quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Livro do Desassossego na Casa da Música : espectáculo multimédia







O Livro do Desassossego
créditos: Casa da Música


“Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem factos, a minha história sem vida. São as minhas confissões, e, se nelas nada digo, é que nada tenho que dizer.” 

Bernardo Soares


Estava muito curiosa! O Livro do Desassossego de Bernardo Soares, o ortónimo de Fernando Pessoa que muito leio e admiro, e onde mais me refugio nestes últimos tempos, foi ontem, dia 9 de Fevereiro, apresentado na Casa da Música num espectáculo multimédia com libreto e música do compositor holandês Michel van der Aa.


In 2010 Michel van der Aa launched Disquiet Media, an independent multimedia label for his own work, and in 2012 developed Disquiet TV, an online virtual auditorium for contemporary music events.




O Livro do Desassossego
créditos: Casa da Música

O compositor explica assim a transformação dos escritos de Pessoa numa peça teatral:


The Book of Disquiet was assembled from loose sheets of paper, found in a box trunk on Pessoa’s death. I had to narrow the texts down through a process of selection in order to create a piece that could exist in ‘real’ time in the theatre. The task wasn’t as hard as I feared because a series of recurring themes emerged, allowing me to group the fragments by subject matter, for instance isolation, love or dreams.

Michael van der Aa

Bastante público na sala Suggia. Dezanove e trinta não é uma hora muito portuguesa para espectáculos, embora nas principais cidades europeias seja hora nobre.

Cheguei cedo. Gosto de subir tranquilamente a enorme escadaria, tomar um café  no buffet do 1º patamar, e alargar o olhar sobre a panorâmica que dali se usufrui.





O Livro do Desassossego
créditos: Casa da Música


Dirigi-me depois para a sala. Faltavam 15 minutos para o início da peça. Não me canso de admirar a sala Guilhermina Suggia! Espaço privilegiado. E, como eu, outras pessoas já ali se encontravam.


Michel van der Aa deslocava-se então, de um para o outro lado, entre o palco e o técnico* de mistura que se encontrava duas filas à minha frente. Notava-se algum nervosismo, coisa não muito comum num holandês, mas que só demonstrou a sua preocupação perante o público português.






Michel van der Aa
créditos: Michel van der Aa


Afinal, apresentar Pessoa no país de origem, é bem mais complexo !

Fui lendo o programa que me fora fornecido ao entrar na sala...


"O Remix Ensemble apresenta um espectáculo cénico baseado no texto incontornável de Fernando Pessoa. Filmado com laivos do universo sonoro português nos bairros de Lisboa que o poeta percorria, o vídeo coabita com as suas palavras na voz do actor João Reis e com a música a que o Remix Ensemble dá forma."


Seguiam-se as biografias do compositor, director musical, actor, enfim todas aquelas informações que constam de um folheto/programa do género, mas nos quais a Casa da Música põe um certo cuidado, rigor, e estética.

Passavam sete minutos quando as portas da sala Suggia se fecharam!


A  primeira impressão cénica foi boa! Original, apelativa, bem construída a nível de espaços. Espaços, que no desenrolar do espectáculo, se foram tornando permeáveis, o que  fez com que o nosso olhar se debruçasse com interesse e expectativa nos vários movimentos cénicos, entre músicos, actor, elementos multimédia.


João Reis interpretava Bernardo Soares, 'ajudante de guarda-livros', na cidade de Lisboa, ortónimo de Fernando Pessoa, que escreve uma obra fragmentária.


Do lado esquerdo do palco, o Remix Ensemble executava a peça musical, brilhantemente dirigida por Ed Spanjaard. Ressalto o seu impressionante solo acústico no anel colocado junto da formação musical. Belíssimo !


Por trás e ao lado de João Reis, dois círculos onde se projectavam imagens  de vídeo, rigorosamente sincronizadas com a partitura do técnico multimédia.


