Quanto ao teu livro, preferi escrever no teu blogue o que senti ao saber...
Estarei lá, em pensamento, não virtualmente.

Quanto aos e-books, sabes bem que não troco um livro em papel por um e-book.

Gosto muito das tecnologias, mas aí não me deixo vencer.

Foi tão bom ter-te de volta!

Um beijo de grande amizade

G- Souto said...

Sabia que me darias razão em relação à velocidade dos acontecimentos nesta era da informação, Nilson.
O que agora é novo, no momento seguinte pode estar ultrapassado. E tu sabes bem disso.

Agradeço a tua amizade que se tem mantido desde que comecei a escrever em Fragmentos. E as palavras sempre afectuosas.

Tem uma boa semana!
Um beijo da G.

G- Souto said...

Os dias sucedem-se tão rapidamente! E já estamos no início de uma nova semana, amiga MC.

Contrariamente às semanas passadas, esta manteve-se linda! Fria sim, mas linda! Um Outono delicioso.

E que bom sentir que gostas de ficar por aqui, lendo-me um pouco, sempre que tens uma pausa...

Muito obrigada pela tua boa amizade. Há momentos que deixo passar um pouco mais da minha sensibilidade, neste espaço que não tem esse princípio.

Tudo de bom, MC! Tem uma boa semana!

G- Souto said...

Adorei teres comparado o meu post a uma ' "tisana" cálida e reconfortante, '. Um lindo elogio, 'Herético' :-)

Beijo

G- Souto said...
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