Thursday, February 18, 2010

Revisitando Tom Waits de Pinho Vargas




António Pinho Vargas
foto: António Pinho Vargas

"A música existe no tempo e consequentemente é uma arte da memória. Desse modo qualquer peça musical propõe à audição um sistema de relações, de retorno de signos, de identificação de elementos."(...)

António Pinho Vargas, Notas sobre Outro fim





... porque hoje me apeteceu revisitar Tom Waits, composição de Pinho Vargas (1987) *


G-S

Fragmentos Culturais

18.02.2010
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* Gravação live Pequeno Auditório CCB, 5 Julho 2008, som e imagem de Central Musical.


Thursday, February 11, 2010

Livro do Desassossego na Casa da Música






“Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem factos, a minha história sem vida. São as minhas confissões, e, se nelas nada digo, é que nada tenho que dizer.” 


Bernardo Soares


Estava muito curiosa! O Livro do Desassossego de Bernardo Soares, o ortónimo de Pessoa que muito leio e admiro, e onde mais me refugio nestes últimos tempos, foi ontem, dia 9 de Fevereiro, apresentado na Casa da Música num espectáculo multimédia com libreto e música do compositor holandês Michel van der Aa.


O compositor explica assim a transformação dos escritos de Pessoa numa peça teatral:


The Book of Disquiet was assembled from loose sheets of paper, found in a box trunk on Pessoa’s death. I had to narrow the texts down through a process of selection in order to create a piece that could exist in ‘real’ time in the theatre. The task wasn’t as hard as I feared because a series of recurring themes emerged, allowing me to group the fragments by subject matter, for instance isolation, love or dreams.

http://duyser.net

A sala apresentava bastante público. Dezanove e trinta não é uma hora muito portuguesa para espectáculos, embora nas principais cidades europeias seja hora nobre.
Cheguei cedo. Gosto de subir tranquilamente aquela escadaria, tomar um café  no buffet do 1º patamar, e alargar o olhar sobre a panorâmica que dali se frui.


Dirigi-me depois para a sala, faltavam 15 minutos para o início da peça. Não me canso de admirar a sala Guillermina Suggia! Espaço privilegiado. Como eu, outras pessoas já ali se encontravam.

Michel van der Aa deslocava-se então, de um para o outro lado, entre o palco e o técnico* de mistura que se encontrava duas filas à minha frente. Notava-se algum nervosismo, coisa não muito comum num holandês, mas que só demonstrou a sua preocupação perante o público português.
Afinal, apresentar Pessoa no seu país de origem, é bem mais complexo!


Fui lendo o programa que me fora fornecido ao entrar na sala...

O Remix Ensemble apresenta um espectáculo cénico baseado no texto incontornável de Fernando Pessoa. Filmado com laivos do universo sonoro português nos bairros de Lisboa que o poeta percorria, o vídeo coabita com as suas palavras na voz do actor João Reis e com a música a que o Remix Ensemble dá forma.


Seguiam-se as biografias do compositor, director musical, actor, enfim todas aquelas informações constantes de um documento do género, mas nos quais a Casa da Música põe um certo cuidado, de rigor, e estética.


Passavam sete minutos quando as portas da sala Suggia se fecharam!

A  primeira impressão cénica foi boa! Original, apelativa, bem construída a nível de espaços. Espaços, que no desenrolar do espectáculo, se foram tornando permeáveis,  o que  fez com que o nosso olhar se debruçasse com interesse e expectativa  nos vários movimentos cénicos, entre músicos, actor, elementos multimédia.

João Reis interpretava Bernardo Soares, 'ajudante de guarda-livros', na cidade de Lisboa, ortónimo de Fernando Pessoa, que escreve uma obra fragmentária.


Do lado esquerdo do palco, o Remix Ensemble executava a peça musical, brilhantemente dirigida por Ed Spanjaard. Ressalto o seu impressionante solo acústico no anel colocado junto da formação musical. Belíssimo!


Por trás e ao lado de João Reis dois anéis onde se projectavam imagens  de vídeo, rigorosamente sincronizadas com a partitura do técnico multimédia.


Atento, minucioso, este misturava a sua própria intervenção de som. A sua partitura incluía mini fotografias dos espaços cénicos do actor, músicos e vídeo. Admirei o cuidadoso gesto de virar cada página, de modo a que não fosse audível o menor ruído. Profissionalismo até  à ponta dos dedos!


João Reis dava também vida a outros heterónimos de Pessoa. Esta multiplicidade de alter-egos foi uma das principais inspirações para o compositor, segundo li.


