Wednesday, July 18, 2018

Tributo a Nelson Mandela : 100 Anos !





credits: Maureen Bisilliat photographer




"One issue that deeply worried me in prison was the false image that I unwittingly projected to the outside world; of being regarded as a saint," (...) "I never was one even on the basis of an earthly definition of a saint as a sinner who keeps on trying."



100 Nelson Mandela Centenary 2018
Be the Legacy

Celebra-se hoje, dia 18 Julho 2018, o Centenário de Nelson Mandela. Mandela nasceu neste dia que passou a ser considerado Dia Internacional de Nelson Mandela pela ONU em 2009 em reconhecimento pela sua contribuição para a cultura da paz e da liberdade.




Nelson Mandela International Day 2018 marks 100 years since the birth of Nelson Mandela (18 July 1918). The Centenary is an occasion to reflect on his life and legacy, and to follow his call to “make of the world a better place.” 

The Nelson Mandela Foundation dedica este Dia Internacional Mandela à Acção contra a Pobreza, honrando o legado e dedicação de Nelson Mandela no combate à pobreza e promoção da justiça social para todos.



Nelson Rolihlahla Mandela

Nelson Mandela (1918-2013), voz activa contra o regime do Apartheid, foi posteriormente o primeiro presidente democraticamente eleito da África do Sul (1994-1999). Em 1993, foi galardoado com o Prémio Nobel para a Paz com Frederik Willem de Klerk "for their work for the peaceful termination of the apartheid regime, and for laying the foundations for a new democratic South Africa".

Mandela foi detido em 1962 e permaneceu na prisão durante 27 anos, 10052 dias. 

Defendeu as suas posições antes de ser preso e continuou dentro da prisão. Escreveu cartas a familiares, amigos, companheiros de luta e autoridades sul-africanas que passaram a ser o meio mais important para difundir as suas ideias. Cartas que foram agora editadas:



As Cartas da Prisão de
Nelson Mandela
editado por Sahm Venter
prefácio: Zamaswasi Dlamini Mandela

"Não há nada mais valioso do que fazer parte da construção da história de um país."

Carta a Winnie Mandela, 1926

Poderão ler um excerto online aqui

Um outro livro fora escrito por John Carlin, Playing the Enemy, Nelson Mandela and The Game That Made a Nation, adaptado ao cinema por Clint Eastwood em Invictus.


Playing The Enemy
Nelson Mandela and The Game That Made a Nation
John Carlin
https://www.penguinrandomhouse.com/books/

Invictuso poema de William Ernest Henley, que inspirou Nelson Mandela durante os seus 27 anos de cativeiro. Pode ser lido o original em Poetry Foundation.

(...)
It matters not how strait the gate, 
      How charged with punishments the scroll, 
I am the master of my fate, 
      I am the captain of my soul. 

William Ernest Henley, Invictus


Invictus
Clint Eastwood, 2009

Um filme maravilhoso, Invictus realizado por Clint Eastwood em 2009. Com argumento de John Carlin, Nelson Mandela, no seu primeiro mandato como presidente sul-africano, leva a cabo uma competição única com o fim de unificar o país devastado pelo Apartheid: recruta a equipe nacional de Rugbi com a missão de ganhar O Campeonato do de Rugby de 1995. 

Invictus

Out of the night that covers me, 
      Black as the pit from pole to pole, 
I thank whatever gods may be 
      For my unconquerable soul. 

In the fell clutch of circumstance 
      I have not winced nor cried aloud. 
Under the bludgeonings of chance 
      My head is bloody, but unbowed. 

Beyond this place of wrath and tears 
      Looms but the Horror of the shade, 
And yet the menace of the years 
      Finds and shall find me unafraid. 

It matters not how strait the gate, 
      How charged with punishments the scroll, 
I am the master of my fate, 
      I am the captain of my soul. 

William Ernest Henley



"It is easy to break down and destroy. The heroes are those who make peace and build."

Nelson Mandela


Não há  muitas mais palavras. Há pessoas imortais. Há ideais que mudam a História. E os Homens.
G-S
Fragmentos Culturais
05.12.2013
actualizado 18.07.2018
Copyright © 2018-Fragmentos Culturais Blog, fragmentosculturais.blogspot.com® 

Wednesday, May 23, 2018

Voltando à Literatura : Philip Roth com posfácio





Philip Roth
http://english.ahram.org.eg/


"From Portnoy's Complaint to American Pastoral, Philip Roth's jostling alter egos have provided the literary world with some of the great masterpieces of the past half-century"

Robert McCrum, The Guardian*

Já era tempo de voltar aos livros! Ler é um dos meus raros privilégios! E escrever sobre Philip Roth, o escritor norte-americano que foi agraciado em 6 Junho 2012 com o Prémio Príncipe das Astúrias das Letras 2012, é um gosto especial. Uma voz inconfundível na literatura mundial, o modo com enfrenta os problemas cruciais de uma sociedade.

