Nem isso... Escutai-me apenas pacientemente quando vos peço
Que me deis flores...
Sejam essas as flores que me deis...
*Fernando Pessoa/ Álvaro de Campos (?), Dai-me rosas e lírios
Falar de liberdade. Poderia falar de tanta coisa! Da liberdade de expressão, tão em voga nestes nossos modernos tempos.
Mas não! Vou falar da liberdade que se espraia diariamente, diante dos meus olhos, quando ollho pela janela.
Falar deste horizonte que me me leva até ao mar distante, lá longe, quando o céu se mostra límpido, e o sol se reflecte na languidez da maré.
Falar da liberdade que tive até há bem pouco tempo, de andar por aí, nas lindas tarde de Primavera.
Falar da liberdade que os meus olhos têm ao ver o voo das gaivotas que vão e vêm, do mar em direcção à cidade. Gaivotas que poisam frente à minha janela, em posição serena. Meditativa.
Falar da liberdade de espraiar o olhar até lá longe! E viver intensamente o pôr-do-sol, bem rosado, entre nuvens leves e prédios altos. Lá longe, sem obstáculo algum, busco a energia para viver este confinamento. Respiro fundo. Absorvo o ar que me traz aromas de infância. Sem pressa.
Falo deste horizonte, deste distanciamento do mundo que rola lá fora. Sem piedade. Pesadelo.
Recordo os doces fins de tarde. Aqui, à janela, meu pensamento voa. Sou livre.
*Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa, Ática, 1973 (4ª ed. 1993).
Ah! Finalmente o reconhecimento do país que Antonio Tabucchi quis que fosse seu também! Seis anos após a sua morte, a vida e obra do autor italiano Antonio Tabucchi é revisitada, na Fundação Gulbenkian.
"Portugal foi, realmente, a sua segunda
pátria, viveu-o por dentro, e Requiem, como
o Antonio diz, foi “uma homenagem a um
país que eu adoptei e que também me
adoptou, a uma gente que gostou de mim e
de quem eu também gostei”.
Dias 9 a 10 de Abril, duas dezenas de estudiosos, escritores, tradutores e amigos do autor, provenientes dos quatro cantos do mundo, estarão reunidos na Gulbenkian para justificar o nome do Colóquio: Galáxia Tabucchi.
A reunião de tradutores, investigadores, editores, cineastas e leitores especiais da obra do escritor que viveu em Portugal grande parte da sua vida devido à descoberta do poema de Fernando Pessoa Tabacaria, deve-se a um projecto inicial da mulher, Maria José de Lancastre, a comissária de Galáxia Tabucchi.
O debate literário terminará com a leitura de textos de Tabucchipor Jorge Silva Melo e Fabrizio Gifuni, ao som da música de Carlos Martins e de Carlos Barretto.
E ainda a Exposição Tabucchi e Portugal, exposição iconográfica e documental,integrada na programação que celebra a vida e obra do autor italiano Antonio Tabucchi, reunindo manuscritos, documentos, fotografias e outros objectos do acervo familiar do autor.
São ainda mostrados excertos de entrevistas suas a Maria João Seixas ou Mega Ferreira. A exposição pode ser visitada até 7 Maio 2018, e tem entrada livre.
Colóquio(dois dias) com a presença de Eduardo Lourenço, Guilherme d’Oliveira Martins e José Sasportes, entre outros (segunda e terça, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa);
Exibição dodocumentário biográficoSe de Tudo Fica um Pouco/ Si di Tutto Resta un Poco, de Diego Perucci, 2018 (hoje, no Cinema São Jorge), inserido naFesta do Cinema Italiano. No documentário, o realizador Diego Peruci faz uma viagem por pensamentos e pelos locais de eleição do escritor italiano.
"Il primo film documentario dedicato ad Antonio Tabucchi; alle interviste effettuate ad amici, colleghi e compagni di una vita, si affianca un viaggio vero e proprio, attraverso i luoghi che lo ospitarono e lo accolsero. Da Siena a Vecchiano, suo paese natale, da Genova a Bologna, da Firenze a Roma, da Pisa a Piadena, a Reggio Emilia, sin fuori dai confini nazionali, da Lisbona, città che ospita le sue spoglie, a Parigi, dove è conservato il Fondo Tabucchi, presso la Biblioteca Nazionale di Francia. A partire da Rua da Saudade 22 si snoda un percorso che attraversa il tempo, i luoghi, la letteratura e i sogni."
