Thursday, February 11, 2010

Livro do Desassossego na Casa da Música






“Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem factos, a minha história sem vida. São as minhas confissões, e, se nelas nada digo, é que nada tenho que dizer.” 


Bernardo Soares


Estava muito curiosa! O Livro do Desassossego de Bernardo Soares, o ortónimo de Pessoa que muito leio e admiro, e onde mais me refugio nestes últimos tempos, foi ontem, dia 9 de Fevereiro, apresentado na Casa da Música num espectáculo multimédia com libreto e música do compositor holandês Michel van der Aa.


O compositor explica assim a transformação dos escritos de Pessoa numa peça teatral:


The Book of Disquiet was assembled from loose sheets of paper, found in a box trunk on Pessoa’s death. I had to narrow the texts down through a process of selection in order to create a piece that could exist in ‘real’ time in the theatre. The task wasn’t as hard as I feared because a series of recurring themes emerged, allowing me to group the fragments by subject matter, for instance isolation, love or dreams.

http://duyser.net

A sala apresentava bastante público. Dezanove e trinta não é uma hora muito portuguesa para espectáculos, embora nas principais cidades europeias seja hora nobre.
Cheguei cedo. Gosto de subir tranquilamente aquela escadaria, tomar um café  no buffet do 1º patamar, e alargar o olhar sobre a panorâmica que dali se frui.


Dirigi-me depois para a sala, faltavam 15 minutos para o início da peça. Não me canso de admirar a sala Guillermina Suggia! Espaço privilegiado. Como eu, outras pessoas já ali se encontravam.

Michel van der Aa deslocava-se então, de um para o outro lado, entre o palco e o técnico* de mistura que se encontrava duas filas à minha frente. Notava-se algum nervosismo, coisa não muito comum num holandês, mas que só demonstrou a sua preocupação perante o público português.
Afinal, apresentar Pessoa no seu país de origem, é bem mais complexo!


Fui lendo o programa que me fora fornecido ao entrar na sala...

O Remix Ensemble apresenta um espectáculo cénico baseado no texto incontornável de Fernando Pessoa. Filmado com laivos do universo sonoro português nos bairros de Lisboa que o poeta percorria, o vídeo coabita com as suas palavras na voz do actor João Reis e com a música a que o Remix Ensemble dá forma.


Seguiam-se as biografias do compositor, director musical, actor, enfim todas aquelas informações constantes de um documento do género, mas nos quais a Casa da Música põe um certo cuidado, de rigor, e estética.


Passavam sete minutos quando as portas da sala Suggia se fecharam!

A  primeira impressão cénica foi boa! Original, apelativa, bem construída a nível de espaços. Espaços, que no desenrolar do espectáculo, se foram tornando permeáveis,  o que  fez com que o nosso olhar se debruçasse com interesse e expectativa  nos vários movimentos cénicos, entre músicos, actor, elementos multimédia.

João Reis interpretava Bernardo Soares, 'ajudante de guarda-livros', na cidade de Lisboa, ortónimo de Fernando Pessoa, que escreve uma obra fragmentária.


Do lado esquerdo do palco, o Remix Ensemble executava a peça musical, brilhantemente dirigida por Ed Spanjaard. Ressalto o seu impressionante solo acústico no anel colocado junto da formação musical. Belíssimo!


Por trás e ao lado de João Reis dois anéis onde se projectavam imagens  de vídeo, rigorosamente sincronizadas com a partitura do técnico multimédia.


Atento, minucioso, este misturava a sua própria intervenção de som. A sua partitura incluía mini fotografias dos espaços cénicos do actor, músicos e vídeo. Admirei o cuidadoso gesto de virar cada página, de modo a que não fosse audível o menor ruído. Profissionalismo até  à ponta dos dedos!


João Reis dava também vida a outros heterónimos de Pessoa. Esta multiplicidade de alter-egos foi uma das principais inspirações para o compositor, segundo li.


"I’d read a few of his poems but it was Airan Berg, one of the artistic directors of Linz09, who suggested basing a theatre piece on Pessoa and I was excited to learn that the actor Klaus Maria Brandauer would be interested in such a project. Then I started reading more of Pessoa’s writings and homed in on what I think is his masterpiece, The Book of Disquiet."