Roth venceu na última fase de votações, um outro finalista, autor que também leio muito, o japonês Haruki MurakamiMurakami é um dos 'meus' autores da literatura contemporânea.

"Posee una calidad literaria que se muestra en una escritura fluida e incisiva", dice el fallo del jurado. "Personajes, hechos, tramas conforman una compleja visión de la realidad contemporánea que se debate entre la razón y los sentimientos, como el signo de los tiempos y el desasosiego del presente".

Premio Príncipe Asturias, Philip Roth 2012

O júri decidiu por maioria atribuir o galardão a Philip Roth, por considerar que a obra literária do escritor faz parte do "grande romance norte-americano", seguindo a tradição de John Dos Passos, Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, Saul Bellow ou William Faulkner. Autores da minha adolescência, por incrível que pareça. Privilégio de ter uma família muito ligada às artes e à literatura,

Através de uma "escrita fluída e incisiva", o escritor revela uma "complexa visão da realidade, que se debate entre a razão e o sentimento, como sinal dos tempos e do desassossego do presente", refere a acta do júri.





water colors | J. C. Phillips

O escritor afirmou em comunicado que "foi particularmente doloroso" saber que venceu o galardão poucas semanas depois da morte do escritor amigo de origem mexicana Carlos Fuentes.


"Queria que estivesse vivo para poder ouvir a sua voz ao telefone dando-me os parabéns pelo prémio", disse, referindo-se ao amigo como um dos melhores romancistas contemporâneos de língua espanhola.




American Pastoral (1ª edição)

"You put too much stock in human intelligence, it doesn't annihilate human nature."

Philip RothAmerican Pastoral

Philip Roth, natural de Newark, Nova Jérsia (1933), é considerado um dos melhores escritores norte-americanos dos últimos 25 anos, tendo sido proposto várias vezes para o Prémio Nobel da Literatura.
Em 1998, obteve o Pulitzer Prize com o romance American PastoralTem uma obra que reflecte a sua curiosidade pela identidade pessoal, cultural e étnica e pela criação artística.

"writing with deep understanding, with enormous power and scope and great storytelling energy, he focuses on the counterforce: the longing for an ordinary life."

Pulitzer Prize, Philip Roth, 1998

Em 2011, foi distinguido com o Man Booker International Prize para ficção, pelo conjunto da sua obra literária.





Pastoral Americana
Philip Roth
Edições Dom Quixote, 1ª edição
Philip Roth é o quarto escritor norte-americano a receber o "Prémio Príncipe das Astúrias das Artes", depois de Arthur Miller (2002), Susan Sontag (2003) e Paul Auster (2006). Todos eles autores que me são familiares. Susan Sontag é talvez a que se identifica mais com os meus gostos literários.

O autor não pode estar presente por motivos de saúde, mas enviou uma mensagem em vídeo, como vimos.
No ano passado, o galardão foi atribuído ao escritor e músico canadiano Leonard Cohen que referi aqui.







Philip Roth
créditos: rtve.es
Li até à data dois livros de Roth. O autor escreve com minúcia sobre a sociedade norte-americana. Um deles Goobye Colombus e Cinco Contos, o seu primeiro livro. É uma arte que aprecio. O conto.




Goodbye Columbus e Cinco Contos
Philip Roth
Edições Dom Quixote

As suas personagens são retratadas com todas as suas motivações, seu carácter, seu contexto. Roth conduz-nos a caminhos e sentimentos por vezes desconhecidos. Profundamente humanos. 







Philip Roth 1933-2018
créditos: Eric Thayer/ Reuters


E hoje, a notícia pela manhã. Philip Roth morreu. Mal refeita ainda da morte e Júlio Pomar, é logo o que me aparece nos jornais digitais. Philip Roth morreu.

Philip Roth, the prolific, protean, and often blackly comic novelist who was a pre-eminent figure in 20th-century literature died. (...)

Charles McGrath, The NYT

É considerado o melhor escritor norte-americano e um dos mais importantes escritores a nível mundial. Melhor conhecido pelo autor que escandalizou a América.

Já escrevi que foi galardoado com os mais importantes prémios literários. Apenas um não lhe foi concedido. O Prémio Nobel da Literatura. Apesar de múltiplas vezes ter sido apontado.



