Monday, September 10, 2012

Emmanuel Nunes: um olhar






Centro Cultural e Congressos | CCC
Foto: Joana Pereira

"Após uma viagem longa, após semanas ou meses, quando se chega, (...) estranha-se as cores, estranha-se a espessura do ar, estranha-se que, de repente, toda a gente fale em português. (...) Mas, nos passeios, as pessoas avançam sem reparar em nada, fazem o seu caminho, seguem sem encontrar novidades. (...) os motoristas dos outros carros estão mal-humorados, ignoram completamente o sol de junho, que não é demasiado quente, ignoram a claridade e a temperatura perfeita."

José Luís PeixotoO vagabundo regressa a casa

Eis-me de volta a este espaço que continuo a querer partilhar, teimosamente, embora com menos assiduidade, reconheço. As  férias, essas, foram muito curtas, apesar da larga ausência.

Por vezes é bom o silêncio. Fica atento o olhar, os sons salientam-se, nítidos, os aromas mesclam-se, os livros acompanham-nos mais, os espaços culturais citadinos distanciam-se.

No entanto, o início de Setembro trouxe-nos a notícia da morte de Emmanuel Nunes.


Emmanuel Nunes
crédits: 


"Il utilise de manière virtuose les outils électroniques pour concrétiser une pensée musicale luxuriante, travaillant sur un contrepoint interactif entre partition instrumentale et programmation informatique."

IRCAM, Centre Pompidou

Não vou dizer que o conceituado músico português da música contemporânea internacional fosse acessível a um melómano comum, decerto. A música contemporânea não é fácil de entender. Mesmo para mim, que fui educada musicalmente para a ouvir.

Mas Emmanuel Nunes, compositor, pedagogo e pensador da música portuguesa no último quartel do século XX, é reconhecido por toda a Europa como um dos compositores de referência da sua geração.




Emmanuel Nunes vivia em Paris desde a década dos anos sessenta e aí morreu, segundo fontes ligadas à Casa da Música.

Na sua juventude, o compositor estudou em Portugal com Fernando Lopes Graça, Francine Benoît. E foi Jorge Peixinho que, em 1963, lhe abriu caminho para a primeira das suas viagens aos Cursos de Verão de Darmstadt.

"Em Darmstadt, através das conferências de Pierre Boulez, Henri Pousseur e Karlheinz Stockhausen, entre outros, acompanha, fascinado e envolvido, o debate estético da revolução serial, analisando as obras, absorvendo as metodologias, comparando os sistemas, discutindo os limites da linguagem."

"I learned quite a lot from the courses by Pousseur, Ligeti, and Boulez. At that time Stockhausen did not come to Darmstadt, and among the crowd of composers having a subscription to Darmstadt, two extremes were in: either the so-called sérialisme intégral, or the graphic scores tendency proclaiming their illusion of liberty. Quite often the acoustical result was nearly the same," 

Emmanuel Nunes

Fixou-se em Paris, (anos 60) e passou longos períodos em Colónia, onde teve a oportunidade de seguir regularmente os cursos de "Nova Música" fundados por Karlheinz Stockhausen


"O contacto continuado com a prática de Stockhausen, a análise que o mestre propunha das suas próprias obras e o exemplo paradigmático da sua técnica constituíram, provavelmente, a parte mais determinante da aprendizagem de Emmanuel Nunes, e os fundamentos a partir dos quais iria edificar a sua própria obra."



Emmanuel Nunes


Aparecem então as suas primeiras obras (anos 70): Minnesang para coro a cappella, Ruf, para orquestra e fita magnética, e Nachtmusik I, para conjunto de câmara com electrónica em tempo real ad libitum.

A sonoridade da música de Emmanuel Nunes é muito diversa das sonoridades a que estamos habituados, quando iniciados nos grandes compositores, hoje ditos 'clássicos' e em alguns antecessores contemporâneos. 

