Saturday, November 1, 2008

Biblioteca Municipal José Cardoso Pires


José Cardoso Pires
fotos.sapo.pt

"...cada livro é uma busca da minha identificação com o País e comigo próprio."


José Cardoso Pires



Biblioteca Municipal José Cardoso Pires

Foi inaugurada a 26 de Outubro de 2008, a Biblioteca Municipal José Cardoso Pires, data em que se assinalou o 10º aniversário da morte do escritor. Fica situada em Vila do Rei, sua terra natal.
Para além dos habituais espaços de leitura para adultos e crianças, audição de música, visionamento de filmes e consulta Internet, a biblioteca dispõe de uma sala que alberga parte do espólio do escritor, natural do Concelho de Vila de Rei, doado pela sua família ao Município.

Cedido pela família de José Cardoso Pires, será disponibilizado para consulta parte do espólio do autor, que inclui obras oferecidas (com dedicatória) por outras personalidades, como Alves Redol, António Lobo Antunes, Eugénio de Andrade, António Alçada Baptista, Mário de Carvalho, Mário Cláudio, Luísa Dacosta ou Jacinto Prado Coelho.

A Biblioteca Municipal José Cardoso Pires contará, assim, com mais de 3000 mil livros, um quadro original de Victor Palla, a máquina de escrever que acompanhou o escritor até quase ao final da sua vida e uma grande quantidade de livros a ele dedicados pela maioria dos escritores portugueses da segunda metade do século XX.

Na ocasião, será também inaugurada uma exposição de peças elaboradas por vários artistas plásticos, que responderam ao desafio de ilustrar algumas das obras do escritor falecido há dez anos. A mostra intitula-se “José Cardoso Pires, Ilustrações da Escrita” e inclui trabalhos de Júlio Pomar e Sá Nogueira, bem como outras obras, como “O Grande Fabulário de Portugal e do Brasil” ou o primeiro número de uma edição especial de quinze exemplares de “Dinossauro Excelentíssimo”, que contém um desenho original de João Abel Manta e um fragmento manuscrito de José Cardoso Pires.

Devo confessar que não é um dos meus escritores favoritos, embora tenha lido muitos dos seus livros. Reconheço o imenso valor da sua obra e a sua independência literária.

Não vou tecer explicações sobre as minhas preferências literárias.
No entanto, a partir do livro De Profundis senti-me mais próxima da sua escrita.






De Profundis - Valsa Lenta

José Cardoso Pires | Publicações Dom Quixote

http://www.dquixote.pt/

De Profundis - Valsa Lenta ocupa efectivamente um lugar à parte na obra do autor. Aí Cardoso Pires narra seu caso limite, um daqueles casos que raramente podem ser contados. O autor sofrera um acidente vascular cerebral que lhe afectara o centro da fala e da escrita com perda total da memória.
João Lobo Antunes, o médico que o assistiu, escreveu no Prefácio: "Não havia dúvida, o José Cardoso Pires sofria de uma afasia fluente grave, ou seja, não era capaz de gerar as palavras e construir as frases que transmitissem as imagens e os pensamentos que algures no seu cérebro iam irrompendo".
Desta 'morte branca' fica por explicar como foi possível regressar de um ponto que se julgava sem retorno. É portanto o auto-retrato de uma experiência-limite que me tocou profundamente.


Lavagante
José Cardoso Pires (Póstumo)

Edições Nelson Matos, 2008

http://www.edicoes-nelsondematos.com


Dez anos, também, depois da da sua morte, foi lançado Lavagante, um texto inédito.

O Lavagante | encontro desabitado foi publicado, pela primeira vez, em 1963, numa versão de três páginas, no nº 11 d'O Tempo e o Modo e intitulava-se, então, O Lavagante e Outros Exemplares. Mencionava-se na revista que se tratava de um capítulo do próximo romance.


Surgida por ocasião da passagem dos dez anos sobre a morte do escritor - 26 de Outubro - a novela (a mais completa das três versões dactilografadas), é anterior a O Delfim (1968). Existem outras, manuscritas como O Lavagante e a Mulher do Próximo.

Conta Ana Cardoso Pires, uma das filhas, que, nas voltas do espólio, deu com a breve narrativa aprisionada num atado. Não era mexida pelo pai há muito, seguramente desde o 25 de Abril. Papel amarelecido, esmaecido, todo por igual. 


Público

Não o li! Folheei-o numa das livrarias por onde passo em finais de tarde, em meu peregrinar literário, tal ritual 'místico' do prazer profundo que desplotam em mim os livros.

Apesar de nele encontrar fragmentos literários de grande sensibilidade, não senti a atracção suficiente para o comprar... não me perguntem por que razão!

Os livros são perfeitos instrumentos de saber e muito prazer! Há que sentir, mal os tocamos, que a química se desencadeia! Não aconteceu.




