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domingo, 7 de março de 2021

Maurice Ravel : um sopro de nostalgia em dia de confinamento


 



Maurice Ravel
credits:  Evening Standard/Getty Images


"The only love affair i have ever had was with music".

Maurice Ravel

Maurice Ravel faria hoje, 7 de Março 146 anos. Nascido em 1875, Ravel é como sabem, um compositor e pianista francês, ligado ao movimento Impressionista. 

Contemporâneo de Claude Debussy, seu predecessor. Ravel frequentou o Conservatoire de Paris. Depois de acabar o curso, Ravel fez seu próprio caminho, encontrando-se como compositor, desenvolvendo um estilo de grande sensibilidade, fortes influências modernistas, barrocas, neoclassiclássicas e, em obras posteriores, influências do jazz. 







Gostava de experimentar formas musicais, como em Boléro (1928). Aí, a repetição toma o lugar do desenvolvimento. Não é de todo a peça que aprecio, mas esta interpretação do Ballet Maurice Béjart é impressionante.

Nos anos 1920s -1930s, foi considerado o maior compositor francês vivo. Ravel é continua a ser considerado um dos mais significativos compositores do século XX. 

Para mim, um compositor especial. Pela sua música, mas também pela sua postura perante a arte. Também tinha extremo bom gosto. Achavs importante apresentar-se bem.






Maurice Ravel
credits: Roger Viollet via Getty Images


Ravel compôs relativamente pouco, comparado com compositores como Debussy, Wagner, Shostakovitch ou Schoenberg. Mas a sua música é de grande 'perfeição'. Requinte, elegância, sensibilidade, o que faz dele, um dos mais amados compositores.

"Small art can, of course, be great art. Was Ravel a great artist? No one denies that he was a great artisan, tailoring his material to his sundry subjects, whether they were exotic evocations of Spain, Greece or Madagascar"

Sanjoy Roy, The Guardian/ Classical Music





Ravel, Gershwin, entre outros
credits: © Hulton-Deutsch Collection/CORBIS/Corbis via Getty Images


É um dos meus favoritos. Pela sua sensibilidade, pela perfeição das sonoridades. E ritmos impensáveis, para época. Continuam a deslumbrar.

Relembrei hoje o Concerto em G Major para piano e orquestra e La Valse. Escrevi sobre esta última em 2012, falando do poema coreografado pelo CNB.

Com nostalgia, passei  a tarde a ouvir La Valse em diferentes interpretações, Leonard Bernstein, ou Claudio Abbato. Mesmo a 2 pianos Martha Argerich/ Nelson Freire.

Com a intenção de homenagear a valsa e Johann Strauss II, Maurice Ravel, compôs o que pretendia ser uma obra romântiva, La Valse, un poème chorégraphique (1919.1920). 

Antes de se ter alistado no exército interrompendo assim a criação musical, Ravel escreveu que pretendia que a peça fosse "uma espécie de apoteose da valsa vienense mesclando-se na minha cabeça com a ideia de turbilhão fantástico do destino».





La Valse 
Maurice Ravel

"Whatever one’s interpretation of La Valse, there is no doubt Ravel masterfully achieves his vision in the music."

Frances Wilson, Interlude

E continuei com Ravel a tarde inteira. Numa busca continuada, encontrei finalmente o Concerto em G Major interpretado pela incomparável Martha Argerich. Uma explosão de sentimentos, Deus meu!

Sobressaiu a nostalgia. Nostalgia de um concerto na Casa da Música. Ao vivo. Quanto tempo! Belíssimos concertos em noites inesqucíveis de boa música. Consagrados compositores, e intérpretes: Música, na sua essência.

Na Sala Suggia ouvi, ao vivo - e ressalto hoje, muito, ao vivo, porque é isso que me falta tanto - o Concerto in G Major pelo pianista António Rosado com a Orquestra da Casa da Música.

Fiquei ouvindo este momento único, interpretado por um símbolo da minha música d'alma. Martha Argerich.

* Ver directamente no YouTube









Introversão e beleza. Silênco quase em tom de prece, ouvi Adagio Assai, o segundo movimento. 

 "One of the most beautiful tunes Ravel ever invented" (...) 

