Sunday, May 13, 2012

Bernardo Sassetti: tributo quase intimista




Bernardo Sassetti (1970-2012)

"His gentle touch and flowing phrases deserved invitations by the likes of Andy Shepard, Art Farmer, Kenny Wheeler, Freddie Hubbard, Benny Golson, Curtis Fuller and Eddie Henderson, among others"

Clean Feed

É imbuida de emoção que escrevo hoje sobre Bernardo Sassetti. A notícia bateu-me em cheio, ontem, ao navegar pelos meios de comunicação. A minha primeira reacção foi um misto de incredulidade, choque, comoção. Podia lá ser! Um jovem pianista e compositor tão promissor! Tocava tantas vertentes da arte com a sua música de sensibilidade excepcional naquela sua busca inquieta pelas margens do saber e da partilha.

Fiquei-me no silêncio. Precisava de tempo. Interioridade.



Bernardo Sassetti 

Bernardo Sassetti! O pianista delicado que tive o privilégio de ouvir e ver em tantos concertos, em vários espaços! Suponho que não perdi nenhum dos que fez nesta cidade. Sim, um só. O último com Carlos do Carmo em Outubro 2011 na Casa da Música

"Em todos os momentos, Bernardo Sassetti honrou-nos com a sua música, cortesia e generosidade."

Casa da Música




Pedro Burmester, Mário Laginha, Bernardo Sassetti

Fotografia: Jorge Humberto Ricardo (2009)


Foi presença habitual na sala Suggia Casa da Música. Aí o ouvi em 2009 "Trago Fado nos Sentidos" com Mário Laginha (obra inédita encomendada pela Casa da Música), concerto sobre o qual escrevi Amalia ao som do jazz"3 Pianos" com Mário Laginha e Pedro Burmester (um concerto inolvidável), Indigo, a solo, "Motion" (2010) em trio com Carlos Barreto (contrabaixo) e Alexandre Frazão (bateria), e com orquestra na Casa da Música (2010).



Bernardo Sassetii | Casa da Música
. Estela Silva | LUSA

Também o ouvi em Jazz no Parque em Serralves (2010) com o seu trio e convidado, o espanhol  Perico Sambeat (saxofones), um concerto 'mainstream', muito agradável para uma tarde de Verão.

Lembro ainda "Piano a 4 mãos" (2003), um concerto de delicioso diálogo entre Sassetti e Mário Laginha. Suponho que foi também na Casa da Música que estive a  ouvi-los.

A minha relação com o piano, foi, em determinado momento de minha vida, uma relação muito intimista. E apesar de hoje percorrer um outro caminho, a música deu-me este lado da minha sensibilidade que se desenvolveu e aprimorou no estudo dos grandes compositores.


"He had classical formation and that shows in his compositions, the music he writes for cinema and some orchestral situations, for instance with the Hong-Kong and the London Philarmonic Orchestras (with pop singer Sting!), as a member of the Guy Barker Quintet, the same group that in 1995 was nominated for the Mercury Awards."

Clean Feed


Bernardo Sassetti

Bernardo Sassetti com formação clássica, como todos os grandes músicos, cedo se virou para o jazz, aos 18 anos, tocando com o Quarteto de Carlos Martins e o Moreiras Jazztet. 

Com influências de Bill Evans, Keith Jarrett e outros grandes pianistas e compositores, Bernardo era um inquieto músico na sua interioridade.   

Uma sensibilidade muito bonita que expressava não só ao tocar e ao criar mas também no modo doce com que dialogava com os seus admiradores, sempre que se apresentava nas salas de concerto.


"Cinema soundtracks, for Sassetti, are becoming the way he transforms his imagination into music images."

Clean Fleed

O pianista tinha uma particular paixão pela imagem e pelo cinema. Sassetti trabalhou com realizadores portugueses e estrangeiros e compôs para os filmes O Talentoso Mr. Ripley, de Anthony Minguella, Alice, de Marco Martins, A Costa dos Murmúrios, de Margarida Cardoso, baseado no romance de Lídia Jorge, Um Amor de Perdição, de Mário Barroso, entre tantos outros projectos.

"He dedicates most part of his time and skills composing film music, always with a jazz flavour – that’s the case of Anthony Minguella’s “The Talented Mr. Ripley”, with Matt Damon. “That increasingly limitless matter”, he says about music, “the true mirror of the things we imagine it to be”.





Não pretendo ser exaustiva. Aqui, hoje, quero falar de afectos. 

E são muitos os que me prendem aos seus concertos, momentos partilhados que a minha memória poético-musical guarda agora religiosamente. 

As suas sonoridades, o seu sorriso doce, por vezes alegre (não muito), as emoções que deixava perpassar quando se inclinava sobre o piano e tocava...