Como já referi, tive o privilégio de ser aluna da Professora Hélia Soveral, pedagoga inovadora, e intérprete arrojada, numa época em que pouco se ouvia falar e muito menos tocar música 'contemporânea'. 

Sempre incentivou os seus alunos de piano a abrir o seu conceito de sonoridades eruditas. 

Ainda assim, tendo, por vezes, a recusar algumas composições ou oiço-as com um certo desprazer.

E a música de Emmanuel Nunes não é fácil, logo aos primeiros acordes. É uma música estranha e, aparentemente, disforme.




No entanto, Emmanuel Nunes estabelece uma cadeia de relações entre o seu trabalho e as artes plásticas que permitem desenvolver algumas ideias capazes de lançar um pouco de luz na compreensão da sua genialidade. 

Tentei aceder à entrevista (1991) que faz parte do Centro de Informação e Investigação da Música Portuguesa, mas foi impossível.

Recebeu o Prémio Composição da UNESCO em 1999 e o Prémio Pessoa em 2000.


Emmanuel Nunes
credits:  Charlotte Oswald

Deixa obra vasta que aborda inúmeros géneros. "Do solo instrumental (EinspielungenAura...) ao gigantismo sinfónico (StrettiTif'Ereth...), passando por inúmeras combinações de câmara e de conjunto (Versus I a IIIChessed IWandlungenMusik der Frühe...), pela escrita vocal, solista, a cappella ou coral-instrumental (La DouceVislumbreMachina Mundi), pela ópera (Das Märchen) e pela música electrónica."

Territórios explorados sistematicamente, deixou um contributo inestimável e internacionalmente reconhecido, Testemunham-no, o sucesso das suas admiráveis Lichtungen, compostas no Ircam, em Paris, entre 1988 e 2007."

Emmanuel Nunes aliou à sua vida de compositor, uma actividade pedagógica intensa.

Compositores portugueses de gerações mais recentes tiveram oportunidade de enriquecer a sua experiência musical sob a orientação de Emmanuel Nunes. Músicos como António Pinho Vargas, João Rafael, Nuno Miguel Henriques entre outros.


"Plusieurs de ses œuvres ont fait l'objet d'une commande de la Fondation Gulbenkian, de Radio-France, du ministère français de la Culture, ont été jouées lors d'importants festivals internationaux et retransmises par les grandes Radios européennes."

IRCAM, Centre Pompidou




Emmanuel Nunes
Compositeur portugais, XXe siècle


A Fundação Calouste Gulbenkian acompanhou de perto o percurso criativo de Emmanuel Nunes, ao longo de várias décadas, encomendando mais de um terço da totalidade das suas peças, lista que poderá ser consultada aqui

Fez a apresentação da sua música ao longo das várias Temporadas e Encontros Gulbenkian de Música Contemporânea, promoveu e apoiou a internacionalização da sua obra no panorama europeu.

Nos últimos anos, Emmanuel Nunes manteve uma ligação forte com a Casa da Música, em estreita colaboração com a Remix Ensemble.

Em Setembro 2009, a Remix Ensemble tocou em primeira audição a obra de Emmanuel Nunes "La Douce", baseada numa curta e trágica narrativa de DostoevskyA Gentle Creature.

“Although Nunes is unquestionably the doyen of Portuguese composers, he has not lost the capacity to surprise and even shock,” 

António Jorge Pacheco

Algumas impressões sobre o processo de composição de Nunes podem ser encontradas em duas peças para piano solo, Litanies du fer et de la mer I e II. Datam de 1969 e 1971 respectivamente. Estas obras surgiram numa fase em que o compositor improvisava ao piano por longos períodos.

Ao tentar encontrar uma peça para homenagear o compositor, depois de ler a notícia da sua morte, procurava a que eu melhor sentisse (mais do que compreender arte, é preciso sentir a arte), descobri Litanies du feu et de la mer, tocada pela filha e aluna da Professora Hélia Soveral, a pianista Madalena Soveral, amiga pessoal.

