Saturday, July 23, 2016

Dos livros e das leituras em tempo de Verão




Soutine
crédits: Musée de l'Orangerie
https://www.facebook.com/museedelorangerie/

"Nunca a vida foi tão actual como hoje: por um triz é o futuro. "

Clarice Lispector, Um Sopro de Vida

Já escrevi por aqui. Gosto de literatura mais leve (não confundir com light) em tempos de verão. Livros que ajudem a pensar em quase nada, ou que nos levem a querer mudar um pouco a vida e a dar-nos algumas ideias frescas nestes dias de lazer.

Detenho-me em dois autores que andaram recentemente nos média. Por bons motivos. Claramente.



David Machado
créditos: Hugo Amaral/ Observador

Então, começo por voltar a David Machado, um dos onze vencedores do European Union Prize for Literature 2015, prémio que foi criado para consagrar os "novos ou emergentes autores da Europa".

Há bem poucas semanas David Machado viu de de novo o seu livro Índice Médio de Felicidade galardoado desta vez em Itália com o Premio Salerno Libro d’Europa”. 


Índice Médio de Felicidade
David Machado
Edições Dom Quixote, 2013

Índice Médio de Felicidade é um romance admirável e extremamente actual sobre um optimista que luta até ao fim pela sua vida e pela felicidade daqueles que ama. 

Dramático, realista, mas com momentos hilariantes, fala da esperança e confirma o talento de David Machado "como um dos melhores ficcionistas da nova geração de autores de literatura portuguesa."



Índice Médio de Felicidade
David Machado

Em 2013, já depois de ter abordado o tema da felicidade neste livro Índice Médio de Felicidade, David Machado afirmou, numa entrevista, que no seu entender, "as pessoas, em geral, não levam a questão da felicidade muito a sério"

"Toda a gente diz que quer ser feliz, mas não pensa seriamente sobre isso."

David Machado

Para os mais curiosos, poderão ler online o primeiro capítulo.




Luís Sepúlveda
créditos: Orlando Almeida/GlobalImagens

O escritor chileno Luís Sepúlveda venceu a 12.ª edição do Prémio Eduardo Lourenço. O galardão foi anunciado no 24 Junho, na Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço na Guarda. Luís Sepúlveda recebeu o Prémio no dia 1 Julho 2016 na Biblioteca no Encontro... com Luís Sepúlveda.




Prémio Eduardo Lourenço 2016

O júri entendeu, 'por consenso', entregar o prémio a Luís Sepúlveda, "pela sua vastíssima obra, que, sendo uma obra universal, também tem dentro dela o iberismo, no fundo, que é o espírito do Prémio Eduardo Lourenço".

Luís Sepúlveda, sessenta e sete anos, sonha um dia contar histórias junto ao rio, como o tio-avô Ignacio




O velho que lia romances de amor
Luís Sepúlveda, 1989


“- Olha, com toda a confusão do morto já quase me esquecia. Trouxe-te dois livros.
Os olhos do velho iluminaram-se.
- De amor?
O dentista fez que sim.
António José Bolívar Proaño lia romances de amor, e em cada uma das suas viagens o dentista abastecia-o de leitura.
- São tristes? – perguntava o velho.
- De chorar rios de lágrimas – garantia o dentista.
- Com pessoas que se amam mesmo?
- Como nunca ninguém amou.”

in O velho que lia romances de amor, Luís Sepúlveda

Enquanto esse dia não chega, Sepúlveda vai escrevendo contos, e segue a profissão de escritor que "leva muito a sério". 

Eu adoro a arte do conto. Não é tão fácil quanto parece escrever contos. Exige concisão da trama narrativa.

E em tempo de férias, gosto de ler contos (não apenas). São leves, mais soltos, apresentam maior flexibilidade do que o romance (meu género literário preferido), e podem aproximar-se da poesia (cf. prosa poética) e da crónica. Não confundir conto com novela, no entanto.

Então, a última obra literária de Luís Sepúlveda é mais um conto. História de um cão chamado Leal, editado em Junho 2016 e que começou a sua viagem aqui no Porto, Casa da Música (vídeo com o autor).





História de um cão chamado Leal
Luís Sepúlveda, 2016

"Na companhia de Aukamañ, um rapazinho mapuche, Afmau aprende a conhecer o mundo que o rodeia e a respeitar a diversidade da natureza. (...) uma fábula maravilhosa e naturalista onde o escritor reflecte sobre o peso do passado e da memória, a força da amizade e da solidariedade e o respeito pela Terraela habitam." 

Nota: Afmau significa 'leal e fiel' na língua mapuche.

Um cão chamado Leal é uma fábula naturalista que homenageia o povo mapuche, mas não só. É um livro sobre um valor fundamental. O valor da lealdade.

Voltando ao tema da felicidade, há um outro livro que chamou a minha atenção. Uma ideia de felicidade de Luís Sepúlveda e Carlo Petrini (sociólogo italiano que fundou o movimento Slow Food). Ainda Sepúlvedaautor do livro História de um Caracol que Descobriu a Importância da Lentidão.





História de um Caracol que Descobriu a Importância da Lentidão
Luís Sepúlveda, 2015

Carlo Petrini partindo da ideia que a busca da felicidade não é imediata.  E que alcançá-la é uma tarefa lenta, pausada, quase tão lenta como a marcha de um caracol convida Sepúlveda para "conversa tranquila onde se interligam memórias, experiências e reflexões sobre o que é a felicidade e como conquistá-la".




Uma ideia de felicidade 
Luís SepúlvedaCarlo Petrini, 2014

Muito curiosa acerca deste último livro que procurarei na minha próxima passagem por uma livraria.

"Até mesmo a felicidade se tornou uma coisa rara, quase tabu, sufocada pelas crises económicas, políticas e morais. É preciso coragem para falar sobre ela."

Raffaella Caprinali, Recensione Libro

G-S

Fragmentos Culturais
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23.07.2016


4 comments:

Suzete Brainer said...

Amiga,

Ótimas dicas de leitura no roteiro destes livros que irei procurar
por aqui na livraria cultura.
Quanto a Clarice Lispector, sou fã e tenho a obra dela completa
de contos, crônicas e romances e quando quero marcar um encontro
com a sua magia literária, pego um livro dela e viajo!...

Beijo,querida.

AFlores said...

Excelentes sugestões e boas leituras em tempo de feriar.
Tudo de bom!

G- Souto said...

Olá Suzete,

Tal como escrevi, no verão, sobretudo para ler na praia, gosto de leituras mas soltas. E partindo desse princípio, propus para esta época do ano, livros sérios, de bons escritores, mas de leitura mais leve. Prazerosa. Para se ler, enquanto se vai olhando o mar.

Clarice Lispector, Ah! É outro tipo de leitura. Apenas lembrei de a citar no início deste postagem, por considerar que a citação se encaixa perfeitamente ao tema proposto. Presente. Actualidade.

Sou também uma grande apreciadora da sua escrita. Já aqui lhe dediquei um post apoiado em documentação exposta na Fundação Gulbenkian: Exposição Clarice Lispector na Gulbenkian (Abril, 2013).

Sempre uma alegria a sua visita.
Um beijo

G- Souto said...

Supus que poderiam ser boas sugestões para esta época, AFlores!

Sensibilizada pela tua amizade sempre presente.

Tudo de bom!