Sunday, October 28, 2007

Meditando Outono






credits: Serdjan Zivulovic/Reuters 2007


No alpendre, um vento gelado
atravessa a minha roupa fina.
É noite, ressoam os últimos tambores,
goteja a água na clepsidra de jade.
A lua atravessa a Via Láctea,
Embebida de luz.
Um pega salta de uma árvore de Outono,
uma chuva de folhas cai.

Wang Wei, Meditando Outono, (701-761)*







credits: Sed Wening/AP 2007
http://news.yahoo.com/


Outono, tempos de minha interioridade! A Natureza prepara-se para hibernar.


Tal como a Natureza, prescindo do exterior e me recolho em pensamentos de profundas litanias que se adentram e me fazem silenciar.


Cada cambiante de cor envolve a minha consciência e transforma as minhas emoções em pequenas partículas de raios de sol tímidos e suaves. E escondo-me na mancha azul desbotada, mesclada de nuvens de algodão pardacento que dá início a essa nova estação.

O verde já não é alegre, começa a transmutar-se numa paleta irisada de amarelos, ocres, vermelhos e castanhos. 

A neblina descerra seus véus em transparências divagantes, enquanto uma
leve melopeia sopra nos espaços feitos de murmúrios sussurrados. Sons trazidos pelo cântico da brisa que acompanham fragrâncias de eternidades.

Meu olhar percorre jardins e veredas em ternos melancólicos aconchegos! 



Aspiro profundamente a brisa dos afectos aromatizados, envolvidos no ar silencioso que me cruza intensamente.

O Outono abre seu manto imenso, majestoso. E recolhe os seres mais delicados.



G-S


©texto original

Fragmentos Culturais


28.10.2007
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* Poemas de Wang Wei, Instituto Cultural de Macau, 1993


Saturday, October 20, 2007

Outubro Rosa


(...)
Às vezes abro a janela e encontro o

jasmineiro em flor. Outras vezes encontro

nuvens espessas. Avisto crianças que vão

para a escola. Pardais que pulam

pelo muro. Gatos que abrem e fecham

os olhos, sonhando com pardais. Borboletas

brancas, duas a duas, como refletidas no

espelho do ar. Marimbondos que sempre

me parecem personagens de Lope de

Vega. Às vezes, um galo canta. Às vezes,


um avião passa. Tudo está certo, no seu

lugar, cumprindo o seu destinoa. E eu

me sinto completamente feliz. [...]



Cecília Meireles, A arte de ser feliz



'Outubro Rosa' assinala a Luta Mundial Contra o Cancro Mamário

Informe-se:

Laço

Liga Portuguesa Contra o Cancro

Breast Cancer

National Breast Cancer Awareness Month


G-S

Fragmentos em tom rosa


20.10.2007
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Wednesday, October 10, 2007

Um dia diferente...




Pietà - Paula Rego
www.mml.cam.ac.uk/.../resources/Rego/



Fugiu da cruz na noite escura,
libertou-se de pregos e de espinhos,

escondeu-se na treva mais escura
onde não há discípulos nem meirinhos.

«Pai, porque não vens atrás de mim?»
 (...)
Nuno Júdice, Cristo Anónimo *


No Dia Mundial e Europeu contra a pena de morte


G-S



Fragmentos Culturais

10.10.2007
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* Nuno Júdice, Cristo Anónimo, Cartografia de Emoções, Publicações Dom Quixote, 2001, 1ª edição



Friday, October 5, 2007

António Lobo Antunes



Antonio Lobo Antunes
http://static.flickr.com/

- É-se escritor, quer dizer, não se consegue fazer outra coisa senão escrever... escreve-se permanentemente, muitas horas diárias. Um romance exige concentração total. Não se pensa noutra coisa. Tem de se escrever a vida inteira...
ou ainda (...)


António Lobo Antunes, DNA, 15.02.2003

Lobo Antunes é um dos mais prestigiados nomes da Literatura Portuguesa. São portanto muitos os que pensam que está na hora de o escritor receber o Prémio Nobel da Literatura!

