Sunday, July 21, 2013

Michael Nyman e Selah Sue: Casa da Música





Perguntar-se-ão por que razão escrevo sobre concertos tão dispares? Para mim só na forma, não no conteúdo. Boa música é boa música independentemente dos estilos. Dois concertos que faziam parte do meu imaginário, mal os vi anunciados.

Um excelente regresso à Casa da Música. Nada que me impedisse. Tudo para me atraír. Sim porque música é paixão, sintonias, afectos. E estes dois músicos despertam em mim a vontade de fruir ao vivo de boa música, daquela música que nos eleva das esferas do quotidiano.




Selah Sue

Michael Nyman e Selah Sue fazem parte do meu universo estético-musical. Foi o mês passado, em Junho.  Eu sei! Já lá vai algum tempo mas que posso dizer? Nem sempre nos entregamos ao acto de escrever. 

Sofro desse mal há algum tempo. Hábito que começa a instalar-se mais do que desejaria e que tento combater. Estados de alma que vêm e nem sempre se afastam ao ritmo que gostariamos. Quem sabe se compreenderão?

Falemos então da música. Duas noites especiais, num curto espaço de tempo. Uma semana. Michael Nyman, o célebre e conceituado compositor e pianista britânico - quem não viu o filme O Piano -  a solo.  E Selah Sue, a jovem, bonita e talentosa cantautora pop  de origem belga (Flandres) e a sua banda.





Michael Nyman | CCB
foto: David Sineiro

Nyman e “Solo and Cine Opera”, tema da sua tournée. Foi no dia 26 Junho. Sala Suggia não esgotada.

Em palco, apenas Nyman. E o piano. Entrou depois de as luzes se apagarem, no final de um curto vídeo. Discretamente. Assim permaneceu ao longo de todo o concerto. Silencioso nas palavras, quase inexpressivo. Apenas o som do piano. E algumas imagens de vídeos captados pelo compositor ao longo das suas viagens.

'No Bull'. Imagens de uma tourada à espanhola, sangue, violência. Detestei. Admirei de novo a sala. A música que se ouvia transmitia o oposto da violência. Melhor assim. 

Michael Nyman entrou na penumbra depois de 'No Bull' e sentou-se ao piano, na discreta postura escolhida para todo o concerto. O nosso olhar concentrou-se no perfil recortado pelo spot de luz difusa, dando um ar ainda mais distante. E assim continuou até final. 



Michael Nyman | Casa da Música
foto: Ana Limão

As sonoridades do piano captavam a nossa total atenção. Mais do que as imagens urbanas. Sobressaiu o tema da velhice, constante, ao longo do concerto. 'Berlin Lobbysts', 'Slow Walkers'. Uma alusão à caminhada que todos teremos de fazer: a velhice.

Muito diferente de Philip Glass (2011) que, apesar da mais velho, se mostrou aberto, sensível, receptivo, mais virado para o lado positivo da vida. Influências esprituais de Ravir Shankar?

Nyman tocou seguindo as partituras que ia amontoando no chão do palco, em gesto rápido. E lá ficaram.




Ouvimos temas de algumas das suas bandas sonoras cinematográficas. 'O Piano’ não poderia faltar. Uma das mais belas homenagens.

'The Morrow', 'Becoming Jerom', 'The Departure' são outros temas escolhidos por Nyman para nos levar até ao mundo que valoriza: a beleza e a juventude eterna, sonho perseguido por tantos.

Sem vídeo, ouvimos ainda temas dos filmes 'The Diary of Anne Franck' (1995), 'Why'. A guerra, o sofrimento? 'The End of the Affair' (1999) com o tema 'Diary of Love', sensível tema ilustrado.

E continuámos pela música que nos levou ao imaginário, em contraponto com as imagens reveladoras do lado real da vida.

Mensagem de um concerto sem palavras? A vida é dura, envelhece-se, sofre-se. Em contraponto, a música. A dicotomia ao longo do concerto. Imagens que nos despertam, perturbam, emocionam, a música que nos alivia, envolve, liberta. No final, o silêncio absoluto no agradecimento. Um concerto sem alma. Mas musicalmente perfeito.





Selah Sue | casa da Música
foto: Anaïs F. Afonso

Na antítese, luminosa, alegre, terna, surge Selah Sue no palco da Casa da Música uns dias depois, 3 Julho. Sala Suggia completa com coro aberto. 

Começa em tom acústico, initmistaAlways Home, uma voz doce à mistura com timbres fortes mesclados de melancolia - lembra Amy Winehouse, por vezes -  e de repente salta para uma alegria contagiante, solicitando ao público que se levantasse. Nada fácil, na Casa da Música. Mas a sala levantou-se. E dançou, trauteou, marcou o ritmo. Só assisti a algo semelhante com Peter Murphy (2009).



Selah Sue | Casa da Música
foto: fernando Veludo(?)
Radiosa e feliz é acompanhada por toda a sala, On the Run, apoiada pela banda já em palco. Canta, dança, movimenta-se em gestos soltos. Jazz, rap, soul, funk? Tudo à mistura. Adorável e comunicativa, simples, com uma vontade imensa de se entregar.

Peace of Mind (alguns gritos, algum púlbico muito jovem, presença salutar) e Raggamuffin, um dos hits maiores de Sue, numa relação completamente bidireccional entre público e músicos. 'Mummy' e 'Break' em momentos mais interiorizados, a solo, temas em que a angústia se sente mais presente.

Drscobri-a na Internet há mais de um ano. A cantora foi eleita artista revelação pela Rolling Stone (2012) e vencedora do European Border Breakers Award (2011).





Um contraste tão acentuado entre Nyman e Sue só me poderia saber bem! E foi muito salutar! Divino. Despertou energias. Depurativo de algumas nuvens mais pardacentas que me têm cercado.

Sai, mais solta, feliz pela hora e meia da voz e presença da encantadora Selah Sue. Um concerto com alma. Inteira.

G-S

Fragmentos Culturais
21.07.2013
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2 comments:

vitor cunha said...




Ouvi alguém opinar que na música, não havia nada para "inventar"!

Discordo inteiramente! Para mim, enquanto houver homens há criação musical e há muito para "inventar".

Um beijo. Vitor.

Fragmentos Culturais said...

Pois eu continuo a adorar música, clássica, contemporânea, jazz, pop, pop-rock, soul... logo que seja de qualidade. Foi o caso destes dois concertos a que assisti.

Quanto ao poder inventivo, penso que não há muito ou quase nada para inventar nas Artes e Humanidades. Há que 'reinventar.
O mesmo não afirmo das Ciências e Tecnologias. Os campos são vastos neste século XXI

Foi um gosto voltar a ler-te em 'fragmentos', Vítor! Muito obrigada.
Beijo,