Saturday, March 26, 2016

Meditando Páscoa






Ando por aqui rondando. Prcuro inspiração. Estamos em tempo de Páscoa. É necessário exprimir-me, escrever dos sentimentos que me inundam. Porém encurralados para lá das palavras.

A semana de prenúncio de primavera tocava-me. Escreve algo. Cruzo-me com a minha voz, muda. Diz-me - Alguma coisa tem que mudar!

"Mas tudo é mudança na vida, menos aquilo que que nenhum de nós domina"... contrapõe a voz do poeta.

O mundo tornou-se um campo roxo de incerteza. Um vento sopra. Tenta limpar as nuvens plúmbeas. Abrir o azul que, tal como as aves, eu tanto gosto. 

Basta uma mensagem simples - continua minha voz muda. Mas um deus mais pesado do que noite de chuva, fria, em véspera de Páscoa, poisa uma auréloa de cinza, sofrimento, e dor. Lugares vazios.

Os sentimentos sublimam-se, ó fragilidade humana! Suplicamos intimos anseios de uma Páscoa serena, fraterna. A dor aperta o coração de tantos.

Atravessamos dias inundados de lágrimas. E a primavera recua. Nem os pássaros se aproximam.

O inverno é um sentimento que envolve o coração da Humanidade. E o desconforto do céu chora. Desespero.

Rezem por mim ! Mas ninguém os ouve, perdidos num destino que não buscaram, mas que os ceifa na sombra das cinzas.

"E é como se nunca mais ninguém te esperasse,
ó deus que dormes numa vigília de humanidade,
ó homem que despertas num canto da eternidade."

Nuno Júdice, Cristo morto (excertos)

G-S

26.03.2016
Copyright © 2016-Fragmentos Culturais Blog, fragmentosculturais.blogspot.com®

Tuesday, March 22, 2016

Silêncios



credits: Elyx Yak

Solidarité avec la Belgique ! Nous sommes tous les atomes d'une même humanité.

Elyx


G-S

Fragmentos Culturais

22.03.2016
Copyright © 2016-Fragmentos Culturais Blog, fragmentosculturais.blogspot.com®

Tuesday, March 15, 2016

Nicolau Breyner : tributo




Nicolau Breyner 1940-2016
créditos: fornecida por Jornal I

"Não tenho medo de morrer. Tenho é pena de deixar de viver."

Nicolau Breyner

Portugal estremeceu ontem, ao final da tarde, com a perda de Nicolau Breyner. Eu estremeci. Foi uma morte inesperada. 

Por vezes, só nos apercebemos quão éfemera é a vida, ao vemos partir um daqueles seres que quase consideramos imortais.

Perdidos na inocência do tempo, crescemos a vê-los tão reais que achamos impossível o seu desaparecimento. 

Nicolau partiu, mas deixou um percurso inimitável, de talento indescritível. E muita bondade que distribuiu por todos quantos cruzaram a sua vida.




Nicolau Breyner
créditos: Orlando Almeida/ Global Imagens

Pessoas como Nicolau Breyner percebem desde sempre que a vida é preciosa demais para ser vivida sem autenticidade. Viveu a vida de forma autêntica, amou com paixão, teve a capacidade de sonhar, de sorrir sempre e fazer sorrir, de ousar reinventar.
 
Seres como Nicolau nascem sabendo que são predestinados para deixar uma obra de vida! E deixou. Era um homem muito generoso.

"Eu gosto que gostem de mim, é um facto. É um fraco que eu tenho, porque eu gosto muito das pessoas. Quero que me recordem com um sorriso, com carinho." 

Nicolau Breyner, in Alta Definição

E suponho que conseguiu o que gostaria de atingir. Ser amado por todos. Desejo que tenha morrido serenamente. Merecia.




Nicolau Breyner & Maria do Céu Guerra
Joaquim e Rosa
Os Gatos Não Têm Vertigens, 2014

Com aquela mesma serenidade que fez o papel de 'fantasma' no filme de António-Pedro de Vasconcelos, Os Gatos Não Têm Vertigens. Vi o filme no cinema e depois revi, com ternura, num dos canais de televisão, há poucos meses.

Nicolau Breyner tinha esse dom. A ternura, a serenidade com que interpretou a personagem Joaquim, o marido que morre, mas não se ausenta. 

Interpretou o papel baseado na sua própria crença religiosa. De que há vida para além da vida.

Fui ver o filme. E apesar de se dizer que Nicolau tinha um papel secundário, a sua presença inundou todo o filme. Desde o início, na sala de dança com Rosa, até ao momento final, o reencontro de Rosa e Joaquim, na mesma sala de dança, mas já em outra vida. Final comovedor. E delicioso.




