Sunday, March 21, 2021

No Dia Mundial da Poesia !

 




Flowering peach tree (Memory of Mauve)
Vincent Van Gogh, 1888


O Poema

O poema não é o canto
que do grilo para a rosa cresce.
O poema é o grilo
é a rosa
e é aquilo que cresce.

É o pensamento que exclui
uma determinação
na fonte donde ele flui
e naquilo que descreve.
O poema é o que no homem
para lá do homem se atreve.

Os acontecimentos são pedras
e a poesia transcendê-las
na já longínqua noção
de descrevê-las.

E essa própria noção é só
uma saudade que se desvanece
na poesia. Pura intenção
de cantar o que não conhece.


Natália Correia, in Poemas (1955)

G-S

Fragmentos Culturais 

21.03.2021
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Sunday, March 7, 2021

Maurice Ravel : um sopro de nostalgia em dia de confinamento


 



Maurice Ravel
credits:  Evening Standard/Getty Images


"The only love affair i have ever had was with music".

Maurice Ravel

Maurice Ravel faria hoje, 7 de Março 146 anos. Nascido em 1875, Ravel é como sabem, um compositor e pianista francês, ligado ao movimento Impressionista. 

Contemporâneo de Claude Debussy, seu predecessor. Ravel frequentou o Conservatoire de ParisDepois de acabar o curso, Ravel fez seu próprio caminho, encontrando-se como compositor, desenvolvendo um estilo de grande sensibilidade, fortes influências modernistas, barrocas, neoclassiclássicas e, em obras posteriores, influências do jazz. 







Gostava de experimentar formas musicais, como em Boléro (1928). Aí, a repetição toma o lugar do desenvolvimento. Não é de todo a peça que aprecio, mas esta interpretação do Ballet Maurice Béjart é impressionante.

Nos anos 1920s -1930s, foi considerado o maior compositor francês vivo. Ravel é continua a ser considerado um dos mais significativos compositores do século XX. 

Para mim, um compositor especial. Pela sua música, mas também pela sua postura perante a arte. Também tinha extremo bom gosto. Achavs importante apresentar-se bem.






Maurice Ravel
credits: Roger Viollet via Getty Images


Ravel compôs relativamente pouco, comparado com compositores como Debussy, Wagner, Shostakovitch ou Schoenberg. Mas a sua música é de grande 'perfeição'. Requinte, elegância, sensibilidade, o que faz dele, um dos mais amados compositores.

"Small art can, of course, be great art. Was Ravel a great artist? No one denies that he was a great artisan, tailoring his material to his sundry subjects, whether they were exotic evocations of Spain, Greece or Madagascar"

Sanjoy Roy, The Guardian/ Classical Music





Ravel, Gershwin, entre outros
credits: © Hulton-Deutsch Collection/CORBIS/Corbis via Getty Images


É um dos meus favoritos. Pela sua sensibilidade, pela perfeição das sonoridades. E ritmos impensáveis, para época. Continuam a deslumbrar.

Relembrei hoje o Concerto em G Major para piano e orquestra e La Valse. Escrevi sobre esta última em 2012, falando do poema coreografado pelo CNB.

Com nostalgia, passei  a tarde a ouvir La Valse em diferentes interpretações, Leonard Bernstein, ou Claudio Abbato. Mesmo a 2 pianos Martha Argerich/ Nelson Freire.

Com a intenção de homenagear a valsa e Johann Strauss II, Maurice Ravel, compôs o que pretendia ser uma obra romântiva, La Valse, un poème chorégraphique (1919.1920)

Antes de se ter alistado no exército interrompendo assim a criação musical, Ravel escreveu que pretendia que a peça fosse "uma espécie de apoteose da valsa vienense mesclando-se na minha cabeça com a ideia de turbilhão fantástico do destino».





La Valse 
Maurice Ravel

"Whatever one’s interpretation of La Valse, there is no doubt Ravel masterfully achieves his vision in the music."

Frances Wilson, Interlude

E continuei com Ravel a tarde inteira. Numa busca continuada, encontrei finalmente o Concerto em G Major interpretado pela incomparável Martha Argerich. Uma explosão de sentimentos, Deus meu!

Sobressaiu a nostalgia. Nostalgia de um concerto na Casa da Música. Ao vivo. Quanto tempo! Belíssimos concertos em noites inesqucíveis de boa música. Consagrados compositores, e intérpretes: Música, na sua essência.

