Sunday, February 6, 2011

Sophia - uma vida de poeta






Sophia Mello Breyner
Foto: Eduardo Gageiro
http://img.rtp.pt/

"Comecei a escrever numa noite de Primavera, uma incrível noite de vento leste e Junho. Nela o fervor do universo transbordava e eu não podia reter, cercar, conter – nem podia desfazer-me em noite, fundir-me na noite.

No gume da perfeição, no imenso halo de luz azul e transparente, no rouco da treva, na quasi palavra de murmúrio da brisa entre as folhas, no íman da lua, no insondável perfume das rosas, havia algo de pungente, algo de alarme.

Como sempre a noite de vento leste misturava extasi e pânico."
Sophia

(numa folha solta, No fim da folha, à direita, está a indicação: «Porto, 9-V-1934»).

Sophia
créditos: Arquivo Global Imagens

Em Novembro de 2010, o espólio de Sophia de Mello Breyner Andresen chegou à Biblioteca Nacional de Portugal, doado pelos cinco filhos da poeta. Uma nobre atitude, já que possibilita novas perspectivas de estudo a investigadores portugueses e estrangeiros.



"O espólio de Sophia traz, naturalmente, as marcas da vida, com todos os seus acidentes biográficos. São cadernos e folhas soltas com rascunhos e diferentes versões de vários tipos de textos, esboços de projectos, traduções; são cartas, agendas cheias de notas sobre afazeres do dia-a-dia (números de telefone, receitas de cozinha, contas domésticas), diários de viagem, desenhos, recortes de jornais com depoimentos e entrevistas, fotografias; são impressos que documentam gestos de solidariedade e envolvimento cívico e político."



Capa "A Menina do Mar", 1958, Lisboa, Edições Ática. 
Ilustrações de Sarah Affonso

Há também outras surpreendentes descobertas. Segundo a informação da BN , "no fundo de um  pequeno móvel, meio abandonado estavam, escondidos e alinhados, vários cadernos, os mais antigos cadernos de poemas. Dentro da ideia de que os desperdícios contam histórias, pode-se dizer que esta é uma das partes mais interessantes do espólio."



"Um dia, mortos, gastos, voltaremos", em caderno com textos datados entre 1933 e 1935 
Publicado em "Dia do Mar".
http://www.bnportugal.pt

São os primeiros esboços de poemas, tentativas de adolescente que remontam aos seus 12, 13 anos. Por entre esses papéis,  muitos dos poemas em manuscrito, que viriam a ser publicados ao longo da vida.

Assinalando a sessão da entrega do Espólio à BNP, no dia 26 de Janeiro de 2011, foi inaugurada a Exposição “Sophia de Mello Breyner Andresen - Uma Vida de Poeta”, comissariada por Paula Morão e Teresa Amado que estará patente na BN até 30 de Abril.




Também a Fundação Gulbenkian promoveu um "Colóquio Internacional" para assinalar esta doação e que, a avaliar pelo programa, qualidade dos oradores, deverá ser excelente.







Também o 176 da revista Colóquio Letras lhe é em grande parte dedicado.





"Minha querida filha, minha rica, chegaram aqui os seus versos, guardei um livro para mim que li e reli. Acho tudo tão lindo, dormi com o livrinho debaixo do meu travesseiro. Fiquei tão emocionada! (…) Não sei que mais hei-de dizer. Custou-me tanto a habituar-me à ideia de ter uma filha Poeta, não esperava nada que isso me acontecesse mas agora já sei como é, já compreendo tudo. (…)"

(escrevia a mãe de Sophia de Mello Breyner Andresen no dia 2 de Agosto de 1944, numa carta enviada à filha a propósito da publicação de “Poesia”, o seu primeiro livro.)

G-S


Fragmentos Culturais

06.02.2011
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Licença Creative Commons 


Referências:

Biblioteca Nacional

Maior TV (vídeo gravado em 27.01.2011)

12 comments:

Cata- Vento said...

Também lhe dediquei um post no meu blogue " A Ver o Mar". Tenho uma admiração muito grande por Sophia de Melho Breyner. A mulher, a escritora, a mãe fascinaram-me desde muito jovem e, felizmente, consegui ao longo de muitos anos incutir o gosto pela leitura da sua obra a jovens e menos jovens. Tenho pena que a casa onde morou não tivesse sido adquirida pela CML e aí feita a sua Casa-Museu. A BN saberá fazer jus a este grande vulto da cultura nacional.
Bem-haja!

Beijinhos

vitor cunha said...

Tal como entre os romancistas adoro Camilo,entre os poetas adoro Camões e Antero de Quental, entre as poetisas adoro Florbela Espanca e Sophia de Mello Breyner.

Beijinhos

pinguim said...

Sou um apaixonado por Sophia e como tal considero absolutamente imperdível esta exposição.

heretico said...

delicada e inteligente a tua homenagem.

não perderei a exposição.
como não admirar Sophia?!

beijo

Gonçalo said...

Sinto saudades da tua assertividade! Voltarei em breve :)

Beijinhos***

Daniel Silva (Lobinho) said...

Recentemente li isto dessa grande poetisa que escreve poesia como alguns outros grandes poetas nao escrevem:

"Senhor sempre te adiei
Embora sempre soubesse que me vias
Quis ver o mundo em si e não em ti
E embora nunca te negasse
te apartei"


Estive lá :)

Beijinho amigo

Fragmentos Culturais said...

... já fui lê-lo, 'cata-vento'! E está lindo!

É mesmo uma mulher admirável, em todas as vertentes! E uma cultura vastíssima! Uma obra de infindável beleza!

Lá fora, quase todas as casas de grandes escritores são 'dignamente' conservadas, espaços públicos de vasta afluência cultural nacional e internacional!

Cá, raras são as casas de autores (em função dos grandes nomes em que a nossa literatura é fértil) que fazem parte de um percurso turístico-literário. Espaços muito procurados por pessoas ligadas aos livros.
Deixa-se morrer quase tudo :(

Sim, os filhos tomaram a atitude mais adequada! A BN será o melhor espaço para Sophia!

Um beijo

Fragmentos Culturais said...

Há tantos escritores nossos que eu venero, Vítor!
Mas referiste alguns :)

...ah! E quanto a Camilo, também sou grande apreciadora do romance camiliano. Um autor que tem sido muito ostracizado...

Um beijo,

Fragmentos Culturais said...

... pois eu também acho, 'pinguim'! Lamentarei profundamente se a perder!

Quem sabe se até Abril conseguirei ir a Lisboa?!

Fragmentos Culturais said...

... impossível, não é mesmo 'Herético'?!

Moverei alguns obstáculos para ir até à BN...

Sempre afectuoso!
Um beijo

Fragmentos Culturais said...

... oh! Gonçalo! Como gostei de te 'ver' por aqui :)

Beijinhos**

Fragmentos Culturais said...

... pois Sophia é mesmo uma 'poeta', Daniel! Assim o escrevi e assim é tida, tal como tu afirmas!

Natália Correia não admitia que a tratassem de 'poetisa', já que na antiguidade clássica a palavra tinha uma simbólica de menosprezo.

As mulheres, em todas as civilizações, tiveram penosos caminhos percorridos para ser aceites numa intelectualidade só aberta aos homens!
Ainda hoje não é fácil... e tu sabe-lo bem!

Sophia tem essa visão teológica que não lhe foi muito fácil!
Classicista de formação, percorreu longos caminhos...

Já reparaste na beleza da janela aberta para o Universo! E o verde que se vislumbra? A luminosidade que transcende?
Tudo lá está... e a serenidade :)

Um beijo amigo