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domingo, 3 de julho de 2016

Ah o medo




ilustração: Messia
via Martel Clément/ Le Monde

Ah o medo vai ter tudo
tudo

(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)
... ...

Alexandre O'Neill, O Poema Pouco Original do Medo

G-S

Fragmentos Culturais

15.07.2016
Copyright © 2016-Fragmentos Culturais Blog, fragmentosculturais.blogspot.com®6.2016

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Em tempo(s) de Natal !





via furniture graphic

Em tempo(s) de Natal. Poisámos o perfume dos afectos, a haste de azevinho, as luzes e as velas. Baixamos serenidade. `


Tempo(s) também de nostalgia. Dos seres que não se sentam mais à nossa mesa, dos amigos que partiram sem ter tempo de um olhar de despedida.


Afectos suspensos que pairam na noite de Natal.


Lembranças guardadas. Olhar saudoso.



Mas a azáfama acorda-nos destes torpores de melancolia. Abre-se a porta da alegria. Prepara-se a recepção da família, dos amigos. No ar soltam-se os aromas da canela, do leite-creme, dos frutos secos, da aletria, do chocolate quente. E das rabanadas.



Lá fora, o nevoeiro desceu sobre a cidade, e as luzes ficaram mais trémulas por entre os pingos da chuva, suave.



As nuvens adensaram-se em contraste com os tons quentes das velas, da doçaria tradicional, das frutas frescas.



Natal. O encanto irrompe, preenchendo o seu espaço. No íntimo, cada um nós acorda aquele sentimento mais puro. O da magia.



Percorrem-se melodias, buscam-se sorrisos. Um pouco mais de intensidade no brilho do olhar. Emoções.


Hoje sim, tenho poesia. A de poetas.


Frémito de Luz

Há um frémito de luz
que se adivinha
um perfume louro adormentado
com bagas escarlates
de azevinho e rosas
brancas a decorar a tarde
Há um rasto de neve
e nascimento, doces de mel
lume e frutos secos
um sussurrar fugaz
a mitigar, um som dolente
Memória da infância a recordar
o perpassar do anjo
na viagem do tempo

Maria Teresa Horta
Lisboa, 23 de Dezembro de 2015


Ah! A magia da poesia. Perdemo-nos nos sons que as palavras sussuram dentro de nós. Como quem medita.


E assim, vamos trazendo a cada tempo de Natal, a magia do instante. No perpassar do anjo.


O que guardamos? Afectos que nos envolvem nesta noite doce.


Festas Felizes, queridos amigos e leitores! Paz para o mundo.


G-S

Fragmentos de Natal


23.12.2015
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domingo, 21 de dezembro de 2014

Solstício de Inverno anuncia o Natal



La Nevada
Francisco de Goya | Museo Nacional del Prado
Inverno ! Entra no dia mais curto, mas esfuziante de sol. Doce luminosidade. A Natureza prepara-se para hibernar, mais aquecida. 

Não, não posso deixar queixumes de inverno porque o sol me tem brindado com a sua alegria cálida. Daqui para a frente, os dias vão-se tornando gradualmente maiores. Quero fruir deste sol! E da promessa que me traz.

O verde já não é tão verde, mas resiste com tranquilidade. As árvores despidas não parecem tão fantasmagóricas, e alguns ocres próprios do Outono teimam em ficar.

Inspiro profundamente a brisa dos raios solares que aromatizam os espaços. Intensamente.

O Inverno abre seu manto imenso, majestoso. Mas quem sou eu para falar de solstício de Inverno?

Oiçamos a voz da poetisa sussurrada na caneta. Maria Teresa Horta. Mais serena. Nesta sua escrita impregnada de sensibilidade.