Atento, minucioso, este misturava a sua própria intervenção de som. A sua partitura incluía mini fotografias dos espaços cénicos do actor, músicos e vídeo. 


Admirei o cuidadoso gesto de virar cada página, de modo a que não fosse audível o menor ruído. Profissionalismo até  na ponta dos dedos!





O Livro do Desassossego
créditos: Casa da Música


João Reis dava também vida a outros heterónimos de Pessoa. Esta multiplicidade de alter-egos foi uma das principais inspirações para o compositor, segundo li.


"I’d read a few of his poems but it was Airan Berg, one of the artistic directors of Linz09, who suggested basing a theatre piece on Pessoa and I was excited to learn that the actor Klaus Maria Brandauer would be interested in such a project. Then I started reading more of Pessoa’s writings and homed in on what I think is his masterpiece, The Book of Disquiet."

Michel van der Aa


João Reis! Não era fácil a interacção da voz do actor com uma formação musical. Exigia uma concentração apurada. Como o actor afirma, uma disponibilidade auditiva atenta.


Senti o seu timbre de voz diferente. Impressão? Mas a acústica da sala é perfeita!


Houve momentos em que o actor teve alguma dificuldade em se sobrepor ao conjunto de músicos do Remix Ensemble. Talvez mal revista a dimensão da componente voz-música no espaço sala? 


Nestes textos, Michel van der Aa, atraído pela ideia de juntar os diferentes heterónimos, tentou a representação total do poeta.




 




Não sei! Para quem leu e conhece uma grande parte da obra de Pessoa (já publicada) sabe que Pessoa é  plural, num constante sobressalto entre o eu e os outros, mas não uma amálgama de seres.



Daí que tenha considerado, alguns excertos declamados de uma forma demasiado agitada.


Tenho para mim que Pessoa, apesar de toda a multiplicidade de sentires, seria uma pessoa irrequieta, mas não agitada. Poderá ser uma visão muito pessoal, mas é a minha.


Se Pessoa/ Bernardo Soares fosse  assim, teria chamado muito mais a atenção, enquanto viveu. Não foi o caso. Todos o sabemos.


"Falei-lhe da revista* e timidamente observou que, não tendo para onde ir nem que fazer, nem amigos que visitasse, nem interesse em ler livros, soía gastar as suas noites, no seu quarto alugado, escrevendo também."

Bernardo Soares, Livro do Desassossego, Prefácio


Suponho que a educação recebida na infância, de raiz britânica, terá pesado ao longo da sua vida
.

Os seus escritos, sobretudo o Livro do Desassossego, são sim de muita inquietação. Mas toda ela de índole bem intimista.






Livro do Desassossego
Bernardo Soares (ortónimo de Fernado Pessoa)
Ática, 1982


"Era um homem que aparentava trinta anos, magro, mais alto que baixo, curvado exageradamente quando sentado, mas menos quando de pé, vestido com um certo desleixo não inteiramente desleixado. Na face pálida e sem interesse de feições um ar de sofrimento não acrescentava interesse, e era difícil definir que espécie de sofrimento esse ar indicava - parecia indicar vários, privações, angústias, e aquele sofrimento que nasce da indiferença que provém de ter sofrido muito."

Bernardo Soares, Livro do Desassossego, in Prefácio 



E depois o lado feminino de Pessoa* mal se pressente na sua obra! Muito menos a presença feminina! E ela sobressai nesta adaptação! Demasiado! Uma fuga  um pouco exagerada?

Não fui a única a anotar este aspecto. Outras pessoas, à saída, comentavam esse lado-presença  feminina tão marcado na peça.


Bom, a liberdade na arte permite diferentes leituras, eu sei! Mas esta terá ido  um pouco para além da expressão do poeta!


Na própria arte em
que nos conhecemos,
nos desconhecemos.

in Bernardo Soares, Livro do Desassossego







A fadista Ana Moura participou na peça através dos vídeos que foram projectados, cantando alguns textos de Pessoa, numa tonalidade tímbrica linda!


