"Do meu quarto andar sobre o infinito, no plausível íntimo da tarde que acontece, à janella para o começo das estrellas, meus sonhos vão por accordo de rythmo com distancia exposta para as viagens aos paízes incognitos, ou suppostos ou somente impossiveis."
Bernardo Soares, Livro do Desassossego,
Tomo I, Ática, 1982
Mais um ano que me pôs à prova. Um ano que, no meio da aflição, lágrimas, ansiedade geradas pela incerta e aflita saúde de familiar bem próximo, me deixou exposta ao desespero, ao pavor da perda.
Mas tento sair de tudo isto com esperança e fé. A esperança que a saúde se recupere lentamente, mas com solidez.
Agradecimento infinito aos que nos apoiaram, me abraçaram, me consolaram.
Afectos meus. Tudo vai continuar a correr bem. Devo pensar assim.
Comparável a um raio de sol que fura a nuvem cinza cor plúmbea, e não me engana neste desejo do fundo da alma que tudo fica bem.
Faça-se luz em meu redor ! E a alegria regresse. E o sorriso se faça nos meus olhos.
Nem tudo é dias de sol, E a chuva, quando falta muito, pede-se. Por isso tomo a infelicidade com a felicidade Naturalmente, como quem não estranha Que haja montanhas e planícies E que haja rochedos e erva...
(...)
Álvaro de Campos, Se eu pudesse trincar a terra toda
inO Guardador de Rebanhos), ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith. Lisboa: Assírio & Alvim, 2001, p. 55
Feliz Ano 2026 para todos os que passem por aqui e para algum amigo virtual que não me tenha esquecido.
A respiração de Novembro verde e fria
Incha os cedros azuis e as trepadeiras
E o vento inquieta com longínquos desastres
A folhagem cerrada das roseiras.
Anunciada em Janeiro, como escritora homenageada na Feira do Livro do Porto 2022 que se realizará de 26 Agosto a 11 Setembro.
A Universidade recorda Ana Luísa Amaral como “uma autora extraordinária, uma académica distinta e uma cidadã empenhada”.
“A sua obra literária irá certamente garantir que o nome de Ana Luísa Amaral perdurará para todo o sempre, mas quem teve o privilégio de a conhecer de perto terá a memória de uma pessoa generosa e uma ativista dedicada às causas da igualdade e da solidariedade social”
António de Sousa Pereira, Reitor da UP
Ana Luisa Amaral
créditos: Hugo Pires
"Mi carrera ha consistido en cruzar la literatura con las cosas importantes de la vida, que son la reinvindicación de la Justicia."
Ana Luisa Amaral, Premio Reina Sofia de Premio de Poesía Iberoamericana
"Dueña de una poesía con referencias en Emily Dickinson o William Shakespeare, Amaral vincula la lírica anglosajona con la portuguesa de los modernistas (Pessoa y Mário de Sá-Carneiro) o posteriores (Jorge de Sena o Sophia de Mello Breyner Andresen)."
Premio Reina Sofia de Premio de Poesía Iberoamericana
Notabilizou-se, também, como escritora de literatura infanto-juvenil, além de ocupar com o estudo da obra de mulheres escritoras.
"O seu feminismo ilustrado, amoroso e visionário, comprova-se não só na preponderância que as figuras femininas, as suas vozes e mundividências milenariamente silenciadas têm na sua poesia, mas, do mesmo modo, no seu percurso académico e como tradutora"
Porto/ Cultura
Ana Luísa Amaral publicou o seu primeiro livro, Minha Senhora de Quê, em 1990.
Minha Senhora de Quê | Poesia
Ana Luisa Amaral, 1990
Quetzal
Nascida em Lisboa, em Abril 1956, a escritora e professora universitária Ana Luísa Amaral, tradutora de romancistas e poetas, vivia em Leça da Palmeira desde os 9 anos.
Recebeu múltiplas distinções ao longo da sua carreira, estando, entre as mais recentes, o Prémio Vergílio Ferreira, da Universidade de Évora, o galardão espanhol Leteo, da Direcção de Acção e Promoção Cultural de Leão, e o Premio Rainha Sofia de Poesía Iberoamericana, atribuído pelo Património Nacional de Espanha e a Universidade de Salamanca, que reconhece o contributo significativo de uma obra poética para o património cultural deste universo.