"Não havia limite, o teclado escondia o infinito. Parecia simples, sete oitavas, não mais, um espaço tão curto que cabia dentro dos seus braços - e no entanto tinha a vastidão do mar." (...)

Teolinda GersãoOs Teclados
Publicações dom Quixote, 1ª edição, Abril 1999

"Da Noite ao Silêncio", suponho que integra Ascento tema que quis ouvir, mal soube da sua morte. E é com este tema que quero aqui ficar hoje. 

O meu imenso pesar tem a vastidão desta musicalidade.

"Never before Sassetti sounded so “classical” in CD and, at the same time, so cinematic. We close our eyes and we’re able to translate the music to images, in such a way that we don’t miss any visual complement."

Clean Feed

Para sempre, Bernardo!

G-S

Fragmentos Culturais

12.05.2012
Copyright © 2012-Fragmentos Culturais Blog, fragmentosculturais.blogspot.com® 

Licença Creative Commons

Referências: 

Cean Feed (editora de Bernardo Sassetti)

10 comments:

João Roque said...

Excelente texto.
O melhor que já encontrei na blogo, das muitas homenagens a Bernardo Sassetti.
Por aquilo que citas foste uma seguidora apaixonada do seu percurso e decerto a triste notícia mais difícil foi ainda de aceitar.
Ao vivo, apenas o ouvi uma vez, com o seu companheiro musical favorito, Mário Laginha, num memorável concerto no CCB.
Aliás, quer só, quer a duo com Laginha, quer em trio, com este último e Pedro Burmester, os seus concertos eram únicos.

. intemporal . said...

.

.

. sempre mais do que tanto. ao ser . quase . tudo .

.

.

.

. trago.Lhe um abraço de domingo .

.

. mariano .

.

. e ampla.mente respirável .

.

.

Isamar said...

A homenagem merecida a Bernardo Sassetti. Não queria acreditar na notícia, não podia ser,uma perda muito, muito, grande para todos nós. Uma vida tão curta e que tanto tinha ainda para nos dar.

Beijinhos

Bem-hajas!

Petrus Monte Real said...

Fragmentos,

Impressionante e bela homenagem!

Conhecia mal a música de Sassetti.
Tenho um carinho muito especial por "Da noite ao silêncio". Nunca me canso de ouvir.

Sinto que a música em Portugal sofreu uma grande perda!
Muito grato
Um beijo

Lilá(s) said...

Um excelente texto! tal como tu fiquei em silêncio mal acreditando no que ouvia. Por acaso assisti ao último concerto na Casa da Música!
Mais uma grande perda.
Bjs

Fragmentos Culturais said...

Sim, João, eu admirava muito Bernardo Sassetti, como admiro muito Mário Laginha.

Mas a morte de Sassetti apanhou-me completmante desprevenida, eu que ando sempre por aqui (Internet)fui apanhada mesmo de sopetão...
Fiquei tão chocada :(

Segui de muito perto a sua carreira, mesmo. Como sigo Laginha.
Efectivamente os dois andaram sempre muito perto um do outro, suponho que havia uma grande amizade|afinidade entre os dois.

Muito obrigada pelas tuas palavras.

Fragmentos Culturais said...

Bernardo Sassetti era mesmo tanto!

Uma sensibiliddade demasiado inteira para caber naquele corpo... uma alma que não encontrou paz (?)

Muito obrigada, Paulo! Um excelente domingo para ti! E um pouco de sol para todos...

Um beijo

Fragmentos Culturais said...

Oh! 'Isamar' que bom ler-te de novo em fragmentos!

Infelizmente, o tema é bem doloroso... tal como tu, também eu fiquei chocada, muito chocada :(
A notícia apanhou-me tão inesperadamente!

Um enorme talente, uma simplicidade imensa, um espírito elevado.

E penso nas filhas... tão novinhas :(

Um beijo bem afectuoso,

Fragmentos Culturais said...

Foi uma postagem d'alma! Porque adoro piano, a sua ´música, e todos os bons compositores!

E Bernardo Sassetti era um compositor de grande mérito, enorme sensibilidade. Segui-o de muito perto, pelos concertos que tive o privilágio de assistir ao longo da sua tão curta vida :(

Ouvi-o na primeira participação no 'Jazz no Parque' em Serralves, e depois ainda no teatro Rivoli, suponho, antes da Casa da Música.

Uma perda imeensa :(

Penso muito na sua inquietude em cima do palco, inquietude, que desaparecia mal se sentava ao piano e tocava...

Um beijo

Fragmentos Culturais said...

Sim, o choque foi tão grande que o silêncio se impôs em mim... não conseguia dizer nada.

A interioridade, a sua música...

Foi tlavez o concerto único que não ouvi, o seu projecto com Carlos do Carmo.

Muito obrigada pela amizade, 'Lilá(s)!

Um brijo