"To break up the spoken text I’ve set some poems by Pessoa for the vocalist Ana Moura, who sings them on the video where she appears as the female double of the bookkeeper, the enigmatic herdswoman with the ox."

Michel van der Aa  





O Livro do Desassossego
Casa da Música
credits: Marina Leviskava/ NY Times
Credi

No final da peça, Ana Moura subiu com mérito ao palco, juntando-se a João Reis, num gesto que me agradou da parte do actor.


"É um espectáculo com uma visão muito curiosa e particular sobre o Livro do Desassossego", afirmou João Reis, notando que se trata de "um olhar distanciado de um holandês" sobre a obra de Fernando Pessoa.

Ionline.pt


Não posso estar mais de acordo. No entanto, acabou por resultar numa performance muito arejada, bem contemporânea, quase arrojada. Pessoana, apesar das liberdades apontadas!




O Livro do Desassossego
Casa da Música
credits: Marina Leviskava/ NY Times
Credi
The Book of Disquiet tem sido muito aclamado pelo público e pela crítica, depois da sua premiere em Linz, Capital da Cultura 2009. Passou por Londres, New Jersey (US) entre outros países.


"A new version of the music theatre work The Book of Disquiet with actor João Reis and Remix Ensemble will be premiered on 9 February 2010 in Casa da Música in Porto. This alternative version, which uses the original Portuguese texts by Fernando Pessoa, will be fully staged. Additionally, the film inserts have been re-edited around the character portrayed by the renowned Portuguese actor João Reis."

Foi uma versão adaptada ao público português. Afinal Fernando Pessoa é português.

Gostei! Diferente! Mexe com os estereótipos! Isso agrada-me! A obra multimédia apresentou-se como um todo equilibrado, inusitado, visualmente bonito,  cromatografia elegante, atmosfera musical permanentemente em suspenso dos textos fragmentados de Pessoa.
  

Sem dúvida diferente! A miscigenação resultou num espectáculo invulgar!



"Escrevo com uma grande intensidade de expressão; o que sinto nem sei o que é. Sou metade sonâmbulo e a outra parte nada."


Bernardo Soares, Livro do Desassossego



G-S

Fragmentos Culturais

10.02.2010

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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Ano Chopin 2010 !





Bicentenário Chopin 
créditos © DR
via DN

"On peut aimer les Polonais pour cette seule chose: ils ont eu Chopin!"

Léon Tolstoï


Celebra-se em 2010, o 200º aniversário do nascimento de Fryderyk Chopin. Os eventos multiplicam-se um pouco por todo o mundo. Esperam-se assim excelentes concertos e belos espectáculos.



...il faudrait plutôt parler de l’âme polonaise que Chopin a su sauvegarder avec une beauté extraordinaire dans sa musique – comme ont su le faire en littérature Norwid ou encore Mickiewicz. Je pense ici en particulier à une grande signification artistique, historique, intellectuelle... Chopin, non seulement par son oeuvre mais aussi par le fait d’avoir été une personnalité extraordinaire de la plus belle sans doute des époques des belles-lettres, celle du romantisme, est devenu une valeur qui jouit d’un rayonnement exceptionnel.

Waldemar Dąbrowski, 
Président du Comité des Célébrations CHOPIN 2010

Fryderyk Chopin nasceu a 1 de Março de 1810 na aldeia polaca de Zelazowa Wola, na região de Varsóvia. No entanto, não há a certeza absoluta. Há quem aponte que teria nascido a 22 de Fevereiro.

"Nous n’avons plus aucune possibilité de trancher si Chopin est né le 22 février ou le 1er mars, cela n’a plus d’importance, d’ailleurs un génie a bien le droit de mettre une semaine pour venir au monde..."

