Thursday, January 10, 2013

Língua Portuguesa, a nossa!





O debate sobre  o Acordo Ortográfico vai muito acesoConhecem bem a minha posição em relação ao que sempre considerei um atentado à nossa língua. Basta ler Não! (2010) e todos os textos que aqui continuei a escrever segundo "português antigo". Pasme-se! "Português antigo"?

Pois é! Finalmente a razão chegou e do lado contrário.

O governo brasileiro adiou a aplicação obrigatória do novo acordo ortográfico para 1 de Janeiro de 2016. E fê-lo com base numa petição que reuniu 20.000 assinaturas.

Em Portugal, uma igual petição reuniu mais de 130.000 assinaturas, e não teve qualquer eco. 

Vasco Graça Moura, escritor premiado, presidente do Centro Cultural de Belém, e grande lutador nesta causa, desde o início, defendeu a suspensão do AO e considerou a posição portuguesa absolutamente "delirante". 



Vasco Graça Moura

“O Brasil vai rever o acordo, portanto é completamente delirante nós ficarmos para trás. Agora vamos ter três grafias: a brasileira actual, a africana, porque Angola mantém e muito bem as regras ortográficas que estão em vigor e não as do acordo, e a portuguesa, que é uma coisa sem pés nem cabeça.”

Vasco Graça Moura

Em 2 Janeiro 2013 escrevera no DN Cadáver Adiado e ontem, dia 9 Janeiro UrgentementeA esta voz, juntou-se uma das mais conceituadas linguistas portuguesas Maria Helena Buescu que no Público escreveu "Nem Gregos nem Troianos: assim assim" (08.01.2013) que poderá ser lido aqui.

Em Junho 2012, a escritora Teolinda Gersão, já por diversas vezes citada neste blogue, escrevera a divulgada 'redacção' em tom de humor mas muito acertiva "Declaração de Amor à Língua Portuguesa" a ler aqui.


Teolinda Gersão

"A professora também anda aflita. Pelo vistos no ano passado ensinou coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado. Mas quem faz as gramáticas pode dizer ou desdizer o que quiser, quem chumba nos exames somos nós. É uma chatice.

(...)

Nascemos curiosos e inteligentes, mas conseguem pôr-nos a detestar ler, detestar livros, detestar tudo. As redacções também são sempre sobre temas chatos, com um certo formato e um número certo de palavras. Só agora é que estou a escrever o que me apetece, porque já sei que de qualquer maneira vou ter zero."


Teolinda Gersão



Em Setembro 2012 o PEN Internacional condenara por unanimidade o AO. E hoje dia 9 Janeiro, a Sociedade Portuguesa de Autores (só agora?) divulga o comunicado "A SPA não adopta o novo acordo ortográfico perante as posições do Brasil e de Angola sobre a matéria" a ler aqui.

"O facto de não terem sido tomadas em consideração opiniões e contributos que poderiam ter aberto caminho para outro tipo de consenso, prejudicou seriamente todo este processo, e deixa Portugal numa posição particularmente embaraçosa, sobretudo se confrontada com as posições do Brasil e de Angola."

SPA

Então quem nos dá lições é mesmo Angola que assumiu publicamente uma posição contra a entrada em vigor do AO. Angola e Moçambique mantiveram "o statu quo e a norma ortográfica vigente", isto é sem AO. 

E agora! Como se sentirão os professores de Português que tanto lutaram para contrariar este absurdo? E que se viram constrangidos, mesmo não o usando, a aplicar as novas regras nas suas aulas e a transmiti-las aos alunos?

E que dizer dos alunos apanhados neste 'disparate todo', como este 'jovem da redacção', obrigados a aprender a nova grafia e a denominar a grafia que aprenderam até ao ano lectivo anterior "português antigo"? 

E os pais? Os pais que foram incentivados a comprar novos dicionários de Língua Portuguesa "com Acordo Ortográfico", e novos manuais escolares?





"Sim, porque a orthographia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-m'a do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha."

Fernando Pessoa 
(sobre texto Padre António Vieira)


Não poderia estar mais de acordo! Absolutamente delirante! 

G-S

Fragmentos Culturais

10.01.2013
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16 comments:

João Roque said...

Eu continuo a escrever na minha lingua de sempre, apenas aderi ao AO nas pequenas coisas que me parecem muito lógicas, como a supressão de alguns acentos, as questões dos traços nalgumas palavras compostas e pouco mais.

Mário Pereira said...

