já não aguento mais
deposita na cama
os meus restos mortais
frágil
sinto-me frágil
Coisas do nada, naturaes da vida, insignificancias do usual. Bernardo Soares, Livro do Desassossego I, Atica 1982
Emily Dickinson, Algo existe
Fragmentos Culturais
21.06.2026
Foi, e continua a ser, uma das estrelas mais brilhantes do cinema. Norma Jeane Baker, conhecida mundialmente como Marilyn Monroe, foi encontrada morta no dia 4 de Agosto 1962. Tinha 36 anos.
Dexou, no entanto, um legado de filmes clássicos, moda, e uma imagem de celebridade cuidadosamente construída. Mas não só...
Para assinalar o "Centenário do seu Nascimento", o Museu da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas lançou a Exposição Marilyn Monroe: Hollywood Icon. A correspondente Tracy Smith conversa com aqueles que estudam a vida e a carreira da "sex symbol" - foi muito mais do que isso - e com aqueles que preservam a sua imagem no cinema.
Edgar Morin [1921-2026]
via Google Images Archive
"Tout objet doit être conçu dans sa relation avec un sujet connaissant, lui-même enraciné dans une culture, une société, une histoire."
Edgar Morin
in La Méthode, Tome 1
Edgar Morin partiu. Tinha 104 anos e continuava com uma cabeça brilhante. São muitos os pensadores por todo o mundo que lamentam a morte deste intelectual que também era antropólogo e sociólogo.
Nascera em 08 de Julho de1921 em Paris. Filho de judeus espanhóis, Edgar Nahoum, adoptou mais tarde o apelido Morin. Edgar Morin é um dos maiores pensadores contemporâneos.
Formado em Direito, Geografia e História, trabalhou com áreas de Antropologia, Filosofia e Sociologia. Edgar Morin é autor de dezenas de livros.
Destacam-se, entre outros, La Méthode (six tomes), Introdução ao pensamento complexo, Ciência com consciência, Os sete saberes fundamentais para a educação do futuro, É hora de mudarmos de via: As lições do coronavírus e Lições de um século de vida.
"Nous avons besoin de ce qui nous aide à penser par nous-même : une méthode. Nous avons besoin d'une méthode de connaissance qui traduise la complexité du réel, reconnaisse l'existence des êtres, approche le mystère des choses."
La Méthode, Tome 1
Ao longo do século XX, Morin presenciou e participou em acontecimentos que abalaram a França e o mundo. Muito jovem, assistiu à eclosão da Segunda Guerra Mundial. Participou activamente na Résistance contra a ocupação alemã. Foi nesse período que adoptou o apelido Morin.
Autor de mais de 30 livros, o pensador publicou o livro Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro em parceria com a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura).
"Les sept savoirs nécessaires à l'éducation du futur" Comment envisager le monde nouveau qui nous emporte ? Sur quels concepts essentiels devons-nous fonder notre compréhension du futur ? Sur quelles bases théoriques pouvons-nous nous appuyer pour considérer et surmonter les immenses ruptures qui s’accroissent
"Il s'agit de briser le cloisonnement des disciplines scientifiques et académiques pour tisser des liens entre elles, permettant ainsi de comprendre le monde dans sa globalité et d'éviter une vision morcelée et incomplète de la réalité."
Em 1997 foi convidado pelo então ministro da Educação Francesa, Claude Allègre, a presidir um Conselho Científico que faria sugestões para alterar o ensino de segundo grau, Morin idealizou e dirigiu as Jornadas Temáticas, apresentadas na obra A Religação dos saberes, cuja proposta fundamental é a realização, no ambiente educacional, de um processo de regeneração humanista fundamentado nos princípios da complexidade e transdisciplinaridade.
"... on voulait tenter d'intégrer les disciplines dans des cadres de pensée qui correspondent aux grands problèmes que se pose l'esprit : le monde, la terre, la vie, l'humanité ; de donner une égale importance à la culture des humanités et a la culture scientifique en les faisant communiquer ; de régénérer les vertus cognitives et existentielles de la littérature, de la poésie, des arts. Venus de toutes disciplines et associant leurs compétences, les participants ont apporté la preuve qu'on pouvait ressusciter une culture et l'enseigner."
Edgar Morin, Director emérito de pesquisa no CNRS et Doutor Honoris Causa de vinte e sete universidades em todo o mundo, é o autor de uma obra transdisciplinar abundantemente comentada. Traduzida en vinte e sete línguas e em quaranta e dois países.
Membro emérito do Centre National de La Recherche Scientifique (CNRS), o maior órgão público de pesquisa científica da França, e um dos maiores do mundo, Morin continuou até aos 104 anos, uma vida de intensa produção intelectual e divulgação de inovadoras ideias, entre elas a da necessidade, nas escolas e universidades, de um curso de conhecimento sobre o próprio conhecimento.
Em sua vasta obra, destaca-se a centralidade da temática da complexidade, que aparece em vários de seus escritos. Para ele, somente uma abordagem interdisciplinar e transdisciplinar dos saberes pode proporcionar o adequado entendimento das características da sociedade contemporânea, visto que um ensino baseado em conhecimentos fragmentados e compartimentados não é capaz de gerar a compreensão e, portanto, a capacidade de intervenção consciente em uma realidade marcada por problemas cada vez mais amplos, complexos e inter-relacionados.
Entre suas principais contribuições está a Teoria do Pensamento Complexo, abordagem que busca superar a fragmentação do conhecimento. Em vez de analisar os fenômenos em partes isoladas, propõe compreender o mundo através da religação dos saberes, reconhecendo que tudo está interligado e sujeito a incertezas.
