Monday, February 22, 2016

Umberto Eco : morte do mais letrado dos sonhadores





Umberto Eco (1932 - 2016)
Roberto Serra/Iguana Press, via Getty Images


Un personnage tout à fait fascinant" (...) "C'est un homme avec lequel j'ai gardé un rapport d'admiration totale et de plaisir de vie"

Jean-Jacques Annaud

É amanhã que se realizam as cerimónias fúnebres de Umberto Eco que terão lugar no Castelo Sforzesco, em Milão. A escolha não foi ao acaso. Da janela do seu apartamento, Umberto Eco avistava diaramente o Castello Sforzesco.





Umberto Eco

O monumento abriga um museu que expõe obras de Da Vinci e MichelangeloTalvez por se confrontar com o Castello Sforzesco em cada amanhecer milanês, Eco utilizara as suas catacumbas como elemento inspirador do mais recente livro  publicado (2015) Numero Zero, para situar alguns dos factos ficcionados que apimentam a narrativa sobre um falso jornal.

Numero Zero coloca questões sobre jornalismo e as novas plataformas digitais. Tem como cenário narrativo, a redação de um jornal diário





Umberto Eco
créditos : John Downing/ Hulton Archive

É a despedida de um dos maiores intelectuais europeus, perseguido pelo sucesso do romance 'O Nome da Rosa'. Mas Eco foi muito mais do que o autor desse romance histórico.  Não sei se essa colagem se deveu ao facto da obra ter sido adaptado ao cinema em 1986 por Jean-Jacques Annaud e protagonizado por Sean Connery

Numa certa tradição renascentista, Umberto Eco foi, simultâneamente, tantas coisas! Semiólogo, filósofo, linguista, professor universitário (convidado pelas mais reputadas universidades mundiais - Harvard, Columbia, Toronto, Collège de France - jornalista e escritor. Mantinha o seu lugar de professor na Universidade de Bologna.
A morte de Umberto Eco surpreendeu milhões de pessoas. Tanto, que as primeiras notícias publicadas nas redes sociais foram consideradas como um daqueles boatos falsos (hoax) que frequentemente anunciam a morte de pessoas célebres.

Os media mais sérios não se atreveram a confirmar a notícia até ao momento em que o jornal italiano La Repubblica avançou, citando fonte familiar, que Eco morrera em sua casa, em Milão, às 22:30 horas, sexta -feira, dia 19 Fevereiro.  

"È Morto Umberto lo Scritore Umberto Eco: Ci manqerà i suo sguardo sul el mundo" foi o título que acabou por dar veracidade ao rumor da morte de Eco. Um dos intelectuais europeus mais fascinantes do século XX que influenciou o mundo.

"Umberto Eco è morto. Il mondo perde uno dei suoi più importanti uomini di cultura contemporanei e a tutti noi mancherà il suo sguardo sul mondo."

Claudio Gerino, Republica.it

Fui completamente apanhada de surpresa. Como todos os que o admiravam. Eco é mesmo uma das referências maiores da cultura contemporânea.




Umberto Eco
créditos: Giovanna Silva

Há pessoas que se tornam mitos em vida. E por isso imortais, aos nossos olhos. A morte sempre nos surpreende.

Aconteceu com David Bowie. Aconteceu agora com Umberto Eco. Míticos e imortais que dão a cara até ao momento final, como se tudo estivesse bem. Nos dois casos ninguém diria que passavam já por momentos tão dolorosos.

Muita coisa já se escreveu. E eu, pelo enorme respeito que tenho pela erudição de Umberto Eco, não vou pôr-me aqui a repetir tudo o que ja foi dito e escrito.

Humildemente venero a sua infindável cultura, e fico-me mais pelo silêncio. Respeitoso.

"I believe that what we become depends on what our fathers teach us at odd moments, when they aren't trying to teach us. We are formed by little scraps of wisdom."

Umberto Eco, Foucault's Pendulum

Umberto Eco (na semiótica, análise social, iteratura), Antonio Tabuchi (no estudo e divulgação da obra de Pessoa) e Roland Barthes (na estética da literatura, e na análise do discurso amoroso), são três autores-chave do que penso e sinto. 