Estas questões não podem ser assim, cada um a escrever como acha melhor. Tem que haver regras e estas têm que ser claras e lógicas.
A questão é que o (des)acordo ortográfico não surgiu como consequência de uma necessidade sentida pelas pessoas de modernizarem a língua, mas sim por uma suposta ambição de tornar o português uma das línguas da ONU e tal acarretar a necessidade de uniformização dos textos.
Resumindo: fomos mais uma vez a reboque dos brasileiros e, mais uma vez, fizemos figura de ursos, porque eles voltaram a virar o bico ao prego, como já tinham feito com o acordo de 1945. A nossa língua só deve sofrer alterações ao nível da escrita de os portugueses sentirem essa necessidade.Quanto aos outros falantes dela, que façam o que entenderem. A uniformização é impossível e estúpida. A eliminação das consoantes mudas não faz sentido (olha se os ingleses e os franceses se lembrassem de fazer o mesmo!), porque não só não facilita, como complica. Abaixo o (des)acordo! Este e qualquer outro! A única coisa que se deve fazer em relação à Língua Portuguesa é ensinar as crianças (e tantos e tantos adultos!) a escrevê-la sem dar erros. Especialmente na comunicação social.

heretico said...

incomoda-me imposição lingua por decreto.

excelente texto

beijo

manuela catarino said...

Continuarei a escrever na língua que aprendi a conhecer através dos grandes escritores.

Boa semana!!!!!
MC

Nilson Barcelli said...

Há muitas coisas sem pés nem cabeça neste país.
O AO é mais uma delas.
Mas das que deixará mais marcas a longo prazo, pois, a ser aplicado, vai afectar negativamente quase toda a gente, pois existe o risco de se pensar que se pode escrever de qualquer maneira (vidé linguagens específicas como as dos sms da gente jovem...).
Magnífico post, muito oportuno.
Um beijo, querida amiga.

aflores said...

Palavras para quê? São os "artistas" da nossa cultura e as suas modernices.
"Língua Portuguesa, a nossa!"

Sempre.

Tudo de bom.

Daniel C.da Silva (Lobinho) said...

OLá FC :)

A foto foi tirada de avião,e tiro sempre tantas até encontrar a que mais me transmite o que sinto no momento, que pode, simplesmente, ser uma sensação de estética ou beleza, nada mais, mas que ali foi mais de liberdade e simultânea finitude.

Sobre o teu post... a língua portuguesa, ou melhor, a correcção escrita e falada de cada língua, é algo que sempre, mas mesmo sempre me causou imensa importância, ao ponto de quase avaliar as pessoas por aí, o que sendo manifestamente um erro, não deixa de relevar noutras valências... Todavia, sobre o AO, comecei com a posição inicial (e inalterável) de Vasco Graça Moura, embora tivesse vindo a admitir razões na revisão. Continuo desde sempre a escrever sem as novas normas, não tenho a mínima pressa em aplicar as supostas novas regras agora tributárias de nova revisão, mas concedo que a língua é dinâmica e que não deixa de fazer sentido o desaparecimento das consoantes mudas, da mesma maneira que o f há muito substituíu o ph... Mas como já alguém aqui disse, não faz sentido nenhum usarmos o que queremos/gostamos a la carte! Isso é trafulhice e arrogância, e embora tenhamos a dupla grafia até 2015, certo é que não tenho qualquer pressa em usar a nova... venha ela como vier...

Um beijo

Silenciosamente ouvindo... said...

Um gosto ter chegado ao seu blogue.
Eu também não aderi ao acordo.
Vai ver que acaba por ficar sem
efeito e muito dinheiro gasto
inutilmente.
Boltarei sempre que possa.
Saudações
Irene Alves

Fragmentos Culturais said...

Estou talvez numa posição diferente da maioria dos amigos e bloggers que comentaram este post sobre o AO, pela formação académica (Linguística). Isto é, estudei a fundo a origem e evolução do Português, como língua.

E penso tantas vezes naquela poeta que foi/é Natália Correia, defensora acérrima da Língua 'Mátria'.

Assim, João, eu não conseguiria aderir a tal 'desacordo'.

E tu, pelo que leio, também não aderes muito.

Fragmentos Culturais said...

Estou de acordo que têm de haver regras, Mário Pereira. E elas existiam, eram claras e seguiam a lógica da origem da Língua Portuguesa, e da sua evolução.

Sim, porque as línguas evoluem. E muito bem. Mas não se afastam das suas raízes.

Victor Hugo escrevia no séc. XIX 'Les langues sont comme la mer, elles oscillent sans cesse.' no Prefácio 'Cromwell', um manifesto fundador do teatro, mas também um manifesto sobre a língua francesa.

Eu sou a favor da evolução/modernização, claro! Porque O Português é uma língua viva, em contraste com as 'denominadas' línguas mortas.

Mas essa evolução passa mais pelo enriquecimento do léxico em geral e não pela alteração da origem semântica e/ou morfológica das palavras.

Não concebo aceitar a subjugugação da nossa língua, a padrões ditados por outros países de expressão portuguesa. Então a Lusofonia? É um conceito abstracto?

Uma coisa é o enriquecimento e a renovação do léxico. Muito saudável, aliás.

E o Brasil tem, efectivamente, um léxico muito mais rico do que o nosso. Não me custa nada aceitar isso. E até a utilizar alguns vocábulos. Mas isso entra perfeitamente no capítulo da 'renovação do léxico'.