O documentário será exibido em Itália, a partir de 18 Abril 2018.
Exibição dofilme Requiem, de lain Tanner, baseado na obra homónima de Tabucchi (segunda-feira, dia 9 Abril, na Sala Polivalente da Coleção Moderna da Gulbenkian);
Manuscritos e fotografias, a documentos e excertos de entrevistas, a exposiçãoreúne diversos objectos do acervo familiar de Antonio Tabucchi, que reflectem o lado mais pessoal do seu enorme percurso em Portugal.
"Esta exposição, que acompanha o colóquio “Galáxia Tabucchi”, dá a ver alguns dos laços que prenderam o italiano Antonio Tabucchi a Portugal ao longo de toda a sua vida."
Alguns documentos são inéditos. Um deles é um poema de 1967 sobre Lisboa, batido à máquina.
“Ele escreveu alguma poesia quando era novo, mais tarde terá tentado fazê-lo poucas vezes. Achava que os deuses não lhe tinham concedido esse dom, embora, a meu ver, a prosa dele tenha muitas ligações com a poesia”,
Maria José de Lancastre, mulher de Tabucchi
É nestes momentos, momentos de cultura que gostaria de viver em Lisboa. É lá que tudo se passa, a nível da cultura mundial.
Mas, é desta vez que irei a Lisboa! Já não para o Colóquio que me interessaria profundamente (afazeres imponderáveis). Mas, pelo menos, visitar a Exposição.
A Mulher de Porto Pim*
Antonio Tabucchi
Diffel, 1986
Só poderia alongar-me neste post. Sou admiradora incontornável de Tabucchi.Do tempo em que o autor era ainda pouco lido. Comecei com Mulher de Porto Pim.
Seis anos depois do desaparecimento de Antonio Tabucchi, continua uma enorme saudade de o ouvir e a tristeza de entender que não haverá mais obras deste autor, considerado um dos escritores fundamentais da literatura europeia nas últimas décadas.
"La notte è calda, la notte è lunga, la notte è magnifica per ascoltare storie."
*Nota: É com tristeza que constato, na pesquisa de obras de Tabucchi, as primeiras edições encontram-se em sites de generalidades venda pública na internet :-(
Não sabia que José Fonseca e Costa estava doente. E a notícia apanhou-me de supresa. Fiquei entristecida. Uma referência do cinema que abriu claramente os horizontes da actual geração de realizadores portugueses. Um grande cineasta. Discípulo de Michelangelo Antonioni. Admirador da Nouvelle Vague.
Era um dos meus realizadores favoritos. José Fonseca e Costa morreu hoje, 1 Novembro. Uma época por si só já bem triste. Perder uma pessoa de quem gostamos, ou por quem sentimos admiração, nestes dias de Novembro, torna-se ainda mais difícil. A morte é sempre tão difícil!
Não pretendo descrever vida pessoal, Todos poderão facilmente encontrar. Prefiro homenagear o realizador pela sua obra.
Segui com emoção o documentário José Fonseca e Costa que a RTP2 passou esta noite. A luz no olhar foi uma das frases que lhe ouvi. Encerra uma verdade que vai para além da sua maneira de ver o olhar no cinema. Referiu, sem o dizer, a essência da alma. A luz no olhar.
José Fonseca e Costa é um cineasta de referência na filmografia nacional e símbolo de uma geração conhecida como o Novo Cinema da década de 70. Associava-o mais aos ano 80. Não sei, talvez tenha sido no final dos anos 80 que comecei a ver alguns dos seus filmes.
Ouvir o cineasta ali em frente, no televisor, de olhos nos olhos, foi como se continuasse entre nós. O tom da sua voz, aquele olhar vago de busca constante, talvez alguma tristeza, envelhecimento que o magoava?
Um documentário que reconheceu a longa carreira e a obra invulgar do cineasta português. O documentário já passara em Junho, mas só hoje o vi. Teve então mais impacto no sentir.
Kilas, o Mau da Fita, (1980) é o seu maior sucesso junto do público.Cinco Dias, Cinco Noites, (1996),O Fascínio(2003),Viúva Rica Solteira Não Fica(2006) eOs Mistérios de Lisboa (2010), What the Tourist Should See(2009), baseado num roteiro turístico escrito por Fernando Pessoa em 1925, com poemas escolhidos de Álvaro de Campos.