Referêcias máximas dos meus estudos literários e das escolhas culturais. Afectos literários. 
Sim, há autores a quem nos ligam fortes afectos, pelo que lemos, pela identificação de ideias, pela admiração do que escrevem.

Deixo apenas algumas obras que admiro. Li e releio em momentos de maior introspecção.





Sobre A Literatura, 2009
Umberto Eco


Sobre a Literatura é uma colectânea para estudiosos, críticos e para todos os que amam a literatura. Fala das funções da literatura, de autores que Eco admirava como Nerval, Joyce e Borges, mas também Aristóteles ou Dante, sobre o desenrolar dos acontecimentos históricos, ou problemas típicos do narrar. Alguns textos são autobiográficos ou até mesmo autocríticos.



Umberto Eco| Gusi Bejer

Por sabedoria mais do que pela idade, Umberto Eco ficou-se pelos livros, quer ensaios que enunciou abundantemente enquanto académico, quer romances que, segundo ele, começou a escrever quando já tinha feito quase tudo. Ou ainda, e sempre numa versão do próprio Eco 'porque quando não se pode teorizar deve narrar-se.'

"Não escrevo nenhuma espécie de autobiografia mas os romances são a minha autobiografia, há uma diferença.”


Umberto Eco nasceu a 05 de janeiro de 1932 em Alessandria, no noroeste de Itália, na região de Piemonte. Em 1988 fundou o Departamento de Comunicação da Universidade de San Marino. 

Foi Eco que escreveu a propósito do livro impresso:

"To read a paper book is another experience: you can do it on a ship, on the branch of a tree, on your bed, even if there is a blackout."

Umberto Eco




O Nome da Rosa
Umberto Eco
Difel


Umberto Eco publicou o seu primeiro livro ficção "O Nome da Rosa", 1980, que lhe valeu o Premio Strega, em 1981. Livro, que foi traduzido em mais de trinta línguas, e adaptado ao cinema em 1986.


O Pêndulo de Foucault
Umberto Eco
Difel

Em O Pêndulo de Foucault, Eco mistura romance histórico, aventura e mistério. O resultado é um inquietante relato que nos faz pensar: Poderemos ser todos vítimas de uma enorme conspiração de proporções cósmicas? 

Aliás há uma interessante entrevista sobre este livro, dada por Umberto Eco. O próprio artigo da Republica.it tem vários videos que aconselho a quem aprecia ouvir Umberto Eco


A Misteriosa Chama da Rainha Loana, 2005
Umberto Eco
Difel

A Misteriosa Chama da Rainha Loana que tem a particularidade de ser ilustrado, é um fascinante, divertido, nostálgico e e profundamente emocionante romance, do incomparável Umberto Eco. Neste livro, Eco coloca-nos na pele de Yambo, um sexagenário alfarrabista de Milão que sofre um AVC e que, apesar de escapar à morte, não evita perder a memória – ou pelo menos parte dela. E com ela percorre a vasta cultura que conhecemos em Eco. Eu adorei!  

Sucederam-se 'Um Dia Antes', 'Baudolino, ' O Cemitério de Praga'. 

Eco escreveu inúmeros textos sobre semiótica, assunto no qual era um especialista, além de estética medieval, linguística e filosófica.

Entre os seus notáveis trabalhos, estão "História da Beleza" (2004) e "História do Feio" (2007) 

Eco recebeu o mais alto prémio literário italano, o Premio Strega, foi nomeado Chevalier de la Légion d’Honneur pelo governo francês, e era membro honorário de American Academy of Arts and Letters.

No entanto, deixou sempre os Imortais desconfortáveis com a sua celebridade pop culture. Eco não via qualquer contradição neste estatuto duplo :

“I think of myself as a serious professor who, during the weekend, writes novels,” 





Também afirmava que a literatura universal era sempre repetição, e que já Homero repetira a tradição oral, milenar, anterior a ele. 

'Se os textos são máquinas preguiçosas que precisam da colaboração do leitor, então este, quando passa a escritor, reescreve essa mesma obra que o influenciou'. 