Independentemente dessa consagração, o autor tem sido muito premiado. E é sobejamente conhecido de um público literário internacional atento, já que seus livros estão traduzidos em quase todo o mundo.

Não sendo ele uma pessoa muito aberta, e tendo a noção que a sua escrita é imbuída de muita criatividade, nem sempre fácil é de entendimento.

As vivências da prestação de serviço na guerra colonial e a formação em Medicina, a especialização em Psiquiatria, são aspectos que transporta para os seus livros, num escrita cada vez mais autobiográfica, onde se reflectem laivos de psicanálise intermitentes que nos dispersa, tantas vezes, o pensamento.

(...) um aceno de enfado, um doente a dormir num canteiro com papéis a escorregarem dos bolsos, a ruiva solidária contigo
- O que vieste aqui cheirar meu camelo, desanda
eu a oscilar neste plátano e nos meus sapatos vazios o buraco da sola (...)

António Lobo Antunes, Que Fazer Quando Tudo Arde, Publicações Dom Quixote, 2001, 1ª edição




António Carrilho
http://www.fcsh.unl.pt/

Mais uma vez, agora em Berlim, no 7º Festival de Literatura, Lobo Antunes foi muito aplaudido.

"...António Lobo Antunes foi longamente aplaudido anteontem à noite por centenas de pessoas que assistiram, no 7.º Festival de Literatura de Berlim, a uma leitura de excertos das suas obras, em português e alemão."


17.09.2007

Li com agrado as primeiras obras, embora menores, segundo alguns críticos literários. Mas em mim, os seus últimos romances, não têm tido aquele impacto intimista que a leitura me provoca, fazendo-me afastar um pouco dessa forma de recriar o seu talento.

Isto pode parecer um sacrilégio para quem me ler, ainda para mais tendo eu a formação académica que me permitiria fazer uma análise menos afectiva e mais literária... mas a 'arte de ler' tem mais de subjectividade do que de análise!

No entanto, reconheço que com o passar do tempo, Lobo Antunes deixou de ter uma visão egocêntrica do mundo, e inevitavelmente se tem tornado mais humilde “…devido aquilo que sonhou e aquilo que conseguiu”.

O seu olhar desencantado e solto sobre a vida, a solidão, a frustração de viver/não amar e mais recentemente sobre a ternura são os seus temas actuais. Talvez me volte a aproximar dos seus romances...

Há, um género, entretanto, que Lobo Antunes pratica, que me apraz ler - as Crónicas.

"Durante cinco ou seis anos, não escrevi crónicas, mas a certa altura compreendi que as podia utilizar como textos paralelos aos romances, quase como um diário".

António Lobo Antunes 

Eu sei! As crónicas abordam os mesmos temas, as mesmas personagens, narram as mesmas acções dos seus romances. Porém aqui, ele cede à forma mais concisa, ao pensamento mais contido. E isso agrada-me! Não me perder na disfunção de um discurso alucinante, agrada-me.

(...) Somos felizes. Por isso não me preocupei no Sábado com o animal, muito entretido na praceta, e tu atrás dele, de trela enrolada na mão, sem olhares para cima nem dizeres adeus, a nadares devagarinho até desapareceres na travessa para a estação dos barcos. Foi anteontem. Às onze horas tirei o cozido do forno e comi sozinho. Ontem também. Hoje também. Não levaste roupa, nem pinturas, nem a fotografia do teu pai, nada.(...)

A Propósito de Ti, Livro de Crónicas, Publicações Dom Quixote, 1995


«Durante cinco ou seis anos, não escrevi crónicas, mas a certa altura compreendi que as podia utilizar como textos paralelos aos romances, quase como um diário»

António Lobo Antunes, 15.09.07


G-S

Fragmentos Culturais, publicado sob pseudónimo em 24.09.2007

05.10.2007

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