Michel van der Aa

João Reis! Não era fácil a interacção da voz do actor com uma formação musical. Exigia uma concentração apurada. Como o actor afirma, uma disponibilidade auditiva atenta.


Senti o seu timbre de voz diferente. Impressão? Mas a acústica da sala é perfeita!
Houve momentos em que o actor teve alguma dificuldade em se sobrepor ao conjunto de músicos do Remix. Talvez mal revista a dimensão da componente voz-música no espaço da sala?!





Nestes textos, Michel van der Aa, atraído pela ideia de juntar os diferentes heterónimos, tentou a representação total do poeta.


Não sei! Para quem leu e conhece uma grande parte da obra de Pessoa (já publicada) sabe que Pessoa é  plural, num constante sobressalto entre o eu e os outros, mas não uma amálgama de seres.

Daí que tenha considerado, alguns excertos declamados de uma forma demasiado agitada.

Tenho para mim que Pessoa, apesar de toda a multiplicidade de sentires, seria uma personagem mais quieta. Poderá ser uma visão muito pessoal, mas é a minha.

Se Pessoa | Soares fosse  assim, teria chamado muito mais a atenção, enquanto viveu. Não foi o caso. Todos o sabemos.


Falei-lhe da revista* e timidamente observou que, não tendo para onde ir nem que fazer, nem amigos que visitasse, nem interesse em ler livros, soía gastar as suas noites, no seu quarto alugado, escrevendo também.


Bernardo Soares, Livro do Desassossego, Prefácio



Suponho que a educação recebida na infância, de raiz britânica, terá pesado ao longo da sua vida.


Os seus escritos, sobretudo o Livro do Desassossego, são sim de muita inquietação. Mas toda ela de índole bem intimista.

Era um homem que aparentava trinta anos, magro, mais alto que baixo, curvado exageradamente quando sentado, mas menos quando de pé, vestido com um certo desleixo não inteiramente desleixado. Na face pálida e sem interesse de feições um ar de sofrimento não acrescentava interesse, e era difícil definir que espécie de sofrimento esse ar indicava - parecia indicar vários, privações, angústias, e aquele sofrimento que nasce da indiferença que provém de ter sofrido muito.

Bernardo Soares, Livro do Desassossego, Prefácio 


E depois o lado feminino de Pessoa mal se pressente na sua obra! Muito menos a presença feminina! E ela sobressai nesta adaptação! Demasiado! Uma fuga  um pouco exagerada?! 


Não fui a única a anotar este aspecto. Outras pessoas, à saída, comentavam esse lado-presença  feminina tão marcado na peça.


Bom, a liberdade da arte permite diferentes leituras, eu sei! Mas esta terá ido  um pouco para além da expressão do poeta!


Na própria arte em
que nos conhecemos,
nos desconhecemos.


in Livro do Desassossego

A fadista Ana Moura participou na peça através dos vídeos que foram projectados, cantando alguns textos de Pessoa, numa tonalidade tímbrica linda!


To break up the spoken text I’ve set some poems by Pessoa for the vocalist Ana Moura, who sings them on the video where she appears as the female double of the bookkeeper, the enigmatic herdswoman with the ox.


Michel van der Aa  




No final da peça, Ana Moura subiu com mérito ao palco, juntando-se a João Reis, num gesto que me agradou no actor.

"É um espectáculo com uma visão muito curiosa e particular sobre o Livro do Desassossego", afirmou João Reis, notando que se trata de "um olhar distanciado de um holandês" sobre a obra de Fernando Pessoa.

www.ionline.pt

Não posso estar mais de acordo. No entanto, acabou por resultar numa performance muito arejada, bem contemporânea, quase arrojada. Pessoana, apesar das liberdades apontadas!


The Book of Disquiet  tem sido muito aclamado pelo público e pela crítica, depois da sua premiere em Linz, Capital da Cultura 2009. A Áustria é país-tema na programação 2010 da Casa da Música.


A new version of the music theatre work The Book of Disquiet with actor João Reis and Remix Ensemble will be premiered on 9 February 2010 in Casa da Música in Porto. This alternative version, which uses the original Portuguese texts by Fernando Pessoa, will be fully staged. Additionally, the film inserts have been re-edited around the character portrayed by the renowned Portuguese actor João Reis.