José Cardoso Pires
Pomar, 1949

"Aos cinquenta anos dei por mim a fumar ao espelho e a perguntar E agora, José. Fumar ao espelho, qualquer José sabe isso, é confrontarmo-nos com o nosso rosto mais quotidiano e mais pensado.
(...)
Aqui tens, José, o homem que te interroga. Que te fuma e te duvida. Que te acredita.

E com esta me despeço, adeus, até outro dia, e que a terra nos seja leve por muitos anos e bons neste lugar e nesta companhia.

Pá, apaga-me essas rugas. Riscam o espelho, não vês?"

Cardoso Pires por Cardoso Pires, Fumar ao Espelho entrev. de Artur Portela, 1ª edição, Publicações D. Quixote, 1991


G-S

Fragmentos literários


02.11.2008

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17 comments:

C Valente said...

Passei e deixo as saudações amigas

Tiago R Cardoso said...

"Os livros são perfeitos instrumentos de saber e muito prazer! Há que sentir, mal os tocamos, que a química se desencadeia!"

Penso que dissestes tudo.

Reconheço que não conheço profundamente a obra, ando em espaços diferentes.

(não faz mal quanto à ausencia no meu espaço, escreves aqui pouco, mas todos os dias por aqui passo para ver e ler novidades.)

Fragmentos Culturais said...

Sensibilizada, 'C Valente'!

Fragmentos Culturais said...

... eu tenho uma relação intensa e intimista com os livros, Tiago!

Foram desde sempre meu prazer maior!
Com eles eu vivo cada instante de pausa como que 'esquecida' do mundo...

Sensibilizada pelas palavras amistosas e presença 'fiel'!

Um beijo

DarkViolet said...

Peregrinas na busca literária, eu peregrino pelas ruas desertas da noite...Nunca li nada sobre ele...
O observar livros é um ritual d embelezamento através da cor, da mistura que eles apresentam...O título entra nesse balanço. Essa atracção cria mantos de descobertas, onde em mim muita das vezes fica somente na observação e por vezes os dedos descaem abrutamente para ler mais umas "notas"... A quimica é algo complicado e nao tao linear como se fosse o agora ou o nunca, na minha óptica de ver

P.S: sim, Adoro a chuva, as gotas de Outono

joshua said...

O melhor dinossauro e mais excelentíssimo da literatura nacional.

C Valente said...

Saudações amigas

joshua said...

A sensibilidade estética é um recurso finito. Parabéns.

joshua said...

.

Fragmentos Culturais said...

Lindíssimo e sensível texto sobre livros me deixaste, Dark_!

Cada um de nós é peregrino de prazeres muito pessoais!

Suponho que vais gostar de ler alguma obra de Cardoso Pires!
Por que não começar pelas 'Histórias de Amor', reedição saída em Outubro :)


'... A quimica é algo complicado e nao tao linear como se fosse o agora ou o nunca, na minha óptica de ver...' - concordo, mas ninguém aqui escreveu que a química' em relação à escolha de livros e outras 'escolhas' era linear!? Nem passa sequer por 'aqui ou nunca' ;)

Sensibilizada pelo teu olhar sensível e argumentativo em 'fragmentos'!

Gosto de poder 'ripostar' em amena conversa digital com meus 'comentadores'!

P.S. A manhã está linda! Nada substitui um imenso e lumninoso manto de céu azul...

Fragmentos Culturais said...

... sem dúvida um dos melhores 'dinossauros' da literatura portuguesa, Joshua!

Sensibilizada pelo olhar em 'fragmentos'!

Linda semana!

Fragmentos Culturais said...

Boa semana, 'C. Valente'!

Fragmentos Culturais said...

... a sensibilida estética será um recurso infinito, sempre que diferentes indivíduos projectarem diferentes sentires!

Sensibilizada pela 'calorosa' presença em 'fragmentos' :)

Å®t Øf £övë said...

Bibliotecas e espaços de leitura nunca são a mais. Há sempre espaço para mais um até porque não existem em numero suficiente.
E sim, tal como em tudo na vida, também com os livros é preciso sentir quimica para se criarem afinidades com eles.
Beijo.

Fragmentos Culturais said...

... tu sabes que adoro livros, 'Art'!
Nada tira o encanto de um livro impresso em papel! Aquele odor característico, a textura das folhas, o deambular pelas páginas, a fuga para imensas paisagens intimistas!

Quanto à química da 'escolha'... é imensamente subjectiva, mas real! Em todos os campos!

Comigo, acontece assim...

Sensibilizada pelo teu olhar bem atento!

Um beijo,

Luis Eme said...

adorei "O Delfim"...

Fragmentos Culturais said...

Li... entre vários!

Uma história bem contada naquele estilo de escrita muito próprio de Cardoso Pires!

Sensibilizada pelo olhar em 'fragmentos'!