"I’d read a few of his poems but it was Airan Berg, one of the artistic directors of Linz09, who suggested basing a theatre piece on Pessoa and I was excited to learn that the actor Klaus Maria Brandauer would be interested in such a project. Then I started reading more of Pessoa’s writings and homed in on what I think is his masterpiece, The Book of Disquiet."

Michel van der Aa

João Reis! Não era fácil a interacção da voz do actor com uma formação musical. Exigia uma concentração apurada. Como o actor afirma, uma disponibilidade auditiva atenta.


Senti o seu timbre de voz diferente. Impressão? Mas a acústica da sala é perfeita!
Houve momentos em que o actor teve alguma dificuldade em se sobrepor ao conjunto de músicos do Remix. Talvez mal revista a dimensão da componente voz-música no espaço da sala?!





Nestes textos, Michel van der Aa, atraído pela ideia de juntar os diferentes heterónimos, tentou a representação total do poeta.


Não sei! Para quem leu e conhece uma grande parte da obra de Pessoa (já publicada) sabe que Pessoa é  plural, num constante sobressalto entre o eu e os outros, mas não uma amálgama de seres.

Daí que tenha considerado, alguns excertos declamados de uma forma demasiado agitada.

Tenho para mim que Pessoa, apesar de toda a multiplicidade de sentires, seria uma personagem mais quieta. Poderá ser uma visão muito pessoal, mas é a minha.

Se Pessoa | Soares fosse  assim, teria chamado muito mais a atenção, enquanto viveu. Não foi o caso. Todos o sabemos.


Falei-lhe da revista* e timidamente observou que, não tendo para onde ir nem que fazer, nem amigos que visitasse, nem interesse em ler livros, soía gastar as suas noites, no seu quarto alugado, escrevendo também.


Bernardo Soares, Livro do Desassossego, Prefácio



Suponho que a educação recebida na infância, de raiz britânica, terá pesado ao longo da sua vida.


Os seus escritos, sobretudo o Livro do Desassossego, são sim de muita inquietação. Mas toda ela de índole bem intimista.

Era um homem que aparentava trinta anos, magro, mais alto que baixo, curvado exageradamente quando sentado, mas menos quando de pé, vestido com um certo desleixo não inteiramente desleixado. Na face pálida e sem interesse de feições um ar de sofrimento não acrescentava interesse, e era difícil definir que espécie de sofrimento esse ar indicava - parecia indicar vários, privações, angústias, e aquele sofrimento que nasce da indiferença que provém de ter sofrido muito.

Bernardo Soares, Livro do Desassossego, Prefácio 


E depois o lado feminino de Pessoa mal se pressente na sua obra! Muito menos a presença feminina! E ela sobressai nesta adaptação! Demasiado! Uma fuga  um pouco exagerada?! 


Não fui a única a anotar este aspecto. Outras pessoas, à saída, comentavam esse lado-presença  feminina tão marcado na peça.


Bom, a liberdade da arte permite diferentes leituras, eu sei! Mas esta terá ido  um pouco para além da expressão do poeta!


Na própria arte em
que nos conhecemos,
nos desconhecemos.


in Livro do Desassossego

A fadista Ana Moura participou na peça através dos vídeos que foram projectados, cantando alguns textos de Pessoa, numa tonalidade tímbrica linda!


To break up the spoken text I’ve set some poems by Pessoa for the vocalist Ana Moura, who sings them on the video where she appears as the female double of the bookkeeper, the enigmatic herdswoman with the ox.


Michel van der Aa  




No final da peça, Ana Moura subiu com mérito ao palco, juntando-se a João Reis, num gesto que me agradou no actor.

"É um espectáculo com uma visão muito curiosa e particular sobre o Livro do Desassossego", afirmou João Reis, notando que se trata de "um olhar distanciado de um holandês" sobre a obra de Fernando Pessoa.

www.ionline.pt

Não posso estar mais de acordo. No entanto, acabou por resultar numa performance muito arejada, bem contemporânea, quase arrojada. Pessoana, apesar das liberdades apontadas!


The Book of Disquiet  tem sido muito aclamado pelo público e pela crítica, depois da sua premiere em Linz, Capital da Cultura 2009. A Áustria é país-tema na programação 2010 da Casa da Música.


A new version of the music theatre work The Book of Disquiet with actor João Reis and Remix Ensemble will be premiered on 9 February 2010 in Casa da Música in Porto. This alternative version, which uses the original Portuguese texts by Fernando Pessoa, will be fully staged. Additionally, the film inserts have been re-edited around the character portrayed by the renowned Portuguese actor João Reis.

Foi uma versão adaptada ao público português. Afinal Fernando Pessoa é português.
Gostei! Diferente! Mexe com os estereótipos! Isso agrada-me! A obra multimédia apresentou-se como um todo equilibrado, inusitado,  visualmente bonito,  cromatografia elegante, atmosfera musical permanentemente em suspenso dos textos fragmentários de Pessoa.
  
