Friday, October 5, 2007

António Lobo Antunes



Antonio Lobo Antunes
http://static.flickr.com/

- É-se escritor, quer dizer, não se consegue fazer outra coisa senão escrever... escreve-se permanentemente, muitas horas diárias. Um romance exige concentração total. Não se pensa noutra coisa. Tem de se escrever a vida inteira...
ou ainda (...)


António Lobo Antunes, DNA, 15.02.2003

Lobo Antunes é um dos mais prestigiados nomes da Literatura Portuguesa. São portanto muitos os que pensam que está na hora de o escritor receber o Prémio Nobel da Literatura!

Independentemente dessa consagração, o autor tem sido muito premiado. E é sobejamente conhecido de um público literário internacional atento, já que seus livros estão traduzidos em quase todo o mundo.

Não sendo ele uma pessoa muito aberta, e tendo a noção que a sua escrita é imbuída de muita criatividade, nem sempre fácil é de entendimento.

As vivências da prestação de serviço na guerra colonial e a formação em Medicina, a especialização em Psiquiatria, são aspectos que transporta para os seus livros, num escrita cada vez mais autobiográfica, onde se reflectem laivos de psicanálise intermitentes que nos dispersa, tantas vezes, o pensamento.

(...) um aceno de enfado, um doente a dormir num canteiro com papéis a escorregarem dos bolsos, a ruiva solidária contigo
- O que vieste aqui cheirar meu camelo, desanda
eu a oscilar neste plátano e nos meus sapatos vazios o buraco da sola (...)

António Lobo Antunes, Que Fazer Quando Tudo Arde, Publicações Dom Quixote, 2001, 1ª edição




António Carrilho
http://www.fcsh.unl.pt/

Mais uma vez, agora em Berlim, no 7º Festival de Literatura, Lobo Antunes foi muito aplaudido.

"...António Lobo Antunes foi longamente aplaudido anteontem à noite por centenas de pessoas que assistiram, no 7.º Festival de Literatura de Berlim, a uma leitura de excertos das suas obras, em português e alemão."


17.09.2007

Li com agrado as primeiras obras, embora menores, segundo alguns críticos literários. Mas em mim, os seus últimos romances, não têm tido aquele impacto intimista que a leitura me provoca, fazendo-me afastar um pouco dessa forma de recriar o seu talento.

Isto pode parecer um sacrilégio para quem me ler, ainda para mais tendo eu a formação académica que me permitiria fazer uma análise menos afectiva e mais literária... mas a 'arte de ler' tem mais de subjectividade do que de análise!

No entanto, reconheço que com o passar do tempo, Lobo Antunes deixou de ter uma visão egocêntrica do mundo, e inevitavelmente se tem tornado mais humilde “…devido aquilo que sonhou e aquilo que conseguiu”.

O seu olhar desencantado e solto sobre a vida, a solidão, a frustração de viver/não amar e mais recentemente sobre a ternura são os seus temas actuais. Talvez me volte a aproximar dos seus romances...

Há, um género, entretanto, que Lobo Antunes pratica, que me apraz ler - as Crónicas.

"Durante cinco ou seis anos, não escrevi crónicas, mas a certa altura compreendi que as podia utilizar como textos paralelos aos romances, quase como um diário".

António Lobo Antunes 

Eu sei! As crónicas abordam os mesmos temas, as mesmas personagens, narram as mesmas acções dos seus romances. Porém aqui, ele cede à forma mais concisa, ao pensamento mais contido. E isso agrada-me! Não me perder na disfunção de um discurso alucinante, agrada-me.

(...) Somos felizes. Por isso não me preocupei no Sábado com o animal, muito entretido na praceta, e tu atrás dele, de trela enrolada na mão, sem olhares para cima nem dizeres adeus, a nadares devagarinho até desapareceres na travessa para a estação dos barcos. Foi anteontem. Às onze horas tirei o cozido do forno e comi sozinho. Ontem também. Hoje também. Não levaste roupa, nem pinturas, nem a fotografia do teu pai, nada.(...)