Waldemar Dabrowski

Foi considerado um menino prodígio, enquanto viveu no seu país. Aos 20 anos, por questões pessoais e políticas, partiu para França (país natal do seu pai) e em Paris fez carreira brilhante como intérprete, professor e compositor, tendo acabado por adoptar a versão francesa do seu nome, Frédéric-François Chopin.

Morreu aos 39 anos, solitariamente, vítima de uma fibrose quística, embora durante muitos anos se tivesse considerado que morrera de tuberculose.






Frédéric Chopin 
 Eugène Delacroix, 1838
Collections du Louvre


"Si je voulais montrer à quelqu’un ce qu’est la Pologne, je lui jouerais les mazurkas de Chopin."

Boris Pokrowski


Duzentos anos passados sobre a sua morte, constata-se que os polacos conhecem mal o compositor e a sua obra, segundo resultados de um grupo de investigadores de Wroclaw University. 

Pelo que, o presidente do comité para as celebrações afirmou em entrevista que se fará deste evento cultural, um dever de educação cultural nacional:

"Aujourd’hui, nous allons fêter le 200e anniversaire de la naissance de l’homme qui peut servir de modèle de patriote, de l’artiste profondément dévoué à son pays et à sa culture, et dont la plus grande tragédie était d’être à jamais séparé de sa patrie."







Rui Vieira Nery afirmou que Chopin "é um compositor importante na história da música, inovou e fez avançar a música erudita no plano mais complexo e, ao mesmo tempo, produziu uma música eminentemente sedutora, que continua a ter esse impacto, nomeadamente os nocturnos e as valsas"


DN Artes,2010

Vieira Nery é o melhor musicólogo da actualidade. No entanto, a adjectivação de 'música sedutora' é interessante, mas Chopin é bem mais profundo. E não escreveu apenas Nocturnos e Valsas. Os seus dois concertos para piano e orquestra são de uma sensiblidade estética para além do normal.

Assim o confirmam Alfred Cortot, um dos principais estudiosos e intérpretes de Chopin. E pianistas de renome mundial que se especializaram na interpretação da sua obra: Martha Argerich, Mario Pollini, Vladimir Horowitz ou Maria João Pires.

As Sonatas, as Baladas, os Estudos, estão entre as obras para piano mais requisitadas! E são literatura obrigatória em exames do Cursos Superior de Piano, ou em grandes Concursos Internacionais de Piano, pelo seu grau de dificuldade e exigência técnicas e interpretativas.








A sua música enfatiza a nuance, a profundidade, uma espécie de rêverie intime como afirmava Cortot.

Chopin inventou ainda novos géneros na literatura para piano, como é o caso das Baladas. E introduziu inovações muito significativas em géneros já existentes, como Sonatas, Estudos, Prelúdios, Improvisos e outros. 

A sua música combina um sentido rítmico, saliente-se o rubato, e o uso frequente do cromatismo e do contraponto.

Mas Chopin foi também pintor, escritor, figura muito admirada nos salões culturais parisienses do séc. XIX. 

"Son influence sur toute la culture à partir de la moitié du XIXe siècle peut être considérée comme un phénomène : sur la musique mais aussi la littérature, les arts plastiques, les arts élitiques et populaires."

Waldemar Dabrowski





Georges Sand, 
 Eugène Delacroix, 1838
(parte do esboço)

Teve uma ligação amorosa e muito atribulada com a escritora Georges Sand, pseudónimo de Aurore Dupin, uma das figuras intelectuais femininas mais importantes da época que escrevia sob psudónimo masculino, tão comum na época, pela péssima aceitação que a literatura escrita por mulheres tinha na altura, e que já vinha de tempos imemoriais.

"Não permitais que considerem 'fantasma' os dois grandes pólos do homem, a verdade e a felicidade, quando sonhamos sonhos de felicidade, é certo já a termos conquistado."