Sem dúvida diferente! A miscigenação resultou num espectáculo invulgar!


Escrevo com uma grande intensidade de expressão; o que sinto nem sei o que é. Sou metade sonâmbulo e a outra parte nada.


Bernardo Soares, Livro do Desassossego




G-S

Fragmentos Culturais

10.02.2010
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Licença Creative Commons

* Revista Orpheu
* A definição será outra. 

Friday, February 5, 2010

Ano Chopin 2010





Chopin | Bicentenário 
Fotografia © DR

"On peut aimer les Polonais pour cette seule chose: ils ont eu Chopin!"

Léon Tolstoï


Celebra-se em 2010, o 200º aniversário do nascimento de Fryderyk Chopin. Os eventos multiplicam-se um pouco por todo o mundo. Esperam-se assim excelentes concertos e belos espectáculos.



...il faudrait plutôt parler de l’âme polonaise que Chopin a su sauvegarder avec une beauté extraordinaire dans sa musique – comme ont su le faire en littérature Norwid ou encore Mickiewicz. Je pense ici en particulier à une grande signification artistique, historique, intellectuelle... Chopin, non seulement par son oeuvre mais aussi par le fait d’avoir été une personnalité extraordinaire de la plus belle sans doute des époques des belles-lettres, celle du romantisme, est devenu une valeur qui jouit d’un rayonnement exceptionnel.

Waldemar Dąbrowski


Président du Comité des Célébrations CHOPIN 2010

Fryderyk Chopin nasceu a 1 de Março de 1810 na aldeia polaca de Zelazowa Wola, na região de Varsóvia. No entanto, não há a certeza absoluta. Há quem aponte que teria nascido a 22 de Fevereiro.

"Nous n’avons plus aucune possibilité de trancher si Chopin est né le 22 février ou le 1er mars, cela n’a plus d’importance, d’ailleurs un génie a bien le droit de mettre une semaine pour venir au monde..."

Waldemar Dabrowski

Foi considerado um menino prodígio enquanto viveu no seu país. Aos 20 anos, por questões pessoais e políticas, partiu para França (país natal do seu pai) e em Paris fez carreira brilhante como intérprete, professor e compositor, tendo acabado por adoptar a versão francesa do seu nome, Frédéric-François Chopin.

Morreu aos 39 anos, solitariamente, vítima de uma fibrose quística, embora durante muitos anos se tivesse considerado que morrera de tuberculose.



Frédéric Chopin 
retrato Eugène Delacroix, 1838

"Si je voulais montrer à quelqu’un ce qu’est la Pologne, je lui jouerais les mazurkas de Chopin."

Boris Pokrowski

Duzentos anos passados sobre a sua morte, constata-se que os polacos conhecem mal o compositor e a sua obra, segundo resultados de um grupo de investigadores da Universidade de Wroclaw. Pelo que, o presidente do comité para as celebrações afirmou em entrevista que se fará deste evento cultural, um dever de educação cultural nacional:

"Aujourd’hui, nous allons fêter le 200e anniversaire de la naissance de l’homme qui peut servir de modèle de patriote, de l’artiste profondément dévoué à son pays et à sa culture, et dont la plus grande tragédie était d’être à jamais séparé de sa patrie."





Rui Vieira Nery afirmou que Chopin "é um compositor importante na história da música, inovou e fez avançar a música erudita no plano mais complexo e, ao mesmo tempo, produziu uma música eminentemente sedutora, que continua a ter esse impacto, nomeadamente os nocturnos e as valsas"

DN Artes

A adjectivação de 'música sedutora' é interessante, mas Chopin é bem mais profundo. 

Assim o confirmam Alfred Cortot, um dos principais estudiosos e intérpretes de Chopin e tantos outros pianistas de renome que se especializaram na interpretação da sua obra: Martha Argerich, Mario Pollini, Vladimir Horowitz ou Maria João Pires.

As sonatas, as baladas, os estudos, estão entre as obras para piano mais requisitadas! E são literatura obrigatória em exames superiores ou em concursos de Piano pelo seu grau de dificuldade e exigência.




A sua música enfatiza a nuance, a profundidade, uma espécie de rêverie intime como afirmava Cortot.

Chopin inventou ainda novos géneros na literatura para piano, como é o caso das baladas. E introduziu inovações muito significativas em géneros já existentes, nas sonatas, estudos, prelúdios, improvisos e outros. 

A sua música combina um sentido rítmico, saliente-se o rubato, e o uso frequente do cromatismo e do contraponto.