A Propósito de Ti, Livro de Crónicas, Publicações Dom Quixote, 1995


«Durante cinco ou seis anos, não escrevi crónicas, mas a certa altura compreendi que as podia utilizar como textos paralelos aos romances, quase como um diário»

António Lobo Antunes, 15.09.07


G-S

Fragmentos Culturais, publicado sob pseudónimo em 24.09.2007

05.10.2007

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Esta obra está licenciada sob uma
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10 comments:

Tiago R Cardoso said...

Este espaço fascina-me.

Admito que em relação à obra de Lobo Antunes sou meio ignorante, mas em seis meses não se pode ler tudo, lá chegarei.

Perante este texto fiquei com curiosidade de aprofundar os meus conhecimentos sobre o escritor.

Não tendo graus académicos, digo isto com inveja de quem tem, porque eu ainda vou voltar onde parei e chegarei lá, não gosto de analisar nada, seja pintura, escritura, etc. Como disse e eu concordo a "arte de ler tem mais de subjectividade do que de análise!"

avelaneiraflorida said...

Não consegui ainda "entrar" em ALA...talvez defeito meu!!!!

Mas algumas das crónicas merecem a minha atenção!!!!
Terei de experimentar tomar balanço para um voo maior...

BOM FIM DE SEMANA!

Fragmentos Culturais said...

Tiago, não tenho dúvida que é o meu melhor e mais atento leitor! E para isso... eu não tenho palavras!!

Não é preciso ter graus académicos para se sentir o belo das coisas, dos seres! Verdade?! Basta ter sensibilidade!

É com alegria que sei que quer continuar a investir nos seus estudos!! É um bem precioso... a sede do saber!

Assim, eu possa permanecer entre suas 'leituras'!

Um excelente fim-de-semana!
Sensibilizada pelo olhar afectuoso em 'fragmentos'!

Abraço

Fragmentos Culturais said...

Não é fácil não, amiga 'avelaneira florida'!

Conheço poucos que o conseguem.... e dizer com frontalidade e sem medos que difícil e pouco apelativa é a leitura de Lobo Antunes, ainda menos!

Eu gosto de dizer o que sinto do que leio e como leio!!

Aprecio bastante, como afirmei, as Crónicas deste autor!
É um exercício de escrita que eu muito aprecio, a crónica!!

Em Portugal... temos excelentes cronistas... já vem de longe a arte de 'cronicar'!
Muitos são os que passam pela literatura de fundo paralelamente!

Sensibilizada pelo olhar atento poisado em 'fragmentos'!

Excelente fim-de-semana!

7 Pecados Mortais said...

Grande espaço de cultura, gostei! Realmente os sete pecados mortais é para mim um filme de grande impacto, desde o realizador aos actores em cena, o filme é de um grande ensinamento entre o bem e o mal. Aqui o mal vence, não há grandes argumentos. Mais tarde podemos trocar ideias sobre o filme. Não queria aborrecer com este assunto. Vou linkar este blogue aos meus favoritos. Abraços e aparece.

Fragmentos Culturais said...

O filme 'Sete Pecados Mortais'... como já disse, foi um dos que mais machucou meu ser. Jamais esqueci essa referência, pela negativa!

Eu debati longamente 'a idade' que foi admitida no nosso país. A nível internacional, passou para 16 anos. E até essa...

Sensibilizada pelo gesto de elencar 'fragmentos' e pelo olhar aqui poisado!

Um abraço,

Jose Gonçalves said...

Vim apenas desejar uma boa semana.
O que li merece uma melhor e mais pormenorizada visita.
Um abraço
José Gonçalves

teresamaremar said...

Venho agradecer as palavras deixadas.

Benvinda aos meus cantos!

Fragmentos Culturais said...

Sensibilizada pelo olhar poisado, José Gonçalves!

Retribuo os seus votos de boa semana!

Fragmentos Culturais said...

Foi um prazer passar pelos seus 'cantos'!

Sensibilizada pela partilha, 'Teresamaremar'!