Saturday, May 16, 2009

Hélia Soveral - uma homenagem d'alma





hem.fyristorg.com/piano

"Não havia limite, o teclado escondia o infinito. Parecia simples, sete oitavas, não mais, um espaço tão curto que cabia dentro dos seus braços - e no entanto tinha a vastidão do mar." (...)

Teolinda Gersão, Os Teclados, Publicações dom Quixote, 1ª edição, Abril 1999

Morreu Hélia de Soveral, minha professora de piano, minha amiga e mestre, numa das áreas em que me especializei.

De grande sensibilidade musical e humana, acompanhou a minha adolescência e depois a minha vida, enquanto a sua saúde o permitiu.

Estudou com Luís Costa, um dos notáveis compositores da música contemporânea portuguesa, e mais tarde com grandes mestres internacionais, destacando-se a sua participação no último curso de interpretação de Alfred Cortot, uma das maiores referências da música de piano.

Foi uma das professoras mais importantes que passaram pelo antigo Conservatório de Música do Porto.

"Não impeças a música. Que música? Antes de mais, a deste concerto que é a vida humana, onde temos obrigatoriamente de ocupar o nosso lugar, pequeno ou grande. Não somos cigarras que gritam perdidamente no ramos de pinheiro em longo dia de verão. Devemos estar atentos ao que se passa à nossa volta: uma boa parte do nosso destino depende da sensibilidade do nosso ouvido, da qualidade da nossa inteligência e do virtuosimo dos nossos reflexos."

Paul Claudel (1868-1955)

A sua visão sagaz e pioneira da importância da música como parte integrante do ser humano, fê-la avançar posteriormente com dois grandes projectos na cidade do Porto - a Escola de Música do Porto - por onde passaram nomes tão consagrados como Pedro Burmester, António Pinho Vargas, Miguel Henriques e tantos outros.

Mais tarde, compreendendo a importância de formar músicos profissionais - Escola Profissional de Música do Porto - de onde saíu uma nova geração de músicos que hoje são solistas ou integram as grandes orquestras nacionais.

Nunca esqueceu a vertente cultural! Considerava pioneiramente que um músico só seria inteiro se tivesse uma educação cultural alargada.

Daí ter integrado cadeiras de cultura geral nos seus cursos de música, que abriram muitas fronteiras a tantos jovens que buscavam a sua escola.

Teve um outro sonho! Fundar o Conservatório de Música de Viseu, como ilustre viseense que se orgulhou sempre de ser.

Foi com uma imensa mágoa que a vi ontem partir. E lembrei um texto que eu escrevera, em tarde quente de Agosto 2006, num outro espaço:

"Há dias em que as lembranças aparecem e se instalam de mansinho. E vêm para permancer in tempo, na imagética da vida.

Hoje é um deles! Já ontem à noite pairava no ar uma certa nostalgia, que fora arrumando no cantinho da memória, como que não querendo dar-lhe demasiada importância.

Mas, mal acordei, ela ali estava , certa e segura, como que relembrando que não é sentimento que se arrume. A pureza de momentos vividos é para ser presente.
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Fotografia: Mark Tucker

A foto não foi escolhida só pela beleza estética que é inegável. Tocou-me profundamente. E porquê? Pela ilustração quase verídica de momentos próximos de meu ser.

Trouxe-me de volta longas horas sentada em frente ao piano, lendo partituras longas, repetindo repetindo escalas, exercícios, compassos, aprimorando peças, preparando exames, audições, participação em concursos.

Tudo isto fez efectivamente parte de um percurso já percorrido.

Lembro o rosto e o jeito da professora, o seu grau de exigência, um lápis sempre em toques ritmados, ou então o bater os pés nervosamente, quando sentia um compasso errado, num acompanhamento permanente das notas dedilhadas, tantas vezes distraídamente, em tardes de verão quentes, como a de hoje.

(...) Às vezes, ela saía, logo a seguir, caminhava na rua, tocando apenas mentalmente, para não se deixar interromper. Andava pelo meio das casas e ouvia ouvia (...) As árvores balançavam os ramos, e os carros passavam, as pessoas cruzavam-se com ela, mas não a interrompiam. Só quando chovia ela se abrigava debaixo de uma varanda ou no vão de uma porta, parava mentalmente de tocar e fechava o piano.

Teolinda Gersão, Os Teclados
Publicações Dom Quixote, 1ª edição 1999
 
Meus pensamentos voavam sempre para bem longe, pausas de sobrevivência de uma miúda que procurava também nos livros um recanto complementar àqueles pulsares repetitivos e por vezes fastidiosos. Mas o empenhamento, esse sempre foi constante.

E chegado o momento de ver o meu trabalho exaustivo trocado pelo prazer de tocar, mesmo que sob o imenso stresse de ser escutada ou avaliada, era um sentimento pleno de bem-estar melódico.

A música dava-me a outra vertente da minha sensibilidade que se desenvolveu e aprimorou no estudo dos grandes compositores.

Partitura original de Johann Sebastian Bach
Fotografia: Jens Meyer | AP 2006


Talvez que seja o tempo certo - há coisas inexplicavelmente sentidas - para inscrever neste espaço de alguns sentires, o meu enorme carinho pela minha professora de piano, uma afectuosa e sincera homenagem.

Uma excelente profissional e uma pianista de grande mérito que fez muito pelo ensino da música em Portugal, e tão pouco reconhecida.

Actualmente, restringida por uma doença implacável que lhe destruiu a capacidade maior - poder continuar a tocar e a leccionar.
 
Um beijo muito sentido e um abraço musical eternamente fraterno!"
 
G-Souto (texto original)

30.08.2006

Não sei se alguma premonição se adentrou em mim, nessa tarde de Agosto.

