Sunday, March 18, 2012

Florbela - poesia ou cinema?




Florbela | filme


Minh'alma é a Princesa Desalento,
Como um Poeta lhe chamou, um dia.
É magoada, e pálida, e sombria,
Como soluços trágicos do vento! (...) 
Florbela Espanca, Princesa do Desalento

Início de tarde de domingo. Frio demasiado para um passeio até à beira-mar. Sento-me aqui, nesta janela virada para os amigos virtuais e decido-me por escrever. Florbela. Sim, Florbela Espanca. 

Apesar de não ser uma das minhas poetas preferidas, demasiado depressiva, gosto da mulher que foi e do seu desassossego. E admiro a sua poesia.

E foi ontem, naquela tarde de chuva fresca, mas que trouxe consigo o frio. Estava decidida. O filme a ver seria Florbela de Vicente do Ó. 

Um retrato livre de Florbela, a mulher e a poeta,  em momento de vida de busca de inspiração desta enorme poeta com tal sede de infinito. E  o realizador sabe captivar-nos. Ficamos presos às imagens, aos diálogos, ao cenário. 



Florbela

Sala bastante cheia. Mesmo assim, lá consegui um lugar mais recatado para fruir de um momento de interioridade. Sim, porque uma sala de cinema pode conter esse sentimento de estarmos sós perante os outros, apenas sombras, na contra luz do ecrã reflectida na audiência.

Esperava muito! Vira os trailers que me cativaram de imediato, ouvi Dalila do Carmo (Florbela) e Vicente Alves do Ó. Convincentes, sensíveis. 


As duas horas de filme não me desiludiram. Muito pelo contrário. Não estupefacta com a beleza das imagens e com o encanto dos movimentos. Sabia que podia contar com isso, já fora conquistada previamente.

Fascinante! De grande qualidade! Posso dizer muito mais? Não, só vendo! 





Florbela Espanca viveu em tempos conturbados do país. Ainda adolescente, assistiu ao final da Monarquia. Chegou a frequentar o curso de Direito em Lisboa, numa atitude fora do comum no seu tempo – eram pouco mais de uma dezena de mulheres num curso que contava com cerca de 350 homens inscritos. 



Dalila do Carmo | Florbela 

A sua vida afastou-se dos cânones de então, tal como a sua poesia, para o bem e para mal. Era uma alma em constante busca da 'infinitude'. Florbela criou um eu-lírico para os seus poemas, de cariz ultra-romântico, afastando-se dos movimentos literários que surgiam.



Florbela

A poesia desfila na ecrã pela estética de imagens cativantes. Vicente Alves do Ó capta a poeta quase em jeito de poema. E, assim, faz o tributo a uma figura que em vida causou escândalo, mas também arrebatou admiradores. E no final acabará por ser recordada pelas suas palavras e pela sua ousadia.

O que poderia escrever mais? Dalila do Carmo, intensa! Maravilhosa!

Acentuadas referências a grandes autores do cinema: Lars von Trier e Melancholia, Luchino Visconti e Morte a Venezia, François Truffaut no retrato íntimo de "L'Histoire de Adèle H".

Mas todos nós somos feitos de referências do que lemos, ouvimos, vemos. E estas são belíssimas!

Apesar de bem escrito, os diálogos pareceram-me, por vezes,  um pouco limitados para a grandeza de Florbela, mulher e poeta.




Banda sonora de inegável qualidade da autoria de Guga Bernardo. Embora talvez demasiado presente. Momentos havia que o silêncio seria o ideal para a emotividade do que desfilava aos nossos olhos.

Negativo, mesmo! O trabalho técnico de mistura de som não foi bem trabalhado. Houve momentos em que o som ambiente, som de fundo, ficavam ao mesmo nível ou acima até, do som dos diálogos, factor que retira qualidade aos mesmos.

Não ver? Imperdoável! Um dos mais belos filmes portugueses feito para 'se amar (...) amar só por amar', poesia cinematográfica, magia cénica, sensível, lindo cinema


Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...
(...)

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

Florbela Espanca, Lágrimas Ocultas 


G-S 

Fragmentos Culturais 

18.03.2012
Copyright © 2012-Fragmentos Culturais Blog, fragmentosculturais.blogspot.com®  


Licença Creative Commons

16 comments:

João Roque said...

Já estava na minha programação; agora, depois de ler esta critica, ainda mais...

Daniel Silva (Lobinho) said...

OLá, como estás?