O meu amado duvida
e julga perder-me
na brancura da neve impassível

– Oh Branca de Neve!
chama por mim

E o lince esquiva-se
por trás das árvores
de tão ruivo que é entre as folhas caídas

A fitar-me nos olhos desconfiado

Enquanto eu cuido de apagar
cada um dos meus traços
deixados para trás:

As pegadas leves de pássaro
o rumor do sorriso
as estalactites das lágrimas

O sussurro da caneta amando
cada verso que deito no papel

No entanto o meu amante
não descansa de mim
e segue-me pelos trilhos inexistentes

Reconhecendo aqui o meu suspiro
ali os sinais da minha tristeza
mais além a inquietação jubilosa

Na devassa das paixões insustidas

Mas eu sigo à sua frente
no tocar das estrelas
a distanciar-me na celebração do sol
Solstício! – confesso

Desejando atingir
o eixo da Terra
no seu âmago impossível

Maria Teresa Horta, Solstício de Inverno
21 de Dezembro de 2014
(in página oficial)

G-S

Fragmentos Culturais

21.12.2014
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domingo, 25 de novembro de 2012

Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres



Ditta Miranda Jasjfi | Pina Bausch

Seis escritores juntaram-se num livro intitulado "Isto não é um conto" em defesa das mulheres vítimas de violência doméstica. 
            
Alice Vieira, Maria Teresa Horta, Afonso Cruz, Patrícia Reis, António Figueira e a cubana Karla Suárez 'ficcionaram' seis histórias reais, testemunhos de mulheres vítimas de violência doméstica.

Criação que não foi fácil, mesmo para alguém com a experiência de escrita de Maria Teresa Horta.
“Para mim foi-me difícil ficcionar uma história destas, eu que ficcionei tantas histórias de violência doméstica”
Maria Teresa Horta

Ditta Miranda Jasjfi | Pina Bausch
As histórias criadas para "Isto não é um conto" pretendem servir de alerta para casos que, por vezes, acontecem ao nosso lado, como afirmou a escritora Patrícia Reis. O livro é ilustrado por Pedro Vieira.
Uma iniciativa da Associação Link, o projecto contou com o apoio de diversas empresas para tomar a forma de livro, e os seus sete criadores, os seis escritores e Pedro Vieira que, embora escritor, participa na obra como ilustrador, abdicaram dos direitos de autor.
"Isto não É Um Conto é também uma forma de ajudar a reconstruir vidas: as receitas das vendas deste livro destinam-se integralmente a apoiar mulheres sobreviventes de violência doméstica, através de um fundo que permitirá o fortalecimento das respostas e dos serviços adequados que promovam a segurança e autonomia das mulheres, jovens e crianças, devolvendo-lhes direitos tão elementares e vitais como a liberdade e a dignidade humanas."


Ó secreta violência
dos meus sentidos domados

em mim parto
e em mim esqueço

senhora do meu
silêncio
com tantos quartos fechados

Anoitece e desguarneço
despeço aquilo que
faço

Ó semelhança e firmeza
mulher doente de afagos.

Maria Teresa Horta, Violência
in Portal de Poesia Ibero-Americana

Os dados relativos a 2012 agora apresentados pelo "Observatório das Mulheres Assassinadas" registam já 36 homicídios e 49 tentativas de homicídio.

G-S
Fragmentos
25.11.2012
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Associação Link


sábado, 20 de outubro de 2012

Manuel António Pina : em jeito de homenagem !






Manuel António Pina [1943-2012]
créditos: Autor não identificado
via Poetria


"Os livros são para quem gosta deles..."

Manuel António Pina


Manuel António Pina morreu. Jornalista, tradutor, professor, cronista, poeta. Galardoado com o Prémio Camões 2011. Traduzido em vários países. E muitos dos seus livros estão esgotados por reticências do autor.


"Tenho muita dificuldade em aceitar reedições. Provavelmente sim, as editoras vão querer. Mas eu ofereço alguma resistência: não gosto, sinto-me desconfortável. São livros que sinto que já não são meus."

Manuel António Pina, 2011




Todas as Palavras
Poesia reunida
Manuel António Pina
Assírio & Alvim


A sua obra foi distinguida com um Prémio Gulbenkian, o Prémio de Poesia da Casa da Imprensa, o Prémio de Poesia Luís Miguel Nava, o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores e, finalmente, o Prémio Camões em 2011.




Manuel António Pina
créditos : Alfredo Cunha


A notícia do seu desparecimento apanhou-me desprevenida. E nestes momentos, não conseguimos dizer muito. Em jeito de homenagem, deixo algumas notas...


Completas

A meu favor tenho o teu olhar 
testemunhando por mim 
perante juízes terríveis: 
a morte, os amigos, os inimigos. 