(...)"Et non seulement l'imagination musicale, celle d'un Chopin, d'un Schumann ou d'un Fauré, qui se suffit à elle-même et qui traduit, sans le formuler explicitement, les rêves et les désirs humains," (...)

Alfred Cortot, La Musique Française de Piano
Presses Universitaires de France, 3e édition, 1948*
 






G-Souto

Fragmentos em tons dolentes de muita mágoa numa homenagem terna a Hélia Soveral Torres, minha querida amiga e professora, com a lição de piano de Alfred Cortot, seu querido mestre.


A lição é em si uma verdadeira lição de poética musical.

16.05.2009

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Licença Creative Commons

* Nota: Livros que meus pais me trouxeram de Paris, numa primeira edição, tal como pedira, e que a professora Hélia Soveral me aconselhara, conhecendo ela o meu apreço pela música de Chopin.


16 comments:

Paulo - Intemporal said...

provavelmente a mais bela homenagem que encontro no espaço virtual.

tão cheia de tudo.

saio. comovido.

Brancamar said...

Muito terna e cheia de sensibilidade a homenagem que fizeste à tua professora! Os professores que nos trazem a vida e nos enchem a alma! É mágico quando temos este amor por eles e quando a empatia que nos liga nos vai acompanahr a vida inteira num reconhecimento pleno de carinho e gratidão, como vejo que é o teu caso.
Ficamos imensamente ricos quando assim é.
Deixo-te beijinhos.
Branca

DarkViolet said...

A recordação das danças é o sabor eterno ds silhuetas descritas com ternura, mão a ajudar o trilho da vida, assim se toca a partilha

heretico said...

beijo...

um texto "perfumado" de delidadeza e sensibilidade...

bela homenagem.

Fragmentos Culturais said...

... tão sensibilizada pelas tuas palavras, Paulo!

A homenagem é profundamente sentida :(

Fragmentos Culturais said...

Muito sensibilizada pelo teu olhar, Branca!

O meu carinho por esta professora é imenso!

Um beijo,

Fragmentos Culturais said...

... 'uma mão' presente em muitas tardes da minha adolescência!

E mais tarde, uma partilha de espaços musicais...

Sensibilizada, 'Dark_'!

Fragmentos Culturais said...

... um afecto que permanecerá! Pelas lembranças de tardes de estio doce, em sons musicais. Tal lição de poesia!
beijo,

Muito sensibilizada, ,'Herético'!

Analuka said...

Chego aqui neste belo espaço dedicado às Artes depois de passar e pousar no blog "Intemporal". Que grata surpresa este lugar! A leitura me fez lembrar também de minhas aulas de piano... e fiquei desejante de ler "Os Teclados"... (será que este livro está à venda no Brasil?)...

Certamente, voltarei outras vezes!
Linkarei teu blog para facilitar novas visitas, e partilhas...

Deixo abraços alados e azuis, e um convite para que vá passear em meu jardim de letras e imagens, quando desejar.

A Casa da Buganvília said...

A mais bela homenagem a uma mulher que não será esquecida.
Gosto do teu blogue.
Tem um bom domingo.
Um abraço

Avelaneira Florida said...

Fragmentos,
tem sido muito pouco o tempo para visitar os cantinhos amigos...
mas sabe tão bem aqui regressar!
Linda homenagem!!!!

Fragmentos Culturais said...

Boa noite 'Analuka'

Foi um grato prazer ler seu comentário!

Suponho que o livro de Teolinda Gersão se encontrará no mercado brasileiro, até porque a autora viveu dois anos no Brasil. É só procurar...

Se estudou piano, sinto que vais gostar!

Sensibilizada pelas palavras amistosas aqui deixadas, e pela gentileza de elencar 'fragmentos'!

Com certeza! Irei visitar teu espaço de palavras e imagens, muito brevemente!

Um abraço amigo,
... já que amiga é de 'Intemporal'.

Fragmentos Culturais said...

Uma homenagem d'alma, 'Casa da Buganvília'!

Gostaria que não fosse esquecida! E mereceria uma homenagem muito maior!
Pelo trabalho pioneiro que desenvolveu no nosso país, como música e pedagoga!

continuação de boa semana!
Abraço,

... sensibilizada pelo olhar atento em 'fragmentos'!

Fragmentos Culturais said...

'Avelaneira',

Bom voltar a ler-te em 'fragmentos'! Tanto tempo! Mas compreendo... eu própria tenho dificuldade em gerir tudo!

Muito sensibilizada pelas palavras tão amistosas!

Continuação de bem estar!
Abraço,

Å®t Øf £övë said...

Vejo que tiveste o previlégio de privar com alguém que deve ter sido uma grande mulher, e um mestre na tua vida. A pessoa deixou-te, mas ao mesmo tempo também deixou contigo o enorme legado de tudo o que te ensinou.
Bjo.

Fragmentos Culturais said...

Sim, tive 'Art'_|! Uma inovadora, uma
mestre na arte da expressão pela sensibilidade num instrumento privilegiado - o piano!

Infelizmente, não segui a carreira pedagógica que ela tanto queria que eu tivesse seguido, na senda do caminho aberto por ela! Vicissitudes de ambientes 'corrompidos' pelo abuso do poder :(
Segui outros...

Mas, tal como dizes, o seu legado ficou-me na alma! Foi com muita tristeza que a vi se afastar-se...

Um beijo,

... nem sempre estou atenta de imediato aos teus comentários mais 'discretos'! A minha vida tem sofrido algumas alterações e algumas tristezas se têm apoderado de meu sentir. Ando um pouco arredia de mim, e não encontrei ainda um rumo...