Georges Sand, Diário Íntimo
in Antígona, Novembro 2004, pág. 153





Ano Chopin 2010/ Toronto


Ao longo de 2010, prevêem-se mais de 2000 iniciativas por todo o mundo, 1200 das quais na Polónia.

"Nous prévoyons trois points culminants de l’Année Chopin qui seront justement des événements musicaux: tout d’abord, la semaine de l’anniversaire, une série de concerts avec la participation de sommités parmi les pianistes de renommée internationale, dont Martha Argerich, Murray Perahia, Garrick Ohlsson.

Le deuxième point culminant, sera le festival Chopin et son Europe, considéré parmi les événements musicaux les plus importants non seulement en Pologne. En 2010, il s’étalera sur tout le mois d’août et nous espérons réussir à réaliser dans d’autres capitales européennes, une partie des concerts prévus dans le cadre de ce festival.

Et enfin, le Concours Chopin anniversaire, avec un jury phénoménal, et illustré également par les prestations d’éminents pianistes." 





Partitura Chopin/ Études

De entre as iniciativas comemorativas mundiais, incluem-se concertos, recitais de música clássica, jazz, blues, rock, além de bailado, exposições, espectáculos de teatro, filmes e desenhos animados.

Impossível destacar apenas um evento, tal a riqueza prevista no site oficial Ano Chopin (desactivado).

Mas gostaria de alertar, por questões de gosto pessoal, a programação da Salle Pleyel em Paris. A mais célebre sala para concertos de piano do mundo.

A nível nacional, posso destacar o recital de Maurízio Pollini na Fundação Calouste Gulbenkian, em 20 de Fevereiro.
  
O CCB apresenta uma programação bastante alargada. O Ano Chopin abre a 8 de Março, com a orquestra polaca Sinfonia Iuventus, sob a direcção de Tadeusz Wojciechowski, sendo solista o pianista Radoslaw Sobczak, segundo fonte da instituição. 

Em Junho, o "Festival Chopin" da Orquestra Metropolitana de Lisboa vai incluir uma série de concertos com dois solistas reconhecidos: António Rosado e Mário Laginha.

A Casa da Música, no Porto, não tem qualquer programa específico de Celebrações Chopin, disse à Lusa, uma porta-voz da instituição.

"Na Casa da Música, todos os anos são anos Chopin", sublinhou a responsável, referindo que no próximo ano são vários os pianistas que incluirão peças do compositor polaco nos seus recitais.

Não é bem a mesma coisa, certo?! Falha da Casa da Música, na minha opinião.






Robert Schumann
litografia : Josef Kriehuber (1839)
http://en.wikipedia.org/

O Ano Chopin vai coincidir com o Ano Schumann, um dos grandes amigos de Chopin. 

Foi Schumann o primeiro a reconhecer o génio de Chopin:

"Messieurs, chapeaux bas, voici un génie!"


Para Wlademar Dabrowsky esta coincidência pode ser positiva para os países de origem, Polónia e Alemanha, se em lugar de se sublinhar a rivalidade, se priorize a amizade entre os dois compositores, o que poderá levar à realização de projectos em comum bastante interessantes.


"How hard it is to 'fully' grasp the cosmos of this music! The entire Poland is here: her national drama,her everyday life, her feelings, the cult of beauty in a human being and the humanity, the noble and proud character of the country, her ponderings and songs."
 

Sem pôr em causa, nenhum dos celebrizados intérpretes de Chopin, é Martha Argerich quem abre o lugar mais íntimo de meu sentir, com aquele seu jeito arrebatador, sublime, de uma sensibilidade que me comove, distanciando-se assim de qualquer outro intérprete deste compositor.


Divina a sua 'leitura' intimista do poeta da música para piano. Eterna intérprete/voz de Chopin.


"No one who loves music can be indifferent towards Chopin. (…) His music contains unfeigned feelings, a dream of the future, and crystal-clear, fervid, exciting ideas."