Também em 2021 venceu o Prémio Literário Francisco de Sá de Miranda 2021, pela obra Ágora, editada pela Assírio & Alvim.
Ágora
Ana Luisa Amaral
Assírio & Alvim
Ana Luísa Amaral “uma das mais relevantes poetisas da atualidade”, aborda, na sua obra, traduzida para diversas línguas, “a memória e vindicação do feminismo português”, destacou o júri do Prémio Vergílio Ferreira 2021, presidido pelo espanhol Antonio Sáez Delgado, que considerou a escritora “uma das mais importantes vozes das letras portuguesas das últimas três décadas”.
via TSF
Projecto Novas Cartas Portuguesas
Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa
Foi responsável pelos Projectos Novas Cartas Portuguesas 40 Anos Depois (Dom Quixote, 2014) e New Portuguese Letters to the World (Peter Lang, 2015). Coordenou o Projecto Internacional financiado pela FCT Novas Cartas Portuguesas 40 anos depois, que envolveu 13 equipas internacionais e mais de 15 países. Para folhear aqui
Há dois anos, a Associação das Livrarias de Madrid deu o Prémio de Livro do Ano, na área de Poesia, à edição espanhola de What’s in a name, da escritora portuguesa.
"What’s in a Name" - A estranheza do inglês no título expressa a ambivalência da relação, de que sempre a poesia viveu, entre a coisa (nossa, do mundo) e a sua nomeação, apontando para a multiplicidade de sentidos que há neste livro. Nele se cruzam, em cumplicidade, o quotidiano e o cósmico, o poético e o político, a comoção e a ironia, o espanto e a indignação - em suma, a palavra e a vida.
Este ano, 2022, a sua obra poética foi reunida em O Olhar Diagonal das Coisas, incluindo os mais recentes “Sopros”.
"Estes são poemas de precisão, questionamento e de receitas para várias crises: O Olhar Diagonal das Coisas reúne os 17 livros de poesia de Ana Luísa Amaral, trinta anos em verso inaugurados por Minha Senhora de Quê (1990), até ao mais recente Mundo (2021)."
"E eu aprendi, com os gregos, com os romanos, com os judeus, com os árabes, com os orientais e com os ocidentais, que aprender e ensinar são uma coisa só, quem não ensina não aprende, e que não aprende quem não ensina."
Charles Kiefer
Este é o dia de todos os autores, de todos os livros, de todas as línguas e de todas as nacionalidades, E de todos os leitores !
O Centenário de Agustina Bessa-Luis teve para pouca divulgação, o que considero uma falha grave. Não fora o início que a U. Minho assinalou no dia 21 Abril passado, com uma mesa temática e o Leitorado de Português na Universidade do Luxemburgo.
A primeira sessão, uma mesa temática moderada por José Manuel Mendes e que se intitulou No universo de Agustina: nasci adulta e morrerei criança, contou com a presença da filha e neta de Agustina, Mónica Baldaque e Lourença Baldaque. A iniciativa aconteceu quinta-feira, dia 21 de Abril, às 18h00, na Galeria do Paço, em Braga.
No início Abril 2022, o Centro Cultural Português e o Leitorado de Português na Université du Luxembourg assinalaram, também, o Centenário de Agustina com uma palestra "Agustina Bessa-Luís e as Mulheres" que teve duas sessões, em Português e em Francês, e que aconteceram, no Centro Camões - Centro Cultural Português e no campus universitário de Belval, Luxemburgo.
Agustina Bessa-Luís et les Femmes
Centro Camões, Luxemburgo
A palestra pretendeu explorar a forma como as mulheres são percepcionadas e representadas na vida e obra da escritora. Contou com a presença de Catherine Dumas, professora emérita de Língua e Literatura Portuguesas na SorbonneNouvelle, Paris 3, autora de uma tese de doutoramento e de um livro sobre Agustina Bessa-Luís.