Madalena Soveral está considerada uma das melhores intérpretes de música contemporânea para piano, a nível europeu.




"As I used to say to my students: It is more important for me to know what I do not want, than to know what I want."

Emmanuel Nunes


G-Souto

Fragmentos Culturais

09.09.2012
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Licença Creative Commons

Referências:

Emmanuel Nunes e a Fundação Gulbenkian

Emmanuel Nuness / IRCAMm Centre Pompidou

Emmanuel Nunes interviewed (2009)

8 comments:

Lilá(s) said...

Que bom continuares as tuas excelentes partilhas. O silêncio por vezes sabe bem, se não for demasiado...
BJs

vitor cunha said...

Confesso a minha falta de sensibilidade para apreciar música contemporânea! Não gosto, não sinto e consequentemente não ouço.Reconheço no entanto que a sua ligação ao nosso tempo traduz em pleno a vida real, sobretudo pela sua dissonância e pela dureza dos seus acordes pouco melódicos. A minha ignorância não me permite apreciar o compositor mas não deixo de homenagear o criador e o artista.
Bom fim de semana.Beijo

. intemporal . said...

.

.

. uma página . mais.do.que reparável . :) . face ao olhar ausente .

.

. um bom.domingo .

.

.

Avelaneira Florida said...

Olá, "Fragmentos"!!!

Sabe bem reencontrar, nos dias que correm, estas páginas para sentir com calma e com gosto...
No meio de todos os afazeres é preciso manter o equilibrio ...e a sanidade mental!!!! E isso só encontramos nas coisas de que gostamos, nas vivências partilhadas.

Não conheço a obra deste compositor mas é bom aprender com estes "pedacinhos" que aqui nos deixas! "Brigados" pela disponibilidade!!!!
As Férias já "foram"...e depois da constipação ...voltamos a todo o vapor à escola!!!!
O desafio continua naqueles que encontramos dentro das salas!!!! Por eles...ainda vale a pena!!!!
Bjh,
M.C.

Fragmentos Culturais said...

Muito obrigada, 'Lilá(s) pela tua mensagem inspiradora :)

Sim, por vezes, sabe bem... mas dou-te razão.

Um lindo fim-de-semana!
Beijo

Fragmentos Culturais said...

Ter uma sensibilidade musical contemporânea, não é fácil, Vítor!
Até eu que fui educada, não sinto alguma da música que se faz.

Mas, se recuarmos no tempo, todos os músicos 'precursores' foram mal entendidos e muitos morreram amargurados.

Emmanuel Nunes teve o privilégio de ser 'entendido' em vida. Tempos diferentes, como bem referes.

Se me perguntares se sinto a sua música...

Bom fim-de-semana!
Um beijo

Fragmentos Culturais said...

É sempre bom ler-te por aqui 'Intemporal'.

Ser-me-ia impossível não falar de Emmanuel Nunes. Uma referência na nossa cultura e na música contemporânea a nível internacional.

Apesar de tardiamente, deixo-te votos de excelente fim-de-semana.
Um beijo

Fragmentos Culturais said...

Sabe ainda melhor ler-te, 'M.C.', amiga de alguns anos.

Tu sabes que sim! Cortar com o stresse, as coisas monótonas, o dia-a-dia, obrigatório e imprescindível, eu sei... mas buscar pausas é a nossa melhor fuga...

E sim, é tão aprazível ir ao encontro das pessoas de quem gostamos, das coisas que nos 'preenchem' e partilhar afectos e amizades.

Ficaste a conhecer um pouco de Emmanuel Nunes nestes 'pedacinhos'... o bastante para buscar ouvir algo do compositor...

Sabes como gosto de partilhar as coisas que aprecio!

Sim, só por eles, os que se encontram nas salas de aulas, vale a pena :)

Um fim-de-semana tranquilo, e muito gostoso!
Um beijo,