Dmitri Shostakovich


G-S

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05.02.2010
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quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Bright Star : o filme de Jane Campion sobre John Keats





Bright Star
Jane Campion, 2009
https://www.imdb.com/


"Tout objet de beauté est une joie qui demeure :/Son charme croît sans cesse, et jamais/Ne sombrera dans le néant."

Keats, Endymion


Rendo-me! Bright Star é de enorme beleza, na exuberância da fotografia, na  serenidade dos gestos, na delicada sensualidade da paixão amorosa, nos instantes estéticos, na literária escolha dos poemas.


Jane Campion é uma artista na verdadeira acepção da palavra! Em tudo põe uma elegante sensibilidade.



Abbie Cornish | Bright Star
Jane Campion, 2009
http://www.imdb.com/


Campion encontrou a maneira mais sedutora de nos levar a gostar de John Keats ao apresentar este grande poeta inglês sob a perspectiva do olhar da mulher que ele adorou.

Não era preciso, no que me concerne. Sempre admirei e li John Keats. Mas é encantador o olhar feminino sobre o homem e sobre o poeta.


Um do mais jovens poetas do Romantismo, Keats dedicou a curta vida à sua arte que considerava uma inspiração. Custou-lhe a estabilidade financeira e a saúde física.

Morreu de tuberculose, aos 25 anos, em Roma. A sua poesia sobreviveria, embora  ele tivesse morrido com a convicção de ser mal-amado pelos leitores e críticos. Hoje, Keats é considerado um dos maiores vultos da literatura romântica.


Mas, na sua curta existência, Keats viveu um amor intenso com Fanny Brawne, sua vizinha.

"A drama based on the three-year romance between 19th century poet John Keats and Fanny Brawne, which was cut short by Keats' untimely death at age 25."




Abbie Cornish | Bright Star
Jane Campion, 2009

"En deux siècles  le terme "romantique" a eu le temps de se charger de contresens qui l'ont ridiculisé ou neutralisé. Dans Bright star il y a un poète phtisique, un amour contrarié, et des fleurs, dess champs de felurs même. Le film de Jane Campion rend à ces clichés leur dignité d'images poétiques, leur force dramatique, leur sensualité. leur violence."



Bright Star evoca os últimos anos de vida de John Keats, de 1818  a 1821, na sua relação amorosa com Fanny Brawne. Uma relação que até começou mal, dado que Fanny não mostrava grande apreço pela poesia. John por seu lado considerava-a um nada insolente!


Mas a morte do irmão de Keats toca profundamente Fanny. A partir desse momento, ela aproxima-se de Keats ao querer entender a poesia e pede lições ao poeta.


A  paixão casta, mas envolvente vai desabrochar a cada instante, como os esfuziantes campos de flores  que Campion desvenda deslumbrantes diante de nosso olhar.


O filme é lindo pelo modo como Campion decide contar a história. A realizadora adopta um estilo visual, muito belo, na minha visão, ao imitar e acompanhar o trabalho lírico de Keats.  


Bright Star é um dos mais ternos filmes que vi este ano. Emocionalmente carregado de uma imagética profunda e tão sensível.




Abbie Cornish & Ben Wishaw
Jane Campion, 2009
Pathé Distribution
http://www.lemonde.fr/

"C'est l'une des premières grandes histoires d'amour véridiques"

Jane Campion


Bright Star é uma terna e elegante crónica de um amor impossível, devido à doença de Keats. 

Não é um filme moderno em nenhum dos seus aspectos. Campion honra e celebra os ideais românticos de Keats, mesmo quando reconhece que a realidade do mundo é, por vezes, sua inimiga.




Abbie Cornish & Edie Martin
Bright Star
Jane Campion, 2009


Imagens suaves, frescas, coloridas, sucedem-se! Fanny passeando em campos luxuriantes de flores azuis, John e Fanny ternurando-se deliciosamente, nas costas de Toots (a irmã mais nova de Fanny), que caminha à frente do casal, num gracioso olhar semi curioso, observando-os, de vez em quando.