Philip Roth in 2010
Credit: Nancy Crampton / Handou

Quando ganhou o Man Booker International Prize, o chairman dos juízes Rick Gekoski afirmou:

"His career is remarkable in that he starts at such a high level, and keeps getting better.
"In his 50s and 60s, when most novelists are in decline, he wrote a string of novels of the highest, enduring quality."
Rick GekoskiBBC


GoodBye Columbus
Philip Roth

Já sabemos que a sua carreira de escritor e o seu sucesso começou com Good Bye Columbus. Podemos aqui folhear o livro e ler ou ouvir um excerto.

Tinha quase sempre uma expressão fechada, mas o seu humor sobressaia nos livros. Uma parte importante do universo de Roth é autobiográfica. Facto ainda mais interessante.

Deixa uma obra de cerca de trinta livros, e por sua vontade, deixou de escrever em 2009.

"He wrote prolifically over the course of his career, publishing more than 30 books before ending his fiction career in 2009."

BBC




Philip Roth & Baraka Obama
créditos: AFP Photo/Jim Watson

Foi agraciado com the National Humanities Medal pelo Presidente Barak Obama (2011).

Não me vou alongar, dado que Philip Roth está hoje en todos os meios de comunicação. 

Deixo então o artigo e vídeo que o New York Times lhe dedica, jornal em que era colaborador: Philip Roth, Towering Novelist Who Explored Lust, Jewish Life and America

Talvez as forças da natureza o tenham ouvido:

"Old age isn't a battle; old age is a massacre."

Philip Roth

G-S

Fragmentos Culturais

15.06.2012

23.05.2018
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* A ler aqui a interessante entrevista com Philip Roth. Acrescento hoje o vídeo The Last Word: Philip Ross.

Tuesday, May 22, 2018

Júlio Pomar : Um tributo quase intimista





Júlio Pomar
10.01.1926 | 22.05.2018

"Há artistas cuja importância está ligada a um momento específico da história da arte. Outros distinguem-se por conseguirem dar sucessivos impulsos à obra ao longo da vida. Júlio Pomar, que faleceu esta terça-feira em Lisboa, aos 92 anos, fez o pleno."

in Expresso, Obituário




L'Étonnement,  1979
Júlio Pomar

Morreu Júlio Pomar. O pintor que comecei a admirar desde muito cedo. Dois irmãos, seus amigos pessoais, tinham obras suas em casa. E eu ficava-me a admirar aquelas telas vibrantes, em rasgo e me cor que me reenviavam para paisagens bem mais longínquas. Meu olhar penetrava na tela e por ali deambulava a minha imaginação. Múltiplos sentires. Viagens infindáveis.

Tive o privilégio de conhecer Júlio Pomar quando meus irmãos, um deles vivendo em Paris, nos juntou num jantar de amigos. Esteve também Eduardo Luís que morreu precocemente e cuja obra também me fazia esquecer de mim, mas de modo distinto. Uma pintura figurativa 'trompe l'oeil' delicadamente virtuosa, desenvolvida a partir de um itinerário muito próprio e solitário.



Livro dos Quatro Corvos
Júlio Pomar
créditos: Museu Gulbenkian

Já o escrevi. Júlio Pomar é o pintor português com quem me identifico por inteiro! É com um olhar livre que contemplo as suas telas! Sempre!

A pintura contemporânea dá-nos essa liberdade. A de experimentar todos os sentires sem prisões a conceitos, ou definições de belo ou de feio. Todos somos sensibilidade imensa. 

[...] e cuja base imaginária assenta (assentará?) no infinito do nada onde mergulham sem mercê nuvens, razões, poderes."

Júlio Pomar, Da Cegueira dos Pintores
Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1986




Mascarados de Pirenópolis XIV, 1987
 Júlio Pomar

A década de 80 - e foi por aí que o encontrei à mesa, entre familiares e amigos, em Paris - está considerada das mais importantes na obra de Júlio Pomar. O pintor instalara-se em Paris nos anos 60.

Pintou muito, grande variedade de temas abordados, que vão desde os aspectos da cultura popular brasileira em trabalhos realizados após viagens ao Brasil (1987 e 1988), até temas de carácter erudito, como as séries “Os Tigres”, a “Mitologia”, os “Corvos” e os “Retratos”




Edgar Poe, Charles Baudelaire, 
um Orangotango e o Corvo, 1985
Júlio Pomar

A literatura esteve sempre presente, através da ilustração, ainda na década de 80: os universos de Baudelaire, Pessoa, Poe ou a mitologia. Mas também os índios Xingu da Amazónia, com quem conviveu durante as suas estadias no Brasil. Linhas vibrantes, tons esfuziantes.


Emigrantes
Ferreira de Castro
Portugália Editora, 1966

Ilustrou livros de autores portugueses como Emigrantes de Ferreira de Castro, O Romance de Camilo de Aquilino Ribeiro. Ou desenhos para Guerra e paz de Tolstoï.