Entre outros vi este, obviamente! Tal como dizes, as duas horas não desiludem nada nem custam a passar, sequer! E, como tão bem referes, "uma sala de cinema pode conter esse sentimento de estarmos sós perante os outros, apenas sombras, na contra luz do ecrã reflectida na audiência." Para mim, geralmente, contém sempre...

Seguir-se-á uma série de três episódios para TV a estrear este ano numa abordagem diferente, mas este filme está, como muito bem dizes, poético. É, aliás, essa poesia, que lhe confere a diferença, ou estaríamos perante uma pequena novela ou documentário que, a meu ver, empobreceria em demasia, a vida e obra de Florbela, muito embora sabendo que a poesia não é ali dita e que se foca apenas nos últimos dias de Florbela.

Se entrarmos em preciosismos, nunca nada estará suficientemente bom, embora concorde com o facto de a música por vezes se sobrepor aos diálogos (mesmo sabendo que Dalila Carmo não tem, definitivamente, boa voz), mas os quatro momentos que lhe conferem a maior beleza e muitíssmo bem conseguidos no continuum das cenas, me valham por tudo! Por tudo, mesmo!

Dalila Carmo, saliente-se, está numa interpretação incorrigível!

O teu beijo com o sol de que gostas...

Gonçasonblog said...

Obrigado por teres lido com atenção e teres olhado de uma forma critica para o texto e para a imagem. A imagem "polaroid" é de uma sequência de outras imagens de um escritor/(e fotógrafo) predilecto chamado Pedro Paixão (www.pedropaixao.net).
Desconhecia a existência de um filme sobre a florbela Espanca, parece-me de facto interessante.

Um abraço.

heretico said...

tencionava ver, mas depois da tua crónica é uma urgência...

beijo

Lilá(s) said...

Na 6ª feira no cinema vi a apresentação, e é claro que tenciono ver.
Bjs

mfc said...

Imperdível depois de ler a tua crítica!
Segura... e brevemente.

Beijos,

BRANCAMAR said...

Ainda não vi, mas tenciono fazê-lo muito breve.

Já tinha pensado nisso, mas agora aguçaste-me mais o apetite.

Beijos

aflores said...

Vi, adorei e também recomendo!

Tudo de bom.

Fragmentos Culturais said...

Será que já foste ver, João?
Se de algum modo contribui, obrigada...

Fragmentos Culturais said...

Olá, Daniel :)

Estou bem, e como este tempo lindo, então!

Pois, era imprescindível ver 'Florbela' (será que és mais cinéfilo do que eu?).

Sabia que a versão para televisão está prevista, só não sei para quando, embora tenhas referido este ano.
Suponho que não será enquanto o filme rodar em sala de cinema! Levaria à perda de espectadores... o que não seria bom!

Penso|sinto que a beleza do filme também passa pela apresentação em grande ecrã.

Sim, suponho que sim. A poética com que foi imaginado|filmado faz a sua enorme beleza!
Mas outros aspectos me agradaram: 'poética' das imagens (já referi influências), música, cenários e guarda-roupa (muito cuidado e de bom gosto), e... Dalila do Carmo!

Não referi alguns aspectos menos conseguidos como 'preciosismos' apenas como pormenores que poderiam ter sido cuidados, já que o filme foi muito bem pensado.

Concordo que Dalila não possui a melhor voz, mas até isso consegui 'esquecer'.

Sensibilizada pelo pensamento no 'sol que tanto amo'!

Um beijo fraterno

Fragmentos Culturais said...

Foi um prazer, 'Gongas'! Sim, conheço muito bem Pedro Paixão :)
Também tu! Excelente, termos este ponto em comum.

Li o seu livro 'A cidade depois' que comprei mal saiu. Reli um pouco online (tenho ideia que na versão impressa, há fotos da cidade de Nova Iorque ...)

Se tiveres oportunidade de ver 'Florbela', não percas...

Um beijo,

Fragmentos Culturais said...

Ainda bem, 'Herético' :)
... mas, por favor, vem contar-me a tua 'visão'.

Um beijo,

Fragmentos Culturais said...

Não percas, 'Lilá(s)! Estou convicta que vais gostar...

Um beijo,

Fragmentos Culturais said...

Deixas-me ruborizada, 'mfc'!

Podes partilhar o teu comentário?

Um beijo,

Fragmentos Culturais said...

Bom, ainda bem, Branca!

Depois me dirás...

Beijos,

Fragmentos Culturais said...

Hum! Que bom, 'aflores':)

Tudo de bom!