Na Sala Suggia ouvi, ao vivo - e ressalto hoje, muito, ao vivo, porque é isso que me falta tanto - o Concerto in G Major pelo pianista António Rosado com a Orquestra da Casa da Música.

Fiquei ouvindo este momento único, interpretado por um símbolo da minha música d'alma. Martha Argerich








Introversão e beleza. Silênco quase em tom de prece, ouvi Adagio Assai, o segundo movimento. 

 "One of the most beautiful tunes Ravel ever invented" (...) 

Edward Sackville-West e Desmond Shawe-Taylor, críticos de música

Interpretação/ transposição. Tocar não é só transmitir a partitura, é sentir, viver. E para tal, nada é comparável ao touch de Martha Argerich. Uma ternura sem fim, neste Adagio Assai.

"The composer constructs an object so perfectly honed,” writes pianist Paul Roberts, “that the performer is fearful of damaging it."






Ravel escreveu outras obras que fazem parte da música erudita. Daphnis e Chloe, um bailado composto em 1909, a pedido de Diaghilev para o famoso bailarino Nijinsky. 

Concerto para Piano para a esquerda, Pavane pour une infante défunte, entre as oitenta cinco obras, incluindo algumas incompletas, outras abandonadas, segundo o musicólogo francês Marcel Marnat.

"Ravel became a master orchestrator, carefully studying every musical instrument to determine their possibilities. His famous orchestration of Mussorgsky’s Pictures at an Exhibition, brought Ravel substantial income."

Classic FM

Ravel morreu em 1937 na sua casa Le Belvedère, em Montfort-l’Amaury, hoje Fondation Maurice Ravel. Os jardins mantêm-se intactos, e foram desenhados pelo compositor, incluindo o Japanese Garden.

Bolero, Piano Concerto for the Left Hand, Concerto in G Major e L’enfant et les sortilèges são algumas das peças escritas em Montfort l’Amaury.


"Music I feel must be emotional first and intellectual second."

 Maurice Ravel

G-S

Fragmentos Culturais

07.03.2021
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Friday, February 19, 2021

Les César 2021 : Le cinéma nous manque !

 




César 2021
Affiche Académie des Arts & Techniques du Cinéma
crédits: © Lira Films / Sonocam / Fida Cinematografica
Collection ScreenProd / Photononstop

Les Césars 2021, pretendem ser os Oscars franceses terão lugar virtualmente, no dia 12 Março 2021.

O poster desta 46ª Cerimónia dos César tem como égide Romy Schneider e Michel Piccoli, dois inesquecíveis actores, infelizmente já desaparecidos.

Este ano, devido à situação pandémica que vivemos, a Lista das Nomeações foi anunciada no site da Académie no passado dia 10 Fevereiro.

A gala para a entrega dos César 2021, terá então lugar no Olympia, sala mítica de Paris, dia 12 Fevereiro, transmitida em directo no Canal +.







"2020, jamais depuis sa création, le cinéma n'aura été plongé dans une telle obscurité. Pas l'obscurité réconfortante, dépaysante, exaltante, des salles de cinéma. Pas cette obscurité qu'on aime tant, parce qu'elle nous sort de nos vies, de nous-mêmes et nous rassemble, mais l'sobcurité d'une lumière éteinte, d'une porte close, d'un rendez-vous manqué"

Marina Foïs, maîtresse de cérémonie 2021

Assim começa a actriz apresentadora da próxima cerimónia tendo por fundo um tema inesquecível do compositor John Barry, para Out of Africa de Sydney Pollack. O filme que está na memória afectiva cinematográfica de muitos de nós.

Por trás de Marina Foïs desfilam imagens dos filmes nomeados deste ano. Entre os quais figuram em primeiro plano Les choses qu'on dit, les choses qu'on fait, Eté 85 et Adieu les cons.





Paris Calligrames
Ulrike Ottinger

Mas um me prendeu de imediato. Paris Calligrammes - a minha ligação literária imediata a Calligrammes (poemas imagéticos) de Guillaume Apollinaire -, um filme documentário de Ulrike Ottinger, realizadora alemã, emblema da avant-garde na Alemanha e e da pop Art. Pretende ser uma homenagem "aux artistes de Paris des annés 60". Evoca entre outros acontecimentos, personalidades e locais. E em especial uma livraria, Calligramme, dirigida por Fritz Picard, onde conheceu (Ottinger tem actualmente 75 anos) avant-gardistes alemães e franceses, ligados à literatura e à arte. Comentado pela voz inconfundível de Fanny Ardant? Hum! Interessa-me bastante, se os cinemas, entretanto não fecharem todos.

