Friday, April 8, 2016

José de Almada-Negreiros faria 123 anos





José de Almada Negreiros. Autoretrato

José de Almada-Negreiros teria feito ontem, dia 7 Abril, 123 anos. José Sobral de Almada-Negreiros nasceu em São Tome e Príncipe em 7 Abril 1893 e morreu em Lisboa a 15 Junho 1970.



Almada Negreiros
créditos: Assírio & Alvim

Almada-Negreiros é uma figura ímpar no panorama cultural português do século XX. Essencialmente autodidacta (não frequentou qualquer escola de ensino artístico), a sua precocidade levou-o a dedicar-se desde muito jovem ao desenho de humor. 


Autoretrato em grupo
Almada Negreiros, 1925

Foi um homem multidiscplinar nas letras e  na arte. Dedicou-se fundamentalmente às artes plásticas, desenho, pintura, mas também à escritaromance, poesia, ensaiodramaturgia. Ocupa um lugar essencial na primeira geração de Modernistas portugueses.




Almada teve aí um papel particularmente activo, com forte contribuição na dinâmica do grupo ligado à Revista Orpheu. A sua acção foi determinante para que a publicação não se restringisse à área das letras. 



Revista Futurista, 1917

Foi, acima de tudo, um percursor da arte moderna nas suas diferentes vertentes. Vanguardista polémico, aguerrido, assumiu um papel preponderante no Futurismo em Portugal.



Fernando Pessoa
Almada-Negreiros, 1954

"Se à introversão de Fernando Pessoa se deve o heroísmo da realização solitária da grande obra que hoje se reconhece, ao ativismo de Almada deve-se a vibração espetacular do «futurismo» português e doutras oportunas intervenções públicas, em que era preciso dar a cara"

Jose Augusto França, A Arte em Portugal no Século XX, 1911-1961



Nome de Guerra, romance
Almada Negreiros, 1925
publicação 1938

Obras marcantes no campo das letras? A Revista Futurista, o romance Nome de Guerra, e a mais polémica de todas, o Manifesto Anti-Dantas.



Manifesto Anti-Dantas 
e por extenso
Almada-Negreiros, 1915

Publicado o segundo número da Revista Orpheu, marco inicial do Modernismo em Portugal. Nele participaram nomes como Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Santa-Rita Pintor e Armando Côrtes-Rodrigues. 

A ousadia  e o arrojo da produção literária e pictórica causou escândalo na burguesia conservadora lisboeta.

Um dos seus maiores opositores foi o escritor Júlio Dantas que criticou ferozmente os vanguardistas. A resposta de Almada-Negreiros foi esta, através do manifesto:

"Basta Pum Basta! Uma geração, que consente deixar-se representar por um Dantas é uma geração que nunca o foi! É um coio d'indigentes d'indignos e de cegos. É uma rêsma de charlatães e de vendidos, e só pode parir abaixo de zero. Abaixo a Geração! Morra o Dantas, Morra! Pim!"

O texto diz da ousadia deste autor poeta, pintor, caricaturista e prosador, contemporâneo de Fernando Pessoa.


K4, O quadrado Azul, novela
Almada-Negreiros, 1917

Refira-se ainda K4, O Quadrado Azul, de resposta à apreensão da Revista Futurista por conter 'Saltimbancos' considerada obscena, à época.

Não se busque em Almada como em Álvaro de Campos, […] qualquer lógica profunda ou vontade de ser coerente na invetiva. É a poética da invetiva que de si mesmo se alimenta, mesmo quando traduz com génio um gesto ou uma atitude com raízes na realidade. É aí que o efeito provocador manifesta a sua força e ao mesmo tempo nos dá a festa modernista por excelência, essa mistura então nova e sempre surpreendente do paradoxo arbitrário, já tão próximo da futura poética surrealista do «non-sens»".

Eduardo Lourenço, Almada ou do Modernismo como provocação, 1994

Aconselho vivamente o documentário biográfico dedicado à figura de José de Almada-Negreiros, artista autodidacta e multidisciplinar, e à sua obra, nas artes plásticas e na literatura Almada & Tudo (RTP Arquivo, 2000).

Não vou alongar-me com informações que estão ao alcance de todos. Quero apenas prestar tributo a um dos maiores inovadores no campo das artes e das letras no Portugal do século XX, na passagem do 123º aniversário.

José de Almada-Negreiros a quem o Museu de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa, dedicou uma exposição Almada no Chiado, 120 Anos do Nascimento do Artista, em 2013.