Foi uma versão adaptada ao público português. Afinal Fernando Pessoa é português.
Gostei! Diferente! Mexe com os estereótipos! Isso agrada-me! A obra multimédia apresentou-se como um todo equilibrado, inusitado,  visualmente bonito,  cromatografia elegante, atmosfera musical permanentemente em suspenso dos textos fragmentários de Pessoa.
  
Sem dúvida diferente! A miscigenação resultou num espectáculo invulgar!


Escrevo com uma grande intensidade de expressão; o que sinto nem sei o que é. Sou metade sonâmbulo e a outra parte nada.


Bernardo Soares, Livro do Desassossego




G-S

Fragmentos Culturais

10.02.2010
Copyright © 2010-Fragmentos Culturais Blog, fragmentosculturais.blogspot.com®

Licença Creative Commons

* Revista Orpheu
* A definição será outra. 

11 comments:

Daniel Silva (Lobinho) said...

Belíssima disseertação sobre F. Pessoa e o Livro do Desassossego em particular :)

bjinhos amigos

Lilá(s) said...

Como sempre fabulosos estes postes cheios de cultura e aprendizagem!
Bjs

Avelaneira Florida said...

Fragmentos,

que bom teres podido viver este espectáculo!!!! Que bom!!!!
E a forma intensa que nos transmites o que se passou faz-nos querer ver e participar também!!!!!
Sempre um prazer estar aqui!!!!

E FORÇA!!!! TODA!!!!!
Um resto de boa tarde!!!!
BJS.

heretico said...

..."Pessoa é plural, num constante sobressalto entre o eu e os outros, mas não uma amálgama de seres".

nem mais!

pressinto no teu texto inteligência e elegante sobriedade. mas não entusiasmo...

beijo

Brancamar said...

Curiosamente já tinha visto João Reis interpretar os vários heterónimos de Pessoa e também Bernardo Soares no Teatro Nacional S. João, se não me engano em 2008, na peça "Turismo Infinito".

Daí que agora tenha sido um pouco diferente para esta adaptação a um espectáculo musical, mas da forma como o descreves parece tudo tão belo que gostaria muito de ver, vou ainda tentar, se o espectáculo fôr ficando algum tempo por cá.
Obrigada pela divulgação.
Tudo de bom para ti.
Beijinhos.
Branca

Se7e/5 said...
This comment has been removed by a blog administrator.
Fragmentos Culturais said...

... escrevi sobre o que senti ao assistir a esta estreia na Casa da Música, 'Lobinho'!
Gostei!
Sensibilizada pela tua presença em 'fragmentos'!

Um beijo,

Fragmentos Culturais said...

As tuas palavras sensibilizaram-me, 'lilá(s)! Como sempre!

Mas timidamente escrevo o que sinto sobre as coisas que aprecio!

Um beijo,

Fragmentos Culturais said...

É certo que sempre que posso, fruo de momentos musicais e literários que me agradam! Este juntava os dois!

Costumo estar atenta à agenda digital da Casa da Música. E mal vi este 'Livro do Desassossego' não deixei de pensar em estar presente!
Tinha muita curiosidade, no bom sentido!

Seria uma lástima perder tão singular evento!
A hora era propícia, um final de tarde diferente!
E valeu bem a pena! Como tal, pude descrever o que senti!

É sim, para mim, sempre um prazer ter-te por aqui, em fragmentos'!
Sensibilizada, 'Avelaneira'!

Boa semana!
Um beijo,

Fragmentos Culturais said...

... o entusiasmo, a alegria, são sentimentos que não fruo muito ultimamente, 'Herético'!

Nem sempre se tem tal privilégio...

Um beijo,
Sensibilizada pelo teu olhar atento!

Fragmentos Culturais said...

Não vi, mas ouvi falar dessa peça com João Reis no TNSJ!

No teu caso, terias certamente um prazer diferente se tivesses assistido a este 'Pessoa' num tributo multifacetado!

Gostei bastante, apesar de algumas 'nuances' quase imperceptíveis!

Lamentável só ter uma 'apresentação' eu sei! Espaços diferentes!

Sensibilizada, Branca, pelo fraterno olhar!Tudo de bom, também para ti!

Boa semana!
Um beijo,