Só estas duas instituições relembraram, para já, o Centenário de Agustina. Mas mais tarde, o centro dinamizador, foi sem dúvida Aa C.M. Amarante, bem como a C.M. Porto
“Nossa maior tragédia é não saber o que fazer com a vida”.
José Saramagoin palestra “Literatura e poder. Luzes e sombras”, Universidade Carlos III, Madrid, 19 de janeiro de 2004
"Assinala-se a 16 de Novembro de 2022 o Centenário de José Saramago. Tal como em circunstâncias semelhantes acontece com outros grandes vultos, a efeméride constituirá uma oportunidade privilegiada para a consolidação da presença do escritor na história cultural e literária, em Portugal e no estrangeiro."
Agustina era mais circunscrita ao mundo em que viveu. A projecção internacional de alguns dos seus grandes romances veio com a adaptação ao cinema por Manoel de Oliveira.
Agustina e Manoel de Oliveira
créditos: Autor não identificado
via Mundo do Cinema
Agustina foi um 'génio'. Autora de uma imensa obra literária. Os seus livros têm um vasto público de leitores, admiradores, e estudiosos.
Voltarei a estes dois enormes vultos da literatura portuguesa, mais tarde. Hoje celebro os seus livros neste Dia Mundial do Livro com dois ou três excertos de obras suas.
"Se a música pode ser tão excelente mestre da argumentação, quero já ser músico e não pregador, Fico obrigado pelo cumprimento, mas quisera eu, senhor padre Bartolomeu de Gusmão, que a minha música fosse um dia capaz de expor, contrapor e concluir como fazem sermão e discurso, Ainda que, reparando bem no que se diz e como, senhor Scarlatti, se exponham e contraponham, as mais das vezes, fumo e nevoeiro, e se conclua coisa nenhuma. A isto não respondeu o música, e o padre rematou, Todo o pregador honesto o sente quando baixa do púlpito. Disse o italiano, encolhendo os ombros, Fica o silêncio depois da música e depois do sermão, que importa que se louve o sermão e aplauda a música, talvez só o silêncio exista verdadeiramente."
in Memorial do Convento
José Saramago,1982
Traduzido em mais de 20 línguas, a obra conta com mais de 50 edições.
O Memorial do Convento inspirou a ópera Blimunda, de Azio Corgi, criada no Scala de Milão em 1990
A recriação de uma Madame Bovary, destinada a servir de guião para um filme de Manoel de Oliveira, trouxe à autora a necessidade de descobrir a natureza flaubertiana que concebeu Emma Bovay, a Bovarinha. e a tomou como seu espelho.
Apesar de de ter lido Madame Bovary de Gustave Flaubert, e Vale Abrãao de Agustina, para além de muitos outros de seus livros, nao vou tecer considerações literárias, dado que não é esse o objectivo desta publicação.
“Uma coisa Ema apreciava na casa de Vale Abraão: a varanda. Dizem que a varanda é uma palavra celta, que significa barreira. Talvez seja. Não se sabe porque teve tão alto crédito na arquitectura rural e urbana. É uma espécie de ventre que se projecta sobre a rua; é uma demonstração de poder e afectação de desejos. Serve para cortejar o mundo e dar prova das condições do indivíduo, comparando-o ao imaginário em que a sociedade cresce e perdura.
A varanda, tanto permite o olhar que avalia, até ser pecaminoso (…), como serve de recreio às mulheres demasiado fechadas e consumidas de obrigações. A varanda é mais sensual do que licenciosa. É um lugar de aprazível pausa; enquanto que a reixa é uma forma de confessionário e um obstáculo permissivo dos apetites.”
Agustina Bessa-Luís teve o talento de nos escutar na profundidade da nossa alma, transformando em palavras coisas que sentimos mas não conseguimos descrever. Sibila é o seu romance de maior interioridade, talvez.
Mural de Homenagem de Agustina
Faculdade de Letras do Porto
via Relógio d'Água
"Escrever uma página inspirada não acontece todos os dias. Às vezes movemos o pensamento pelos atribulados caminhos do doméstico, que corrompem a subtileza e a graça; outras vezes pomos na cabeça o nosso gorro sábio, e resulta uma enfadonha tabuada de sentimentos."