Edward Sackville-West e Desmond Shawe-Taylor, críticos de música

Interpretação/ transposição. Tocar não é só transmitir a partitura, é sentir, viver. E para tal, nada é comparável ao touch de Martha Argerich. Uma ternura sem fim, neste Adagio Assai.

"The composer constructs an object so perfectly honed,” writes pianist Paul Roberts, “that the performer is fearful of damaging it."






Ravel escreveu outras obras que fazem parte da música erudita. Daphnis e Chloe, um bailado composto em 1909, a pedido de Diaghilev para o famoso bailarino Nijinsky. 

Concerto para Piano para a esquerda, Pavane pour une infante défunte, entre as oitenta cinco obras, incluindo algumas incompletas, outras abandonadas, segundo o musicólogo francês Marcel Marnat.

"Ravel became a master orchestrator, carefully studying every musical instrument to determine their possibilities. His famous orchestration of Mussorgsky’s Pictures at an Exhibition, brought Ravel substantial income."

Classic FM

Ravel morreu em 1937 na sua casa Le Belvedère, em Montfort-l’Amaury, hoje Fondation Maurice Ravel. Os jardins mantêm-se intactos, e foram desenhados pelo compositor, incluindo o Japanese Garden.

Bolero, Piano Concerto for the Left Hand, Concerto in G Major e L’enfant et les sortilèges são algumas das peças escritas em Montfort l’Amaury.


"Music I feel must be emotional first and intellectual second."

 Maurice Ravel

G-S

Fragmentos Culturais

07.03.2021
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sábado, 30 de janeiro de 2016

Amrita Sher-Gil, uma visão pessoa ! Exótica & sensorial !






Group of Three Girls, 1935
Amrita Sher-Gil


Google tem tido uma função pedagógica bem singela que me atrai. Os pequenos Doodle que, por vezes, iluminam a página principal do motor de busca.

Despertam para novas personalidades e factos em várias áreas (arte, ciência, literatura, tecnologia). Preenchem, assim, possíveis lacunas do conhecimento. Vasta é a memória dos tempos e dos lugares.

Hoje detive-me encantada no Doodle que celebra o 103º aniversário de Amrita Sher-Gil. A primeira impressão? Beleza. Cores de Gauguin? Pelo olhar de uma pintora que desconhecia. Amrita Sher-Gil.





Google Doodle 103º Aniversário de Amrita Sher-Gil
doodler:  Jennifer Hom

Fixei-me no traço delicado das figuras femininas, a textura original, cores ocre o os verdes pastel, a beleza da tez doirada, a simplicidade elegante do vestuário. Referências fortes a um país que adorava conhecer. A Índia. 

Apressei-me a pesquisar sobre o quadro que deu origem ao Doodle. Publiquei-o no início da postagem.

Amrita Sher-Gil pintora de origem húnguro-indiana morreu muito jovem, aos 28 anos. Marcou, no entanto, definitivamente a história da arte moderna indiana. As suas obras estão presentes na National Gallery of Modern Art, em New Delhi.










Amrita Sher-Gil [1913-1941]

"As a stylistic phenomenon never-before seen in the history of world Art, Amrita Shergil's brief and fiery decade-long painterly oeuvre is truly remarkable."

Amrita Sher-Gil's Centenary

A inimitável e flamboyante* pintora visionária, Amrita Sher-Gil, um ícon da arte indiana, pioneira da Modern Art, única, no seu génio e ancestralidade.

Foi a descoberta maravilhada da jovem e promissora pintora húngaro-indiana, desaparecida prematuramente em 1941, poucos dias antes da inauguração da sua primeira grande exposição individual em Lahore.  A causa a sua morte continua desconhecida. Mas há teorias.



Amrita Sher-Gil
self-Portrait, 1930

Achei delicioso, o auto-retrato, ousado para época, contextualizando-o na cultura que representa. Aponta sem dúvida para o espírito livre de Amrita. A educação europeia? Rebeldia contra a cultura do país?

"The majority of works by Amrita Sher- Gil in the public domain are with the NGMA, which houses over 100 paintings by this meteoric artist. 