Jane Campion tem um predilecção por personagens femininas, mulheres que colocam a sua paixão  acima da razão e das conveniências sociais da época! Basta lembrar The Piano. Belo, e sim, bem sensual.  




 
Jane Campion | Abbie Cornish & Ben Wishaw
Festval de Cannes 2009
créditos: AFP/Valery Hache

Jane Campion, Abbie Cornish e Ben Wishaw, na apresentação do filme Bright Star no 62º Festival de Cannes, em 15 Maio 2009.

A interpretação de Abbie Cornish no papel de Fanny Brawne é comovedora. Talvez uma das surpresas do filme. 

Do mesmo modo, Edie Martin no papel de Toots, outra presença deliciosa na linha de retratos de crianças extraordinárias de Campion. Ninguém esquece Anna Paquin no The Piano!


Mas Campion tem também um olhar muito belo sobre Keats!

Je suis émue par sa tristesse profonde, par l'intimité, le lien charnel, qui l'unissait à Fanny. Car, même s'ils ne font pas l'amour, il y a une connexion physique entre eux, des contacts tactiles. Les lettres montrent qu'ils se caressaient les mains. Dans l'un de ses poèmes, Keats écrit que le toucher a une mémoire, qu'il est pour lui aussi important sinon plus que l'acte sexuel.

Jane Campion

Com uma sensibilidade muito própria,  a câmara guiada por Campion  detém-se apenas nos detalhes que são importantes para os dois jovens amantes. 

Como espectadores, é-nos dada a oportunidade de partilhar o seu envolvimento, com um olhar cúmplice. Bright star nunca força ou insiste, mas sedutoramente move-se lentamente, apreciando o próprio ritmo.

De origem neo-zelandeza, Jane Campion é a única mulher galardoada com a "Palme d'Or" no Festival de Cannes (1986) pela  curta metragem Peel, e em 1993 por La Leçon de piano.

Jane Campion consagrou un filme ao escritor Janet Frame (Un ange à ma table, 1990) e adaptou Henry James (Portrait de femme, 1993).


le monde.fr



 Brigth Star
Jane Campion, 2009
http://www.imdb.com/

Lorsqu'on lit les lettres d'amour de Keats (on en possède trente-trois), elles sont si passionnées, si exaltées ! Ce sont les lettres d'amour les plus extraordinaires que j'aie jamais lues. Elles ne parlent pas simplement d'amour, mais surtout de ce sentiment de vulnérabilité que l'on ressent lorsqu'on se perd dans l'autre. Je crois que c'est l'une des premières grandes histoires d'amour véridiques que l'on connaisse. Bien sûr, il y a eu "Roméo et Juliette", mais c'était de la fiction !


Jane Campion



Bright Star
Jane Campion, 2009
http://www.imdb.com/

O filme Bright Star  procura lembrar-nos que, enquanto vivermos num mundo de sentimentos intimistas e emocionalmente preservados, haverá sempre o benefício e a força para abraçarmos o amor incondicional, de corpo e alma.







Bright star, would I were stedfast as thou art--
Not in lone splendour hung aloft the night
And watching, with eternal lids apart,
Like nature's patient, sleepless Eremite,
The moving waters at their priestlike task
Of pure ablution round earth's human shores,
Or gazing on the new soft-fallen mask
Of snow upon the mountains and the moors--
No--yet still stedfast, still unchangeable,
Pillow'd upon my fair love's ripening breast,
To feel for ever its soft fall and swell,
Awake for ever in a sweet unrest,
Still, still to hear her tender-taken breath,
And so live ever--or else swoon to death.


John Keats, Bright star


G-S

Fragmentos Culturais*

13.01.2010
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Licença Creative Commons

* Impossível não divulgar a  esfuziante imagética de Campion!