Saturday, October 20, 2012

Manuel António Pina: tributo




Manuel António Pina
Fotografia: Alfredo Cunha



Manuel António Pina morreu, Jornalista, tradutor, professor, cronista, Poeta. Galardoado com o Prémio Camões 2011. Traduzido em vários países. Muitos dos seus livros estão esgotados por reticências do autor.

"Tenho muita dificuldade em aceitar reedições. Provavelmente sim, as editoras vão querer. Mas eu ofereço alguma resistência: não gosto, sinto-me desconfortável. São livros que sinto que já não são meus."

Manuel António Pina, 2011
A notícia apanhou-me desprevenida. E nestes momentos, não temos muito para dizer. Em jeito de tributo, deixo um poema e um documentário poético:

Completas

A meu favor tenho o teu olhar 
testemunhando por mim 
perante juízes terríveis: 
a morte, os amigos, os inimigos. 

E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em fundos sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.

Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.

Manuel António Pina, Algo Parecido Com Isto, da Mesma 
Substância,
Afrontamento, 2011






"Vim aos 17 anos. Nasci no Sabugal, mas costumo dizer que me nasci a mim mesmo no Porto. Os meus amigos mais antigos são do Porto, as minhas memórias, grande parte das minhas memórias – e nós somos feitos de memórias – são do Porto. É uma cidade onde me sinto muito confortável. Há roupas que nos ficam muito largas e outras que ficam apertadas demais. O Porto assenta-me perfeitamente. Provavelmente é aqui que vou morrer e hei-de ficar a fazer parte da cidade fisicamente."

Manuel António Pina, 2011

G-S

Fragmentos Culturais

19.10.2012
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Referências:

Citações | Porto24


12 comments:

vitor cunha said...

António Pina é um poeta que deixa transparecer, frequentemente,nos seus poemas a "melancolia" e o "medo". Nos seus poemas reflectem-se, frequentemente,
estes sentimentos.São sentimentos que exprimem o individualismo das sociedades do nosso tempo.
É um poeta que gosto de ler sobretudo, porque compartilho sentimentos semelhantes.
A poesia perdeu mais um valor.

Petrus Monte Real said...

Fragmentos,


Bela homenagem
a um grande poeta,
amante da Língua Portuguesa,
que sempre defendeu, com denodo!
Li muitas crónicas dele, na última página do JN. Sempre vi que criticava, com isenção e imparcialidade, as condutas reprováveis de quem tivesse responsabilidade pelos destinos da sociedade em geral. Rara qualidade!
Uma grande perda!
Que Saudades!

Regresso aos comentários, após mais uma ausência que a vida nos dita, mas, claro, sempre atento ao que se vai passando neste espaço, tão simpático e querido, que já se celebrizou pela sua enorme qualidade!
Muito grato
Abraço amistoso

heretico said...

poeta maoir e cronista certeiro.

uma referência. e uma perda...

o Porto assentava-lhe bem, sem dúvida. mas o País era estreito...

beijo

O Profeta said...

Se o mar adormecer em desvario
As ondas não mais se formarem
Se as gaivotas se perderem do ninho
As árvores mais altas tombarem

Se o dia não encontrar a manhã
As nuvens deixarem de chorar água pura
Se as pedras da ilha roubarem a cor ao verde
As tuas palavras deixarem de ser raiva dura


Boa semana


Doce beijo

Isabel Maria Rosa Furtado Cabral Gomes da Costa said...

Querida FC:
É sempre assim. Só nos inteiramos do verdadeiro valor das pessoas quando elas deixam de estar connosco. E, só então, as convertemos em IMORTAIS.
Gostei muito desta sua homenagem a um Grande Senhor.
Tenho andado com muita falta de tempo, mas, em breve, voltarei a escrever no blog.
Um abraço com toda a minha amizade.

aflores said...

Para sempre na memória e história.

Tudo de bom.

:)

Fragmentos Culturais said...

António Manuel Pina é efectivamente um poeta de sentimentos. Sabe apontar os 'desafectos' da sociedade em que vivemos. Cruzamos todos os dias com esses medos, numa cidade-mundo em que cada mais nos vamos isolando.

Tive o privilégio de conhecer pessoalmente o poeta, o escritor, o cronista.

Perdemos sim, mais um valor...
Abraço, Vítor!

Fragmentos Culturais said...

Não poderia ser de outro modo, caro 'Petrus'... Manuel António Pina mereceria muito mais!

Um autor por inteiro! Tocou com muita qualidade em quase todos os géneros literários e não literários.

As suas crónicas que também lia, eram efectivamente uma referência do JN. Permanecerão nos arquivos digitais. Quem sabe, um dia, não serão compiladas e publicadas em livro!
Sentiremos saudade, sim, porque o escritor-cronista apontava o dedo seguro com arguta educação a todos os males da sociedade.

Aprecio profundamente a sua poesia! Imensa sensibilidade, muito lirismo! Ainda bem que foi reconhecido em vida!

Mas há uma outra faceta menos conhecida: a literatura infanto-juvenil que partilhei frequentemente.

Foi com imenso gosto que li de novo um comentário seu! Sei que a ausência se deve ao dia-a-dia cada vez mais complexo. Não se preocupe, eu própria tenho andado mais afastada.

Muito obrigada pela sua amizade e pelas palavras aqui deixadas.

Um até breve, sempre!

Abraço amistoso

Fragmentos Culturais said...

Um poeta inteiro e um cronista arguto, empenhado.

Manuel António Pina sentia sim que o Porto era a 'sua cidade'! Viveu por aqui a maior parte da sua vida.

É sem dúvida uma referência que fica na história da literatura portuguesa e do jornalismo lusitano.

Uma enorme perda, um carácter como já pouco se vê...

Beijo, 'Herético'!

Fragmentos Culturais said...

'Profeta', é sempre com alegria que leio a tua poesia! Ela só torna este espaço mais belo!

Alguns destes versos poderiam reflectir algo da personalidade de Manuel António Pina. Apenas o sentimento de 'raiva' não fazia parte... sabia escrever as palavras duras de um modo sereno...

Um beijo fraterno

Fragmentos Culturais said...

Querida Isabel, como é bom ler seu comentário!

A vida alterou-se para todos nós... eu sei!
Uma boa notícia essa a de voltar brevemente a escrever no seu espaço!

O nosso país tem esse defeito. Reconhece tardiamente o valor dos seus 'nobres'!
No entanto, Manuel António Pinto foi reconhecido! Não na dimensão que merecia, mas foi.

E foi reconhecido a nível internacional. Está traduzido em vários países.

Foi ainda com muita alegria que soube da notícia que fora galardoado com o Prémio Camões, isto em 2011.

Muito obrigada pelas suas palavras!

Um abraço amistoso,

Fragmentos Culturais said...

Sem dúvida, 'aflores'! Manuel António Pina já faz parte da história da literatura portuguesa!

E está sempre entre nós, através da sua poesia e das suas crónicas, entre outros escritos...

Tudo de bom!