Mas Chopin foi também pintor, escritor, figura admirada nos salões culturais parisienses do séc. XIX. 

"Son influence sur toute la culture à partir de la moitié du XIXe siècle peut être considérée comme un phénomène : sur la musique mais aussi la littérature, les arts plastiques, les arts élitiques et populaires."

Waldemar Dabrowski



Georges Sand, 
retrato de Eugène Delacroix, 1838
(parte do esboço)

Teve uma ligação amorosa e muito atribulada com a escritora Georges Sand, pseudónimo de Aurore Dupin, uma das figuras intelectuais femininas mais importantes da época que escrevia sob psudónimo masculino, tão comum na época pela péssima aceitação que a literatura feita por mulheres tinha na época e que já vinha de tempos imemoriais.

"Não permitais que considerem 'fantasma' os dois grandes pólos do homem, a verdade e a felicidade, quando sonhamos sonhos de felicidade, é certo já a termos conquistado."

Georges Sand, Diário Íntimo

Antígona, Novembro 2004, pág. 153


Ao longo de 2010, prevêem-se mais de 2000 iniciativas por todo o mundo, 1200 das quais na Polónia.

"Nous prévoyons trois points culminants de l’Année Chopin qui seront justement des événements musicaux: tout d’abord, la semaine de l’anniversaire, une série de concerts avec la participation de sommités parmi les pianistes de renommée internationale, dont Martha Argerich, Murray Perahia, Garrick Ohlsson.

Le deuxième point culminant, sera le festival Chopin et son Europe, considéré parmi les événements musicaux les plus importants non seulement en Pologne. En 2010, il s’étalera sur tout le mois d’août et nous espérons réussir à réaliser dans d’autres capitales européennes, une partie des concerts prévus dans le cadre de ce festival.

Et enfin, le Concours Chopin anniversaire, avec un jury phénoménal, et illustré également par les prestations d’éminents pianistes." 



Partitura Chopin

De entre as iniciativas comemorativas mundiais, incluem-se concertos, recitais de música clássica, jazz, blues, rock, além de bailado, exposições, espectáculos de teatro, filmes e desenhos animados.

Impossível destacar um evento, tal a riqueza prevista no sítio web oficial Ano Chopin

Mas gostaria de destacar, por questões de gosto pessoal, a programação da Salle Pleyel

A nível nacional, posso destacar o recital de Maurízio Pollini na Fundação Calouste Gulbenkian, em 20 de Fevereiro.
  
O CCB apresenta uma programação bastante alargada. O "Ano Chopin" abre a 8 de Março, com a orquestra polaca Sinfonia Iuventus, sob a direcção de Tadeusz Wojciechowski, sendo solista o pianista Radoslaw Sobczak, segundo fonte da instituição. 

Em Junho, o "Festival Chopin" da Orquestra Metropolitana de Lisboa vai incluir uma série de concertos com dois solistas reconhecidos: António Rosado e Mário Laginha.

(27.12.09)

A Casa da Música, no Porto, não tem qualquer programa específico de celebrações, disse à Lusa uma porta-voz da instituição.

"Na Casa da Música, todos os anos são anos Chopin", sublinhou a responsável, referindo que no próximo ano são vários os pianistas que incluirão peças do compositor polaco nos seus recitais.




Robert Schumann
litografia de Josef Kriehuber (1839)

http://en.wikipedia.org/

O Ano Chopin vai coincidir com o Ano Schumann, um dos grandes amigos de Chopin

Foi Schumann o primeiro a reconhecer o génio de Chopin.

"Messieurs, chapeaux bas, voici un génie!"

Para Wlademar Dabrowsky esta coincidência pode ser positiva para os países de origem, Polónia e Alemanha, se em lugar de se sublinhar a rivalidade, se priorizar a amizade entre os dois compositores, o que poderá levar à realização de projectos em comum bastante interessantes.

"How hard it is to 'fully' grasp the cosmos of this music! The entire Poland is here: her national drama,her everyday life, her feelings, the cult of beauty in a human being and the humanity, the noble and proud character of the country, her ponderings and songs."
 


Sem pôr em causa, nenhum dos celebrizados intérpretes de Chopin, é Martha Argerich quem abre a janela de meu sentir, com aquele seu jeito arrebatador, sublime, numa sensibilidade que me comove, distanciando-se assim de qualquer outro intérprete deste compositor.

Divina a sua 'leitura' intimista do poeta da música para piano. Eterna intérprete/voz de Chopin.


"No one who loves music can be indifferent towards Chopin. (…) His music contains unfeigned feelings, a dream of the future, and crystal-clear, fervid, exciting ideas."

Dmitri Shostakovich


G-S

Fragmentos Culturais

05.02.2010
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