Mas não faltam outros filmes que me podem levar de novo ao cinema, entre os nomeados.





Marina Foïs, maîtresse de cérémonie César 2021
Académie des César

"Je ne sais pas si le cinéma vous a manqué, mais vous, vous nous avez manqué terriblement, douloureusement, éperdument", 

Marina Foïs, maîtresse de cérémonie 2021

Sabem quanto amo o cinema. E ao ouvir as palavras da actriz  "Pas cette obscurité qu'on aime tant, parce qu'elle nous sort de nos vies, de nous-mêmes et nous rassemble, mais l'obscurité d'une lumière éteinte" a melancolia desceu forte em mim! 




César 2021
Affiche Académie des Arts & Techniques du Cinéma
crédits: © 1969 STUDIOCANAL - Fida Cinematografica

A falta dessa obscuridade da sala de cinema, o desfilar das imagens, as bandas sonoras, tudo o que nos faz esquecer o que deixamos cá fora. E nos eleva a um mundo de recordações, doces emoções, soltos sorrisos. Um mundo diferente, real tantas vezes, inspirador.

Até lá, vou seguindo a Académie des César no Instagram, ou Twitter. Esperandohttps://www.academie-cinema.org/ que a RTP2 transmita a cerimónia. 

"Face aux difficultés rencontrées par les professionnels du cinéma et de la culture, l’affiche de la 46e Cérémonie des César capture la tendresse avec laquelle nous nous souvenons : de celles et ceux qui nous ont quittés, des moments partagés, de l’amour exacerbé.

Académie des César 2021


G-S

Fragmentos Culturais

19.02.2021

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Sunday, February 7, 2021

Lembrando François Truffaut ! O Cinema Nouvelle Vague






François Truffaut [1932-1984]
créditos: Autor não identifcado
via TimeNote

"Je fais des films pour réaliser mes rêves d’adolescent, pour me faire du bien et, si possible, faire du bien aux autres."

François Truffaut

François Truffaut teria feito a 6 Janeiro, 89 anos.  Nasceu em Paris em 6 de Janeiro de 1932 em Neuilly-sur-Seine, Paris. Foi um dos fundadores do movimento Nouvelle Vague.

A carreira de Truffaut começou na década de 50, como crítico do cinema pós-guerra francês na célebre publicação Cahiers de Cinéma onde, mais tarde, foi editor.

Na sequência, começou a realizar, produzir, e escrever os argumentos, tornando-se um dos cineastas mais inovadores de sua geração.





François Truffaut au travail
Carole Le Berre


"Un cinéaste incarne le cinéma français : François Truffaut. Dès Les Quatre Cents Coups, son premier film inspiré de son enfance douloureuse et interprété par le jeune Jean-Pierre Léaud, il remporte un prix au Festival de Cannes et connaît un immense succès public."

Cyril Neyrat




Les Quatre-Cents Coups
François Truffaut, 1973

Um dos fundadores do movimento cinematográfico conhecido como Nouvelle Vague e um dos maiores ícones da história do cinema do século XX. A ele se deve a 'teoria de autor'. A visão de que o realizador é o 'autor' da sua obra e que grandes realizadores como Jean Renoir ou Alfred Hitchcock têm diferentes estilos e temáticas que impregnam os seus filmes.





François Truffaut
 crédits: Eva Sereny, anos 70
via Iconic Images

François Truffaut realizou seu primeiro filme em 1954. Uma curta-metragem Une Visite, filmado em preto-e-branco e 16mm. No mesmo ano, produziu o argumento de À Bout de Souffle/ O Acossado, de Jean-Luc Godard, futuro e aclamado filme deste director. 


Truffaut dirigiu 21 filmes, várias curtas-metragens,  escreveu centenas de artigos sobre cinema publicados em jornais ou revistas, principalmente, como já escrevemos em Cahiers du cinéma e no semanário Arts, prefácios consagrados em livros de personalidades que admirava ou que o apoiaram - Renoir, Bazin, Welles, Rossellini, Ophuls, Nestor Almendros, Sacha Guitry, Tay Garnett, outros, e o famoso livro de conversas, Le Cinéma selon Alfred Hitchcock (1966). Uma carreira de quase 25 anos.






Bafta Awards
François Truffaut/ Melhor Filme
créditos: Bafta Awards, 1974

La Nuit AmericaineDay for Night (1973) mereceu as melhores críticas em vários festivais. Nos BAFTA Awards, 1974, categoria Melhor Realizador e Academy Awards, 1974, categoria Best Foreign Language Film. Foi considerado a sua obra-prima.