Os Gatos Não Têm Vertigens, 2014
António-Pedro Vasconcelos

Raramente perco um longa metragem de António-Pedro Vasconcelos. O realizador tem o dom de falar de temas sérios, dramáticos, dando-lhe um cunho de leveza, sem retirar nada aos dramas de vida que as suas histórias contam. Imprime aos seus filmes a utopia que todos desejamos para um mundo melhor. 

É o caso de Os Gatos Não Têm Vertigens. E encontrou em Nicolau Breyner o actor ideal para personificar Joaquim.

Se ainda não viu, esteja atento porque vai certamente passar uma noite destas num dos canais de televisão.



Combóio Nocturno para Lisboa,
Billie August, 2013


Nicolau Breyner fez parte do elenco fabuloso do filme Combóio Nocturno para Lisboa. Contracenou com Jeremy Irons, Charlotte Rampling, entre outros. A sua interpretação não deveu em nada aos actores com quem contracenou, apesar da sua intevenção curta.




Jeremy Irons, Billie August, Nicolau Breyner

Realizado por Bille August ("A Casa dos Espíritos") o filme é a adaptação cinematográfica do best-seller mundial homónimo, escrito em 2004 pelo suíço Peter Bieri, sob o pseudónimo Pascal Mercier.  Escrevi sobre este filme em 2013.




Nicolau Breyner
créditos: fornecida por DN

"A missão do actor é simplesmente emocionar as pessoas. Levá-las ao riso ou às lágrimas. Fazer com que nos odeiem ou nos amem. Enfim.... É fazê-las sonhar. Quando isso acontece, a vossa missão está cumprida".

Nicolau Breyner, NB Academia

G-S 

Fragmentos Culturais

15.03.2016
Copyright © 2016-Fragmentos Culturais Blog, fragmentosculturais.blogspot.com®

Tuesday, March 8, 2016

Dia International da Mulher






Hipathia de Alexandria*
Escola das Artes|Rafael
Hipatia, de pé e com túnica branca
Museus do Vaticano


Elas 
Iludem as escurezas
dos rostos
a negrura das nódoas

do corpo

desatam os nós que lhes
atardam, atam e algemam
a alma e os pulsos

Conversam entre si
coisas de enredo
lançam Luz nos recantos

das vagas

Trocam receitas de venenos
murmuram palavras escusas
desejos inolvidáveis

‘Oh, que dureza ruim!
Ataduras e debruns
missanga de muita estrela

Cassiopeia, raízes
sangrantes
das próprias veias’

Elas 
inventam a mata
na clareira assombrada
embrenhadas na vigília

Recriam, criam, dominam

Viram pombas, profetizas
com uma alvura de cera
pálidas rosas da China

‘Oh, tormenta amendoada
solidões desirmanadas
enquanto de madrugada

Cavam, enterram, devassam
pespontando com o riso
as dobras do calamento’

Elas 
bradam, elas buscam
sibilas e amazonas
emudecem as camélias

e as roseiras nervosas

Feiticeiras ardilosas
filhas da harmonia
partilham as tempestades

Derrubam, suturam, fiam

‘Oh doçuras sigilosas
no aço do destempero
de incêndios e desesperos

Virados pelo avesso
a paixão e a razão
entre si tão divididas’

Elas
recusam, derrubam
dominam as próprias vidas
com a sua inteligência

Tornam-se donas do tempo
a semearem agruras
pelos meandros do vento.

Maria Teresa Horta, Elas, Março 2016*
in Facebook oficial 


Hypathia, a primeira mulher documentada como Matemática, nasceu em Alexandria entre 350 e 370 e aí barbaramente foi assassinada pelos cristãos em fúria (c. 415 ou 416). 

Neoplatonista, foi também professora de Filosofia e Astronomia, tendo o seu homicídio marcado, segundo Kathleen Wider, o fim da Antiguidade Clássica. O quadro que representa Hypátia é da autoria de Rafael, um dos grandes nomes do Renascimento, e encontra-se nos Museus do Vaticano

Foi a imagem escolhida por Maria Teresa Horta para ilustrar o seu poema no Dia Internacional da Mulher

*O poema que tem a data 2016 foi, no entanto, já publicado em 2014.

Em Dezembro 2009, escrevi sobre Agora: um filme que nos toca. Baseado em alguns factos verídicos da vida de Hypathia, tem, no entanto, várias inexactidões históricas, o que não retira o mérito ao excelente filme que desvenda um pouco da mulher que se atreveu a exprimir em público toda a sua cultura, num tempo em que tal não era permitido às mulheres.

G-S

Fragmentos Culturais

08.03.2016
Copyright © 2016-Fragmentos Culturais Blog, fragmentosculturais.blogspot.com®