E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em fundos sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.

Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.

Manuel António Pina, Algo Parecido Com Isto, da Mesma 
Substância,
Afrontamento, 2011






Conheci-o pessoalmente entre amigos. Um conversador nato, saltando de tema para tema, sempre cronicando. Vasta cultura.

Conheci-o depois em ambiente pedagógico. Manuel António Pina era também um excelente contador de histórias para a infância e juventude.





Manuel António Pina: Obras para infância e adolescência
via NewsMuseum Lisboa-Sintra


Manuel António Pina tinha um amor especial pelos gatos, fazendo-se captar múltiplas vezes com os seus oito gatos, sua imagem de marca. Pergunto-me quem terá ficado com seus afectuosos amigos felinos?! 






Manuel António Pina
via NewsMuseum Lisboa-Sintra

Não tendo nascido no Porto, assumia-se genuinamente portuense, como demonstra neste texto:

"Vim aos 17 anos. Nasci no Sabugal, mas costumo dizer que me nasci a mim mesmo no Porto. Os meus amigos mais antigos são do Porto, as minhas memórias, grande parte das minhas memórias – e nós somos feitos de memórias – são do Porto. É uma cidade onde me sinto muito confortável. Há roupas que nos ficam muito largas e outras que ficam apertadas demais. O Porto assenta-me perfeitamente. Provavelmente é aqui que vou morrer e hei-de ficar a fazer parte da cidade fisicamente."

Manuel António Pina, 2011

A Feira do Livro do Porto 2023 vai homenagear finalmente este enorme mas discreto autor de múltiplos textos. A consultar aqui o Programa.





Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde

Manuel António Pina
a regra do jogo,1974


"Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde."

Manuel António Pina,1974


G-S

Fragmentos Culturais

19.10.2012

actualizado 27.08.2023
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Nota: ver vídeo em Vimeo

Citações Porto 24 (decontinuado)



sábado, 7 de abril de 2012

Tempo de Páscoa






credits: arirao
via Google Images




Depois do Inverno, morte figurada,
A Primavera,
uma assunção de flores.
A vida Renascida
E celebrada
Num festival de pétalas e cores.


Miguel Torga, Glória, Abril de 1985 - diário XIV



G-S


Fragmentos Culturais


06.04.2012

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domingo, 18 de março de 2012

Florbela - poesia ou cinema?




Florbela 
Vicente do Ó, 2012


Minh'alma é a Princesa Desalento,
Como um Poeta lhe chamou, um dia.
É magoada, e pálida, e sombria,
Como soluços trágicos do vento! (...) 
Florbela Espanca, Princesa do Desalento

Início de tarde de domingo. Frio demasiado para um passeio até à beira-mar. Sento-me aqui, nesta janela virada para os amigos virtuais e decido-me pela escrita. Florbela. Sim, o filme biográfico sobre Florbela Espanca. 

Apesar de não ser uma das minhas poetas preferidas, demasiado depressiva, gosto da mulher que foi e do seu desassossego. E admiro a sua poesia.

E foi ontem, naquela tarde de chuva fresca, mas que trouxe consigo o frio. Estava decidida. O filme a ver seria Florbela de Vicente do Ó. 

Um retrato livre de Florbela, a mulher e a poeta,  em momento de vida de busca de inspiração desta enorme poeta com tal sede de infinito. E  o realizador sabe captivar-nos. Ficamos presos às imagens, aos diálogos, ao cenário. 





Florbela
Vicente do Ó, 2012


Sala bastante cheia. Mesmo assim, lá consegui um lugar mais recatado, para fruir de um momento de interioridade. Sim, porque uma sala de cinema pode conter esse sentimento de estarmos sós perante os outros, apenas sombras, na contra luz do ecrã reflectida na audiência.

Esperava muito! Vira os trailers que me cativaram de imediato, ouvi Dalila do Carmo (Florbela) e Vicente Alves do Ó (realizador). Convincentes, sensíveis. 

As duas horas de filme não me desiludiram. Muito pelo contrário. Não estupefacta com a beleza das imagens e com o encanto dos movimentos. Sabia que podia contar com isso. Já fora conquistada previamente.

Fascinante! De grande qualidade! Posso dizer muito mais? Não, só vendo! 