Outros filmes notáveis Tirez sur le Pianiste/ Shoot the Piano Player (1960), Jules and Jim (1961), The Soft Skin (1964), The Wild Child (1970), Two English Girls (1971), The Last Metro (1980), and La Femme d'à CôtèThe Woman Next Door (1981) ou La Chambre Verte onde entrou também como actor (1978).


Temas principais de sua cinematografia: as mulheres, a paixão, e a infância. Além da direcção cinematográfica, ele foi também argumentista, productor e actor por vezes.


Junto com Jean-Luc Godard, Truffaut foi uma das mais influentes figuras do novo cinema francês. Inspirou cineastas como Steven SpielbergQuentin TarantinoBrian De Palma e Martin Scorsese.





François Truffaut
créditos: Alamy

Les Quatre Cents Coups/ Os Quatrocentos Golpes é um dos marcos do período inicial de sua carreira. Os seus filmes são uma referência na história do cinema francês e internacional. Sem dúvida.




L'Histoire d'Adèle H.
François Truffaut, 1975

Gostaria de salientar, por ligação a Victor Hugo, L'Histoire d'Adèle H. Um dos filmes com mais nomeações: 11 prémios, uma nomeação em Le Cesar, Melhor Realizador, várias outras nomeações, entre as quais, a nomeação Melhor Actriz nos Oscars 1976. Um drama biográfico que passa pela história verídica de Adèle Hugo, filha do grande escritor francês, Victor Hugo.

Adèle H., narra a história do amor obsessivo e não correspondido que a jovem Adèle Hugo nutriu por um oficial inglês, o tenente Albert Pinson. Um amor que permaneceu até ao final da sua vida, esse amor não correspondido.

"Nous aurions pu être heureux"  "A notre mariage ou à ma mort".

Adèle Hugo, diários





Adèle Hugo/ Adèle à l'ombrelle
 photographiée par son frère Charles Hugo en 1853/1854
(maison de Victor Hugo)

Interpretadada por Isabelle Adjani, e no papel de Albert Pinson, o próprio François Truffaut. O filme foi baseado nos Diários de Adèle.




Adèle Hugo (Isabelle Adjani) & Albert Pinson (François Truffaut)
L'Histoire d'Adèle H.
François Truffaut, 1975

Uma belíssima interpretação de Isabelle Adjani, com 20 anos, muito aplaudida e reconhecida nos festivais de cinema. Nomeada para os Oscars, como Melhor Actriz.

L'Histoire d'Adèle H. ganhou o National Board of Review Award - Best Foreign Language FilmFrench Syndicate of Cinema Critics Award - Best Film, e Cartagena Film Festival Special Critics Award.





Truffaut par Truffaut
livre

Truffaut par Truffaut, um livro que reúne as principais ideias do próprio Truffaut sobre os seus filmes, sua infância, primeiras memórias do cinema, e principais influências. Um livro fundamentado em documentos pessoais. Inclui também a biografia cronológica completa, filmografia e bibliografia.






François Truffaut
crédits: Cinémathèque Française, 2015

Em 2015, na celebração do 30e aniversário da morte do cineasta, La Cinémathèque française dedicou ao autor des Quatre Cents Coups, uma grande exposição:  François Truffaut. 

Com inúmeros extractos de filmes e de entrevistas, a exposição apresentou ainda desenhos, footogrfias, objectos, livros, argumentos anotados e fatos provenientes em grande parte das collecções da La Cinémathèque française. 

"Disparu le 21 octobre 1984 à l’âge de cinquante-deux ans, il a laissé le sentiment d’avoir mené sa vie à toute vitesse, comme pressé par le temps et comme s’il voulait arriver à tout faire tant que cela était encore possible."

Cinémathèque française





François Truffaut
créditos: Autor não identicado
via Pinterest

François Truffaut está entre os realizadores de cinema mais influentes dos últimos 25 anos.

"Sa mort a laissé un goût amer, un sentiment d’inachevé, de mélancolie profonde, pas seulement pour les siens, ses proches, ses actrices et acteurs, et sa « famille du Carrosse". 

Cinémathèque française


Cinema tem relação profunda com o bater do coração. Cinema acompanha muitas vezes a vida. Truffaut filmou a vida.

Truffaut, único entre realizadores. 

G-S

07.02.2021
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