Sunday, September 24, 2017

Outono ! Tempo de vulnerabilidade




The Mulberry Tree in Autumn 
Van Gogh, 1889

Outono caiu abrupto sobre a cidade. Sentia-se já nos aromas e numa luminosidade leve, bem pálida.

O sol deu alento aos primeiros dias, mas cedo se esvai. Dia de domingo e com este prenúncio de chuva? Vou estender-me no sofá e ler um livro. 

Só me levantarei pela hora de fazer um chá. Um chá de folhas de menta-ananás colhidas de um dos vasos do meu mini-jardim de aromáticas.

Mas depois volto à leitura. E por que não um zapping? Posso ter a sorte de apanhar um bom filme. 

Aproveito para rever a agenda electrónica da semana. Venho de novo escrever por aqui. Olho da janela o céu cinzento-pardo a preparar-se para um dia triste. Vou em busca de agasalho.

Tempo ideal para ler, escrever, ouvir música. E por falar em ler, Maria Teresa Horta escreveu o seu poema de Outono (2017) que li na sua página oficial. Lindo!

Outono está de volta. Tempo de recolha, seres mais delicados. Tempo da casa, dos objectos que têm um significado especial e que trazem doces lembranças. Tempo de intimidade. Alguma vulnerabilidade.

Equinócio do Outono 

O calor começa a abandonar
os espaços à nossa roda
e a noite no seu lentíssimo vagar


vai ganhando à claridade

enquanto eu, que há horas
erro por entre as árvores
dou conta do seu esgarçar

assim como da pressa dos pequenos
animais tentando escapar das sombras
secretas, dos rios e das folhas caídas

enquanto aqueles que hibernam
retomam a eterna
busca de grutas e das cavernas

- Equinócio do Outono!

- Sei, estremecendo
no crepúsculo, enevoada
e clamo assustada:

- Oh, meu amor!

Gemendo de saudade
e abandono, enquanto
sigo as pegadas da paixão

Mas o meu amante cruel
e vulnerável
persegue a sua rota, indiferente
ao meu apelo de entrega

- Oh, meu amado!

- Leva-me contigo até
à temperança da fusão
do tempo e dos espaços celestes

"noite igual ao dia" - sei

Nos equinócios de outono
o meu amante nada no frio
das quedas de água

e sozinha esgueiro o meu olhar
em busca do exacto instante
em que o sol cruza o equador celeste

gemendo de saudade e abandono

Maria Teresa Horta, Equinócio do Outono, Setembro de 2017

G-S

Fragmentos Culturais

23.09.2017
Copyright © 2017-Fragmentos Culturais Blog, fragmentosculturais.blogspot.com®

6 comments:

AFlores said...

Precisamente há 35 anos, no dia 24 de Setembro, sexta-feira, chovia imenso na cidade do Porto, estava frio e o cinzento bem carregado fazia realçar ainda mais o casaco branco que eu vestia... (já para não falar do vestido da noiva) :))))))))))
Este ano também choveu um pouco, a foz estava cheia de gente a ver o mar...enquanto os intervenientes da data atrás assinalada, passeavam ainda com as tonalidades e cores Verão. :)
Outono... vulnerabilidades e recordações.
Adorei o texto.
Tudo de bom!

G- Souto said...

Antes de mais, muitos Parabéns 'AFlores'... para tua companheira também :-))
E que continuem por muitos anos.
Fico à espera das Bodas de Prata (50?)... acho que sim!

Pois, Setembro foi pessimo. Em contrapartida Outubro tem sido delicioso. Lamento os incêndios que voltaram :-(

Muito obrigada pela tua visita, com direito a comentário. Bom ler os amigos mesmo que virtuais.

Tudo de bom!

Fragmentos Repartidos said...

Boa descrição de um dia de Outono bem passado em casa...que também se aplica ao Inverno! É bom quando se consegue tirar partido desse tipo de momentos porque sabe bem ter a oportunidade de usufruir disso.

Gosto de chás, e também de café, mas nunca provei chá de menta-ananás!

G- Souto said...

Sensibilizada, 'Fragmentos Repartidos' pela apreciação da leitura e pelo atento comentário :-)

É um pouco difícil para mim, esta época sazonal, sobretudo com chuva. Mas tento passar em casa, fruindo de 'coisas' boas, como as enumeradas. Nem sempre fácil, mas é bom sentir (sentimentos/ sensações) tudo o que nos rodeia e o olhar alcança.

Bom, chá de menta-ananás é uma nova experiência das plantas aromáticas que para além do aroma que exala no próprio mini-vaso, sobretudo em tempo mais quente, é muito prazeroso de saborear juntamente com um pouco de gengibre fresco e uma tisana suave.

Também gosto muito de café e um bom chá, mas este feito em casa :-)

Abraço

Fragmentos Repartidos said...

Ainda em relação ao chá :-), suponho que o sabor do ananás deve ser obtido fervendo as cascas do ananás não é?

Por vezes a chuva e o frio do Outono e Inverno acabam por incomodar um pouco e é uma altura do ano mais propicia para um estado de espírito mais sombrio ou nostálgico. Mas penso que acaba por ser necessário para manter um equilíbrio, já que ha alturas em que o calor do verão acaba por aborrecer no sentido de poder também ser um incomodo. Ou seja, acabamos de alguma forma por nunca estarmos satisfeitos. Mas há que ver que ha pessoas que se queixam mais do que outras, o que não é o meu caso.

G- Souto said...

Não, 'Fragmentos Repartidos'. A menta-ananás é uma planta aromática que tem um aroma delicioso e cujas folhas dão um sabor especial à tisana.

O Outono/ Inverno... concordo São estações que cavam um pouco mais a nostalgia e tristeza, mesmo lutando contra. As pessoas têm características diferentes, claramente :-) Eu falei de mim.

Não é bem uma questão de nunca estar satisfeita com nada. É sobretudo um estado de espírito que se aloja nas estações mais tristonhas. Não me queixei. Exprimi um sentimento, tão só :-)

Tudo de bom!