Estas algumas das suas obras que marcaram o cinema português do final do século XX.
José Fonseca e Costa nasceu em Angola a 27 de Junho de 1933 e veio para Lisboa em 1945. Começou por fazer crítica cinematográfica nas revistas Imagem e Seara Nova, em Lisboa, para onde se mudara em 1945.
Chegou a cursar Direito na Universidade de Coimbra, traduziu igualmente para português algumas obras, mas a sua paixão era o cinema.
Concorreu a uma vaga como assistente de realização da Rádio e Televisão de Portugal, quando esta foi fundada (1958). Ganhou o concurso, mas não chegaria a ocupar o lugar devido à sua militância política, não filiada, como fez questão de referir. O cinesta trazia o fascínio do cinema da infância. Pertenceu à geração que via no cinema o encantamento do que não se vive na vida, vive-se no cinema. Remeteu-me de imediato para o Carteiro de Pablo Neruda. Aquele amor pelo imaginário que o cinema transmite, por vezes mais do que a literatura. Depois continuou esse fascínio em França, a partir de 1954, acrescento em discurso directo.
A partir de 1961, viveu em Itália onde se tornou assistente estagiário de Michelangelo Antonioni, na longa-metragem L'Eclisse. Um facto interessante, divulgado por si durante o comentário. Foi Fonseca e Costa quem escreveu a Antonioni a manifestar a sua admiração e interesse em trabalhar com o grande cineasta. E contra as suas expectativas, Antonioni respondeu, aceitando o seu pedido.
De regresso a Portugal, em 1964, produziu e dirigiu filmes publicitários e realizou vários documentários. Só em 1972 se estreou na longa-metragem com o filme "O Recado".
Seguiram-se Os Demónios de Alcácer Kibir (1975), As Armas e o Povo (1974). O documentário sobre a desconolização Independência de Angola (1977) que desconhecia mas que o autor referiu no documentário.
Considerado com respeito como um dos pioneiros do Novo Cinema Português, a ele se deve o primeiro filme dessa geração. "Kilas, o Mau da Fita" (1980). O seu maior sucesso junto do público.
Cinco Dias, Cinco Noites, (1996),é outro grande sucesso, premiado no Festival de Gramado e nos Globos de Ouro e seleccionado para o Montreal World Film Festival.
Durante a década de 80 assinou outros títulos importantes do cinema português: "Sem Sombra de Pecado", "Balada da Praia dos Cães", adaptação do romance homónimo da autoria de José Cardoso Pires, e ainda "A Mulher do Próximo".
As mulheres foram as suas personagens mais extraordinários sempre foram. "Podiam ser desvairados (como a Maria da Luz/Lucília de “Sem Sombra de Pecado”), sofredores (como a prostituta das serranias que Ana Padrão tornou inesquecível em “Cinco Dias, Cinco Noites), de uma sedução fatal (assim era a Mena de “Balada da Praia dos Cães”, fêmea sem dono) ou sobreviventes de um mar de lama (a Pepsi Rita de “Kilas”) – mas não eram fracos, nem pusilânimes, agarravam a vida nas mãos, iam em frente."
Jorge Leitão de Barros, in Expresso
Entrou no cinema com a geração do Cinema Novo, inspirado na Nouvelle Vague francesa e no Neo-Realismo italiano.
Foi, no entanto, um outsider com uma visão muito própria do cinema de autor sem descurar a vertente comercial. Foi um dos realizadores portugueses que levou mais pessoas às salas de cinema. Um excelente contador de histórias. Tal como José Pedro de Vasconcelos.
Fonseca e Costa estava a realizar o último filme, "Axilas", baseado num conto do escritor Ruben da Fonseca. Será terminado, segundo o produtor Paulo Branco.
"Lisboa, Madrid, Rio de Janeiro, Paris, Londres eram cidades onde se movia num cosmopolitismo que os portugueses da sua geração não podiam senão invejar. Ao mesmo tempo era um nacionalista africano em terra estrangeira,"
Jorge Leitão de Barros, in Expresso
Não o senti como um 'nacionalista africano em terra estranha'. Senti sim a nostagia da terra distante onde passou a sua infância.