Edgar Morin
Como já escrevi mais acima, em parceria com a UNESCO, Morin publicou em 1999 o livro Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, obra que discute os desafios da educação no novo milênio.
"Os Sete Saberes Indispensáveis Enunciados Por Morin Constituem Eixos E Caminhos Que Se Abrem A Todos Os Que Pensam E Fazem Educação E Que Estão Preocupados Com O Futuro Das Crianças E Adolescentes."
No campo da comunicação, tornou-se referência com Cultura de Massa no Século XX: O Espírito do Tempo (1962), livro em que analisa a relação entre arte, mídia e consumo de massa.
Um pensador que fará falta no momento em que q Humanidade se perde sentre os saberes compartimentados, as guerras, deixo este video da leitura em voz alta de uma tão jovem adolescente, e a sua capacidade de incarnar a alma do poeta Paul Éluard no poema Liberté.
Uma interpretação que comoveu Edgar Morin, e que comove cada um de nós!
G-S
30.05.2026
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Apocalipse de Albrecht Dürer
Agustina Bessa-Luís
reedição de luxo
Guerra & Paz, 2026
Uma nova edição, em capa dura, a cores, com o texto de Agustina e as gravuras de Dürer está à venda nas livrarias,suponho, deste ontem, 21 Abril 2026.
Descrito como um exercício visionário de “ler e sentir arte”, Agustina escreve sobre o Apocalipse cum figuris de Dürer, pintor alemão, um conjunto de imagens em que "pulsa o assombro e a angústia", porventura o terrível "silêncio do céu" perante o turbilhão dos conflitos da terra, turbilhão em que o temor da invasão otomana da Europa e da consequente devastação e catástrofe eram medos primordiais.
Uma série de quinze xilogravuras da autoria do pintor alemão Albrecht Dürer (1471-1528), que retratam várias cenas do “Livro do Apocalipse”, ou “Livro da Revelação de João”, o último Livro do Novo Testamento.
Apocalipse de Albrecht Dürer
Obra rara, que articula texto e imagem a partir das gravuras do pintor renascentista alemão sobre as suas "visões apocalípticas", interpretadas pela escritora portuguesa Agustina-Bessa Luís que nos deixou 2019, com grande mágoa minha, e de tantos leitores, ganha quarenta anos depois, uma nova edição de luxo, criada pela editora Guerra e Paz.
Numa edição enriquecida, em grande formato (30×30), com capa cartonada, e com as "xilogravuras originais" a preto e branco de Albrecht Dürer, a que se juntaram reproduções de versões coloridas da época, pintadas manualmente, provavelmente sob supervisão do artista, actualmente em exposição no Harvard Art Museum.
Apocalipse de Albrecht Dürer
Agustina Bessa-Luís
Guimaráes Editores, 1986
Apocalipse de Albrecht Dürer
“Os livros são sonhos perdidos no tempo, e quem primeiro sonhou este ‘Apocalipse’ com Agustina foi, em 1986, Francisco Cunha Leão, editor da Guimarães, casa-mãe da nossa autora”, conta Manuel S. Fonseca, na nota do editor publicada no início da ectual edição do livro.
A obra está organizada em quinze capítulos, nos quais cada gravura é comentada por Agustina Bessa-Luís, que contextualiza a época e os seus intervenientes, revelando “um conhecimento profundo da História e da Alma”, escreve Mónica Baldaque, sua filha no Prefácio.
"Encompassing nearly 100 works, Dürer’s Passions includes works from the Fogg Art Museum’s collections as well as extremely rare works loaned by the British Museum; the Museum of Fine Arts, in Boston; and German collections in Frankfurt, Berlin, and Bremen."
Apocalipse de Albrecht Dürer
Juntamente com o designer gráfico da Guerra e Paz, Ilídio Vasco, agarrou neste legado “com pinças”, porque queria fazer diferente, mas “com o mesmo rigor”.
A publicação está integrada nas comemorações dos 20 anos da editora, fundada a 10 de Abril de 2006, com o livro “Fama e Segredo na História de Portugal”, também de Agustina Bessa-Luís.
Agustina Bessa-Luís
ilustração Lucy Pepper
“Há vinte anos, Agustina Bessa-Luís entregava-me, num texto de fantasia operática, o livro que inaugurou a Guerra & Paz editores”, recorda Manuel S. Fonseca, sublinhando que é novamente com a autora que a editora celebra “uma madura idade: vinte anos”.
Manuel Fonseca destaca ainda que o livro regressa agora “renovado”, numa edição apoiada pela Fundação Calouste Gulbenkian, entidade parceira na publicação.
Apocalipse de Albrecht Dürer
Lê-se no Prefácio “Nem sempre Agustina é amável com Dürer, como era de sua natureza reflexiva e imparcial”.
No capítulo “O Dilúvio”, Agustina “detém-se, com o prazer da análise freudiana, no retrato de Bárbara Holper, a mãe de Dürer, que ele desenha num traço duro e esquemático”, revelando que “por ela não tem um sentimento de amor nem de complacência”, Prefácio de Mónica Baldaque.
Nas palavras de Agustina, “Dürer não a poupa, usa até dum realismo que tem algo de vingativo. (…) O que Dürer desenha no retrato de Barbara é a densa e formidável decepção do filho, tema primordial que serve de motivo ao Apocalipse”.
Fontes : Guerra & Paz/ Observador.Cultura/ Executive Digest com Lusa