Born of a Sikh father from an aristocratic, land owing family, and a Hungarian mother, Amrita Sher-Gil’s life veered between Europe and India. She was blessed with beauty, breeding, charismatic personality and extra ordinary talent as a painter. "

National Gallery of Modern Art, New Delhi




Bride's Toilet, 1937
Amrita Sher-Gil

A citação pertence à Galeria Virtual Amrita Sher-Gil que põe à nossa disposição uma visita virtual. Não muito exuberante. 

O site oficial da Virtual Gallery é muito básico, quase primitivo perante a evolução das tecnologias. Não valoriza a obra lindíssima de Amrita Sher-Gil. Talvez falta de meios?

Felizmente que Google Arts & Culture nos dá a verdadeira dimensão da obra de Sher-Gil expostas na National Gallery of Modern Art, New Delhi. Grande qualidade. E extensa beleza pictórica.




Amrita with her sister

Sher-Gil foi para Paris aos 16 anos. Aí estudou na Ecole Nationale des Beaux-Arts. Profundamente influenciada pelos franceses Paul Cézanne e Paul Gauguin, pintores que muito aprecio, demonstra esse seu interesse em vários dos seus quadros. Apesar, que a vejo mais perto de Gauguin, na sua fase pós-Tahiti.




The Child Bride, 1936
Amritia Sher-Gil

Aliás, as primeiras obras de Amrita Sher-Gil demonstram essa clara influência dos pintores franceses do círculo boémio, que na época, davam a conhecer o seu descontentamento face à 'imitação' da Natureza dos clássicos, especialmente nos mais pequenos detalhes.

Sher-Gil é considerada uma das mais importantes pintoras da Índia do século XX. O seu  legado está em pé de igualdade com os mestres da Bengal Renaissance.

"She is also the 'most expensive' woman painter of India."






Hungarian Gipsy Girl, 1932
Amrita Sher-Gil

Tal como Frida Khalo, com quem partilha uma herança húngara (sua mãe era húngara, Amrita nasceu na Hungria), Sher-Gil era um espírito rebelde e aventureiro. Quebrou barreiras na arte e na vida.

Pela dupla herança ancestral, é também uma pintora de referência na Hungria, estando presente no Magyar Müvészeti Akádemia.

Segundo alguns especialistas, a obra de Amrita Sher-Gil caracteriza-se pela 'violência sensorial'. Não empregaria a palavra 'violência'. Talvez 'luxuriante beleza sensorial'?




Amrita Sher-Gil
Village scene, 1938

Cores fortes, cores que apelam a sensações olfactivo-visuais, texturas densas, odores de especiarias. Profundidade original.

Filosoficamente, transmite-nos um certo desconforto perante a existência. Por outro lado, uma rebeldia feminina contra o sistema de valores hierárquicos da sociedade em que viveu. Índia.

Ah! Aqui está a minha primeira impressão ao ver seu auto-retrato (1930). Foi isso que me passou. Rebeldia.



Amrita Sher-Gil
Indian Express

"Amrita Sher Gill: She's a national treasure both literally and metaphorically, and while many prefer Vivan Sundaram's photo studies of the artist, the lady who is touted as India's first modern artis."

Sem dúvida, uma pintora que nos levará tempo a descobrir, mas que desde o primeiro instante nos alicia com o magnetismo que dela se desprende. 

Ficamos rendidos à sua arte, à singularidade da personalidade, à miscigenação de influências e estilo pessoal que veio a encontrar.

Os seu quadros, preenchem muito do imaginário da nossa sensibilidade estética.




Young Girls, 1932
Amrita Sher-Gil

Nesta tarde fria de Janeiro, o tempo não convida a passeios lá fora. Mas permitiu-me este passeio pela arte. Bem singular!

Estamos em fim-de-semana. Para uns, o cinema, e/ou a leitura. Para outros, a actualização dos blogs. 

Mas, por que não o deambular pela Internet em  busca de novos temas, novos espaços? Diferentes culturas.

Antes de uma ida ao cinema, ao final de tarde, sentei-me aqui para partilhar a descoberta de Amrita, numa visão sempre muito pessoal, mas aberta a outras considerações. Amrita Sher-Gi tocou-me, na sua arte, e na sua vida. Compreendo a sua rebeldia.


G-S

30.01.2016
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