A Sesta, 1939 (carvão sobre papel)
José de Almada Negreiros , 1893-1970
 MNAC-Museu do Chiado, inv.986

A Sésta

Pierrot escondido por entre o amarello dos gyrassois espreita em cautela o somno d'ella dormindo na sombra da tangerineira. E ella não dorme, espreita tambem de olhos descidos, mentindo o sôno, as vestes brancas do Pierrot gatinhando silencios por entre o amarelo dos gyrassois. E porque Elle se vem chegando perto, Ella mente ainda mais o sôno a mal-resonar. 

Junto d'Ella, não teve mão em si e foi descer-lhe um beijo mudo na negra meia aberta arejando o pé pequenino. Depois os joelhos redondos e lizos, e já se debruçava por sobre os joelhos, a beijar-lhe o ventre descomposto, quando Ella acordou cançada de tanto sôno fingir. (...)

Almada Negreiros, A sésta, 
in Frisos - Revista Orpheu nº1

G-S

08.04-2016
Copyright © 2016-Fragmentos Culturais Blog, fragmentosculturais.blogspot.com®

Referências: Wikipedia


8 comments:

manuela catarino said...

Sei que tenho andado longe...muito longe!!! Mas sempre com vontade de voltar! Vou espreitando de quando em vez, mesmo que não deixe sinal. Tanto é o movimento, a pressa da vida, as urgências e cansaços!
Mas sei que quando aqui volto encontro tudo quanto gosto! Aquilo que também aprendi a gostar e que aqui está genuínamente partilhado!
Obrigada"Fragmentos" pela tua insistente permanência.

O Mestre no seu essencial. Claro, rico de informação.
Ajuda tanto descansar nas paragens em que nos sentimos vivas!!!Obrigada!
Tudo de BOM para ti!!!!
MC

Suzete Brainer said...

Querida,

Adorei esta postagem, não tinha conhecimento da obra literária dele,
e só em relação às artes plasticas.
Decorrente do Poeta Fernando Pessoa que tenho a obra completa e
conheço e releio sempre quando a minha saudade dele bate na porta...rss
O que li, assisti e senti (ri...) com esta postagem maravilhosa
e generosa tua na partilha, sempre grata de passar aqui e
colher uma leitura surpreendente e valiosa!...
Um inspirador (de cinema...) final de semana para ti, viu?...rss
Beijo.

Rafeiro Perfumado said...

Já não diria muita coisa coerente!

AFlores _ said...

Aprendi um pouco mais e, descobri que o meu avô materno nasceu no mesmo dia e mês (tenho que confirmar o ano).
Tudo de bom.

;)

G- Souto said...

Olá Manuela,

Como te compreendo... eu própria me distancio de 'fragmentos', sem querer.

O importante é voltar sempre, mesmo que tempos infinitos se possam passar. Há amizades virtuais que criei aqui que muito prezo e não quero perder. Definitivamente. Por isso, volto.

Todos mudamos nossos ritmos de vida, vem o cansaço, outros interesses, mas o que se construiu, permanece.

Agradeço as tuas palavras amigas e só posso sentir-me feliz por poder partilhar contigo e com os amigos que ainda encontram tempo para visitar estes 'fragmentos culturais'. Apesar de ir rareando, insisto em permanecer...

Para ti um fraterno abraço. Tudo de bom!

G- Souto said...

Boa noite Suzete,

Almada Negreiros foi um homem/artista de múltiplos saberes. Faz parte de um grupo restrito do Modernismo português. Grandes nomes, os nossos!

Aprecio o seu auto-didactismo. E dou-lhe imenso valor. E como Almada tocou tantas áreas da arte e da literatura!
É vasta a sua obra literária que vale acima de tudo pela nova corrente que imprimiu. Daí poder considerar-se que abriu caminho ao Surrealismo em português.

Pessoa era uma outra alma, bem sabes.

Para ser sincera, já não lembro que filme fui ver nesse fim-de-semana. Mas foi certamente algo que gostei :-)

Beijos.

G- Souto said...

Verdade, 'Rafeiro'. Mas olha que Manoel de Oliveira já passava dos 100 e ainda fazia coisas muito coerentes :-)

G- Souto said...

Excelente coincidência, 'aflores' ;-) já confirmaste o ano?

Só posso sentir-me feliz ao saber que algo levaste deste meu canto 'fragmentado' de cultura(s).

Tudo de bom! Sempre!