Histórias das Terras e dos Lugares Lendários, 2015

Umberto Eco

Tinha publicado recentemente Histórias das Terras e dos Lugares Lendários. Umviagem ilustrada pelos lugares lendários da literatura. Dos poetas da antiguidade aos escritores contemporâneos de ficção científica, os contadores de histórias de todas as épocas inventaram lugares míticos e imaginários, levando-nos a projectar neles sonhos, esperanças e receios.  Livro que ando a ler.

“Books are not made to be believed, but to be subjected to inquiry. When we consider a book, we mustn't ask ourselves what it says but what it means...”
 
Umberto EcoThe Name of the Rose


Sabe-se agora que um novo livro que estava preparado para sair em Maio, será agora 
publicado postumamente esta semana, 26 Fevereiro 2016: Pape Satan Aleppe. Com o subtítulo "crónicas de uma sociedade líquida". A expressão 'líquida' caracteriza confusão dos tempos que vivemos.

"Foi um homem universal, pelo fulgor do seu conhecimento e pela capacidade de disseminar esse conhecimento e o interesse pelas coisas, pela História e pela vida."


What is life if not the shadow of a fleeting dream?"

Umberto Eco, Baudolino


G-S

Fragmentos Culturais

22.02.2016
Copyright © 2016-Fragmentos Culturais Blog, fragmentosculturais.blogspot.com®

8 comments:

Rafeiro Perfumado said...

Deste excelente autor li dois livros, o Pêndulo de Foucault (que acehi uma seca) e O Nome da Rosa, que estilhaçou os restos da minha religião católica. Aquela frase "se o homem não tiver medo do Diabo não existirá necessidade de Deus" foi como um despertar para mim, nunca mais fui o mesmo.

heretico said...

devo muitas da minhas melhores horas de leitura a esse grande senhor da letras!
mas porque da sua extensa bibliografia não referes o "Número Zero"? tão actual e fecunda essa "sátira" ....amável (como eram todos os seus gestos)

beijo

AFlores _ said...

Nunca estamos 'preparados' para esta realidade que é a morte.
Ficam para sempre os sonhadores...

Suzete Brainer said...

Grande Mestre na arte literária, uma leitura indispensável!...
Aguardar este novo livro para mergulhar na viagem das letras
deste Mestre!...
Lamentável a sua morte, sempre fica uma lacuna com o ponto final
da morte na vida de um autor, uma sensação triste de não poder usufruir mais
da criatividade literária e ficamos com que já conhecemos, mas a releitura
sempre vale a pena também.
Beijo, querida!

G- Souto said...

Duas obras grandes da vida literária de Eco. Acredito que 'Em Nome da Rosa' tenha mexido com tuas (ainda que poucas) convicções religiosas, 'Rafeiro Perfumado'. Foi escrito para tal! Para nos fazer estremecer.

Sem dúvida, se perdeu um dos maiores nomes das letras contemporâneas. E logo Umberto Eco que continuava tão activo. No pensamento da actualidade. E na estética da literatura.

Abraço,

G- Souto said...

Também eu... 'Herético'. Tantos livros, tão bons momentos de leitura... e de cultura.

Vastíssima cultura tinha Umberto Eco. Um verdadeiro renascentista.

Leste apressadamente meu post (rss). 'Número Zero' faz parte do que escrevi.
Sim, apesar de frontal, nas suas opiniões e análises da actualidade, Eco era sempre amável. Ser humano inteiro.

beijo

G- Souto said...

Sem dúvida, AFlores! Ficam mesmo, para sempre!

Nunca se consegue estar preparado para a morte, suponho...

Tudo de bom!

G- Souto said...

E logo Umberto Eco que continuava intensamente criativo, quer na vertente litéraria, quer na vertente da análise da actualidade.

Fica sim, uma sensação de grande tristeza na perda de autores 'grandes' como Eco :-(

Felizmente, como afirmas, ficam-nos seus livros para o manter presente nas nossas vidas e na viagem literária da leitura.

Beijo, querida Suzete!