Friday, June 18, 2010

José Saramago, a literatura ficou mais só!



José Saramago | Prémio Nobel de Literatura

A língua portuguesa perdeu o seu escritor mais controverso e sem dúvida um dos mais inovadores da literatura contemporânea. José Saramago, laureado com o Prémio Nobel da Literatura em 1998. Único escritor protuguês a ser galardoado com este Prémio de Literuratura.

A sua fundação está vestida de negro! Apenas um comunicado discreto.

"...despedindo-se de forma serena e tranquila."

Escrevi em Março de 2008...

"Sei que José SaramagoPrémio Nobel da Literatura em 1998, não tem grandes simpatias! Conheço-o apenas das suas obras! E a ideia que tenho da sua personalidade vem das entrevistas e das palavras que vou ouvindo ou lendo nos meios de comunicação social.



José Saramago | Nobel Prize in Literature 1998
credits: Nobel Prize Award

Não posso, de modo nenhum, tirar-lhe o mérito pela inovação da literatura portuguesa num  código de escrita arrojado.

Tenho para mim que só a partir dele, outros grandes nomes se aventuraram nessa criativa perspectiva de olhar a escrita.

A palavra escrita tal como a palavra oral sofrem a evolução natural, modernizam-se! E enriquecem tantas vezes! Assim, tentar manter uma língua espartilhada numa escolástica sintáctica 
perene é impossível!

A evolução é saudável! Claro que me refiro ao uso da Língua Portuguesa com dignidade, respeito, orgulho, valorizando-a em tudo o que ela tem de mais belo, já que na sua génese se encontram as línguas clássicas, Grego e Latim."

G-S (03.03.2008)


José Saramago
créditos : RTP

Mas conheço bem pelos seus livros que li em grande número. Por profissão, e por gosto. Os que mais gostei ? Memorial do Convento (lido e tantas vezes analisado em contexto literário), Ano da Morte de Ricardo Reis, Evangelho Segundo Jesus Cristo, A Caverna.

Sempre consegui separar o homem do escritor. Mais importante do que quem cria, é a própria criação! Gosto de o ler! Tem um sabor diferente, a sua escrita! Aprecio a liberdade. Sem sintaxes ataviadas, usa das palavras com inovação, e junta-as a seu belo prazer, dignificando sempre a língua, num modo imaginativo articulado com esse discurso ficcional muito próprio. 

A última obra que li foi Caim! Mais um livro do autor a provocar tanto desconcerto entre leitores e críticos. E devo dizer que não me chocou, nem tive receio das palavras e ideias nele contidas. Um livro que se lê com apreço, introspecção crítica.


Não gosto muito de sua mulher, não sei explicar a razão, mas são daquelas coisas de instinto. Pareceu, no entanto aos olhos externos, sempre dedicada.

Escreveu Pilar, sua mulher, no blogue da Fundação Saramago, quando anunciou o novo livro do escritor.

"Este livro agarra-nos, digo-o porque o li, sacode-nos, faz-nos pensar: aposto que quando o terminardes, quando fizerdes o gesto de o fechar sobre os joelhos, olhareis o infinito, ou cada qual o seu próprio interior, soltareis um uff que vos sairá da alma, e então uma boa reflexão pessoal começará, a que mais tarde se seguirão conversas, discussões, posicionamentos", escreve ainda a presidente da Fundação Saramago no texto. Quase a concluir, Pilar del Río classifica o romance de José Saramago, 86 anos, como "literatura em estado puro".

Pilar del Rio

Reconheço que assim foi! Li o curto romance de uma vez, mas bem devagar! Paradoxo? Talvez não! Impossível não reagir, questionar, meditar! Olhei várias vezes esse infinito, numa introspecção bem silenciosa. Tal como quando li O Evangelho Segundo Jesus Cristo.

Transcrevo a curta frase que resume a obra: “A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele”. 

Saramago, Caim, Caminho, Outubro 2009, 1ª edição, pág. 91

Suponho, pela leitura que fiz, que Deus, deus como ele preferia escrever, não lhe era assim tão indiferente!

"Estavam no quarto. Fernando Pessoa sentado aos pés da cama, Ricardo Reis numa cadeira. Anoitecera por completo. Meia hora passou assim, ouviram-se as pancadas de um relógio no andar de cima, É estranho, pensou Ricardo Reis, não me lembrava deste relógio, ou esqueci-me dele depois de o ter ouvido pela primeira vez. Fernando Pessoa tinha as mãos sobre os joelhos, os dedos entrelaçados, estava de cabeça baixa. Sem se mexer, disse, Vim cá para lhe dizer que não tornaremos a ver-nos, Porquê, O meu tempo chegou ao fim, (...)

José Saramago,
 O Ano da Morte de Ricardo Reis, Caminho, 1984, 1ª edição


Este excerto poderia bem pertencer a... ano da morte de José Saramago. 


Quase diria que o diálogo se passaria entre Saramago e Borges, autor que  muito admirava.





G-S

Fragmentos Culturais

18.06.2010
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6 comments:

Avelaneira Florida said...

Fragmentos,

comecei a ler Saramago quando não era moda...
na 1ª Feira do Livro feita na Escola trouxemo-lo para conversar com os alunos...e ficámos a conhecer um bom gigante!
Depois da "Viagem a Portugal"...foram chegando o "Memorial"..."A História do Cerco de Lisboa"...
E quando li a "Viagem do Elefante"...ficou-me a estranha sensação de algo que está em partida...
Hoje, essa sensação transforma-se em absoluta perenidade.

Bom domingo!!!!!

Fragmentos Culturais said...

... sim, tal como eu! Quem tem o gosto pela Literatura, dificilmente lê por 'modas':)

A sua obra é muito vasta, apesar de só ter começado seriamente com a idade de 50 anos. O que prova que a idade não é limite...

Por vezes, quando lemos um livro, vemos um filme realizado ou interpretado por determinada realizador ou actor, fica-nos esse 'pressentimento' que algumas vezes se cumpre :(

As suas obras mais recentes já deixam passar essa 'suavidade'...

Bom domingo, também, 'Avelaneira'!
(foste a 'unica' corajosa a comentar... sensibilizada!)

Gonçalo said...

Num momento triste para a cultura portuguesa, não poderiaqs ficar indiferente a este momento e eu não poderia deixar de vir cá por esta ocasião. Contigo a cultura reveste-se de outras cores!

Um beijo grande *:)

Fragmentos Culturais said...

... bem verdade, Gonçalo! Acima das polémicas, das convicções políticas, há o grande escritor.

Sempre dissociei uma coisa da outra. É preciso ter esse rasgo.

Se assim não fosse como é que Roberto Bolaño se tornou um escritor tão 'amado' na actualidade?! Uma fama póstuma :(

Custa-me a crer que os Portugueses, que se dizem 'de brandos costumes', guardem tantos rancores...

Só tenho a agradecer a tua 'vinda' até 'fragmentos'! Como vês, foram poucos os que se atreveram a comentar :(

Beijinhos**

Gonçalo said...

Para comentários irónicos já bastam os senhores de "brandos costumes". Pelo menos há coerência...

:)

Um beijo grande, com muito orgulho em ti *;)

Fragmentos Culturais said...

... neste espaço, embora variado e heterogéneo, há sempre coerência, Gonçalo :)
Não seria eu...

Sempre fico feliz por te ler por aqui!
Oh! Muito obrigada pelo sentimento que nutres por mim ;)

Beijinho grande*