Florbela Espanca viveu em tempos conturbados do país. Ainda adolescente, assistiu ao final da Monarquia. Chegou a frequentar o curso de Direito em Lisboa, numa atitude fora do comum no seu tempo – eram pouco mais de uma dezena de mulheres, num curso que contava com cerca de 350 homens inscritos. 




Florbela/ Dalila do Carmo 
Vicente do Ó, 2012


A sua vida afastou-se dos cânones de então, tal como a sua poesia, para o bem e para mal. Era uma alma em constante busca da 'infinitude'. Florbela criou um eu-lírico para os seus poemas, de cariz ultra-romântico, afastando-se dos movimentos literários que surgiam.




Florbela
Vicente do Ó, 2012


A poesia desfila na ecrã pela estética de imagens cativantes. Vicente Alves do Ó capta a poeta quase em jeito de poema. E, assim, faz o tributo a uma figura que em vida causou escândalo, mas também arrebatou admiradores. E no final, acabará por ser recordada pelas suas palavras e pela sua ousadia.

O que poderia escrever mais? Dalila do Carmo, intensa! Maravilhosa!

Acentuadas referências a grandes autores do cinema: Lars von Trier e Melancholia, Luchino Visconti e Morte a Venezia, François Truffaut no retrato íntimo de "L'Histoire de Adèle H".

Mas todos nós somos feitos de referências do que lemos, do que ouvimos, do que vemos. E estas são belíssimas!

Apesar de bem escrito, os diálogos pareceram-me, por vezes,  um pouco limitados para a grandeza de Florbela, mulher e poeta.

Banda sonora de inegável qualidade da autoria de Guga Bernardo. Embora talvez demasiado presente. Momentos havia que o silêncio seria o ideal para a emotividade do que desfilava aos nossos olhos.

Negativo, mesmo! O trabalho técnico de mistura de som não foi bem trabalhado. Houve momentos em que o som ambiente, som de fundo, ficavam ao mesmo nível ou acima até, do som dos diálogos, factor que retira qualidade aos mesmos.

Não ver? Imperdoável! Um dos mais belos filmes portugueses feito para 'se amar (...) amar só por amar', poesia cinematográfica, magia cénica, sensível, lindo cinema. 

Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...
(...)

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

Florbela Espanca, Lágrimas Ocultas 


G-S 

Fragmentos Culturais 

18.03.2012
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terça-feira, 8 de junho de 2010

Mar em dia de chuva









Oceano Atlântico, Porto | Filipe Navarro



Celebra-se hoje o 'Dia Mundial dos Oceanos'! Ser-me-ia impossível não falar do mar! Esse outro lado de meu ser!


Mar, metade da minha alma é feita de maresia
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia,
Que há no vasto clamor da maré cheia,
Que nunca nenhum bem me satisfez.
E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia
Mais fortes se levantam outra vez,
Que após cada queda caminho para a vida,
Por uma nova ilusão entontecida.[...]

Sophia Mello Breyner, Mar


Meu lado encantatório tem destes desvarios imagéticos. Fujo, fujo do tempo pluvioso que me agride e percorre, e vou em frente ao mar.


Lá, mais além, na evidência da procura e reencontro de minh'alma, vejo-me em paisagens e fragrâncias que perfumam meu rosto de brisas feitas de puro interior.


Serpenteio meu olhar pela imensidão desse mar, voo por entre cumes cintilantes de montanhas feitas de espuma, percorro cadências e sons elaborados pelo espraiar entristecido das ondas. Ressonância imersa de interioridade.

Sentada em frente ao mar de cinza hoje vestido, deixo a vida poisar em meu humilde corpo e divago, qual peregrina!

Regresso! Um último olhar nostálgico sobre o plúmbeo horizonte. Fecho o portão do meu pensamento prateado no sagrado lugar - o mar! 


(ensaio literário original)


O mar ergue o seu radioso sorrir de estátua arcaica
Toda a luz se azula.
Reconhecemos nossa inata alegria:
A evidência do lugar sagrado.

Sophia Mello Breyner, Mar-Poesia, Promontório, p. 70
Caminho, Lisboa, 3ª edição, 2001


G-S

Fragmentos Culturais

08.06.2010
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