A sua análise está correcta em muitos aspectos. Embora eu não lhe chame 'modernização'.

Foi mesmo uma questão política! Querer entrar nos grandes organismos mundiais onde o Português do Brasil chegou mais rápido.

Aliás, se se der ao trabalho de ler textos traduzidos em Português, nesses organismos, estão sempre em Português do Brasil.

O mesmo se passa nos sítios web internacionais para aprendizagem de línguas.

Mas foi também uma questão editorial. As editoras brasileiras queriam escoar as edições ((muito mais vastas) para Portugal.
E as editoras portuguesas não conseguiam entrar no mercado brasileiro.

Estamos de acordo! A uniformização será uma utopia mal resolvida. Está a tentar ser feita em sentido inverso.

Não vi nem vejo a França ou o Reino Unido preocuparem-se com tal.
A francofonia, existe, a anglofonia existe, mas prevalece a identidade linguística de cada país que deu origem. Não a dos países que têm uma língua comum, com as suas espeficidades. E ninguém, nem de um lado, nem do outro, tentou impor o que quer que fosse.

Quanto às escolas, é deplorável! A meio de ciclo de estudos, 'obrigar' os alunos a por de lado o Português 'antigo' (que escreveram até ao ano lectivo anterior), e a reaprender a sua língua materna, com uma série de regras desconexas com a verdadeira origem da Língua.

Também na comunicação social há muito a fazer, sim! No campo da escrita propriamente dito, mas também no campo da composição dos textos redigidos.

Foi um prazer ler a sua participação nesta troca de ideias. Muito obrigada.

Fragmentos Culturais said...

Já somos dois, 'Herético'!

Mas não há decreto que cubra tal desvario.

Beijo,

Fragmentos Culturais said...

Claro, 'MC' ! Outra coisa não seria de esperar da tua parte.
E da minha também :-)

Boa semana!

Fragmentos Culturais said...

Tenho que concordar, Nilson. Quanta coisa 'sem pés nem cabeça neste país' !

Infelizmente, o AO já está a ser aplicado com carácter obrigatório nos organismos públicos (excepto no CCB, desde que Vasco Graça Moura passou a presidir), e nas escolas. O que é grave :-(

Agora está uma Comissão a estudar o assunto. Bom seria que se tivesse estudado antes de o aplicar, isto é, tal AO nunca deveria ter existido e muito menos aplicado à pressa.

Quanto ao teu receio, no que concerne as linguagens especiais, e os registos de língua (sms, por exemplo), 'como e quando devem ser utilizadas', sempre foi considerado, e ensina-se nas escolas, suponho eu!

Sabes que sou profunda defensora do bom uso da Língua Portuguesa.
E esta situação que passou a ser caricata, não a poderia deixar passar.

Um beijo,

Fragmentos Culturais said...

... tens razão, 'aflores' !
"Língua Portuguesa, a nossa!" Sempre.

Tudo de bom!

Fragmentos Culturais said...

O bom uso de qualquer língua, neste caso específico a Língua Portuguesa denota realmente o grau de estudos, ou pelo menos a boa preocupação de cada falante. Todos podemos aprimorar os conhecimentos da língua materna.

Não avalio as pessoas por isso, a não ser quando sou obrigada a fazê-lo...
Fico em polvorosa quando oiço com muita frequência as pessoas a fazer atendimento em lojas, tratando os clientes por 'você' ! Claro que reajo!
Não sei (ou melhor sei) a origem desta grosseria em língua portuguesa. Fico a pensar que há por aí muita gente a precisar de seguir uns cursos de formação profissional.

Como já escrevi mais acima, na resposta a Mário Pereira, não vejo razões para revisão. Aceito sim, e sou mesmo a favor (e citei Victor Hugo), da renovação do léxico, de neologismos (tantos com a era digital) dos estrangeirismos (já o Eça os introduzia nos seus livros), das linguagens técnico-profissionais. Por isso, não aceito a separação da nossa língua das suas raízes. É que o facto do desaparecimento das consoantes e outras questões mais específicas levam ao desvirtuamento da origem etimológica da palavra. O que está em causa não é bem o mesmo do desaparecimento do 'ph', embora como língua românica, não tivesse que ser alterada essa grafia, dado que as outras línguas românicas não fizeram desaparecer o seu 'ph'. O que originou isso, foi quase o mesmo que o actual AO.

Este assunto terá que ser encerrado e levado a bom termo com muito discernimento por parte das entidades que 'agora estão preocupadamente' a estudá-lo.

Um beijo, Daniel!

Fragmentos Culturais said...

Muito obrigada, Irene!
É também um gosto tê-la como leitora de 'fragmentos' !

Sim, partilho da sua opinião. Deverá ser anulado. O dinheiro que se gastou, é como tanta coisa...

Saudações