Foi um leitor de insaciável curiosidade e com um olhar ao qual nada do real ou do imaginário escapava.




Dom Quixote e os carneiros, 1961
Júlio Pomar

"Esta estética inconfundível vai ampliar-se em formato e alcance em pinturas dos anos 90 e já do século XXI, assimilando ou retomando referências tão diversas como a Odisseia, Frida Kahlo, Lewis Carroll ou D. Quixote." 

"Os Tigres" foram apresentados na Galeria 111, Lisboa, 1983. Aqui Pomar atinge a plenitude plástica. Os tigres surgem como a visibilidade de um alter-ego, figura metafórica do desejo.




Tigre
Júlio Pomar
detalhe: António Jorge Silva

Talvez seja esta a fase mais intimista e, logo a mais fantástica. Porém é nela que encontramos um Pomar liberto. É provavelmente a fase que mais gosto. 

As imagens que agora aqui deixo, não fazem justiça aos quadros,. As cores podem estar adulteradas, os pormenores perdem-se e a dimensão desaparece. 

Mas se um dia puderem admirar ao vivo algumas das sua obras, não percam a oportunidade por nada deste mundo. Deixam-nos suspensos.

Júlio Pomar exercia uma autocrítica constante sobre a sua obra, o que o levava a fazer e desfazer, a pintar e repintar o trabalho até que ao seu olhar surgisse por fim concluído.

"Postas de parte as atracções específicas que caracterizaram cada período do meu trabalho, sempre uma imagem deu origem a outras imagens, e sempre o meu quadro se fez - ou se desfez - de sucessivos encaixes ou desencaixes . E muitas vezes se faz à medida que as imagens se desfazem."

Júlio Pomar, Da Cegueira dos Pintores
in Colecção arte e artistas, IN-CA, 1986, pág. 31




Mural no cinema Batalha, Porto
Júlio Pomar
https://observador.pt/

A sua arte estende-se ao desenho, ilustração, gravura, cerâmica, escultura, tapeçaria. Encontra-se na arte pública.
Mural e frescos no cinema Batalha, no Porto, mural em azulejo na estação de metro do Alto dos Moinhos em Lisboa,  bem como intervenções em Brasília, e Bruxelas: station Jardin Botannique, metro, numa homenagem a Fernando Pessoa.
Nas últimas décadas, a sua obra foi sendo profusamente reexaminada. A Fundação Gulbenkian dedicou-lhe uma Retrospectiva em 1978. Uma exposição antológica itinerante percorreu o Brasil, 1990. Autobiografia, Museu Berardo, Sintra, e A Comédia Humana (CCB) mostraram-se em 2004.
Em 2008, foi a vez de Serralves apresentar Júlio Pomar: cadeia da relação. E em 2015, A Felicidade em Júlio Pomar na Galeria Municipal do Porto, Palácio de Cristal.

Júlio Pomar
créditos: Botelho
Júlio Pomar deixa uma obra multifacetada, percorrendo mais de sete décadas, influenciada pela literatura, pelo erotismo e algumas viagens. E pela resistência política. Mas, quando aconteceu ao 25 Abril, Pomar já se tinha afastado da actividade política.

Da Cegueira dos Pintores
Júlio Pomar
Imprensa Nacional, 1986
http://www.arquimedeslivros.net/

Júlio Pomar escreveu Catch: thèmes et variationsDiscours sur la cécité du peintre...Et la peinture? (éditions de la Différence, Paris, 1984, 1985 e 2000). Os dois últimos traduzidos por Pedro Tamen com os títulos Da Cegueira dos Pintores (Imprensa Nacional, 1986) e Então e a Pintura? (Dom Quixote, 2003); e duas colectâneas de poesias Alguns Eventos e TRATAdoDITOeFEITO (Dom Quixote, 1992 e 2003).




Então e a Pintura? 
Júlio Pomar
edições Dom Quixote, 2003

Revelou-se como poeta na International Poetry Magazine em 1973, estando os seus poemas reunidos no livro " Alguns Eventos ", editado pela D. Quixote em 1992.



Atelier Museu Júlio Pomar
créditos: CML


Criada a Fundação Júlio Pomar, 2004. E teve o privilégio de ver seu Atelier transformado em Atelier Museu Júlio Pomar em 2013.

"O representado, se existe, apresenta-se como engodo do «visto» . A obra tende a permanecer aberta, pois o olhar interroga e trabalha o «visto».'

“A abstracção é-me difícil. Digo muitas vezes «coisas». Não me desligo do tocável”.  

Júlio Pomar

G-S

Fragmentos Culturais

22.05.2018
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