Sunday, August 16, 2015

Cinema : Jacques Tati, lembra ?




As Férias do Sr Hulot|Jacques Tati
ilustradora: Marta Monteiro


Ninguém diria que estamos no verão, em pleno mês de Agosto, com o tempo que se faz sentir há já duas semanas.

Não faço ideia como estarão as praias, nestes dias nevoierentos, com alguma chuva. Tristes certamente. Sem vida. Só mar e bruma.

Preparemo-nos então para animar algumas tardes ou noites deste (quase) final de verão.

Jacques Tati. O nome diz-vos alguma coisa? Quem sabe, memórias difusas de um tempo que os nossos pais nos contavam. Outros terão mesmo tido acesso ao cinema dos anos 50, quer na época, quer posteriormente, em ciclos de cinema ou sessões nos cineclubes.

Pois bem! Jacques Tati está ai para ser admirado, e certamente com saudáveis gargalhadas. A filmografia em versão digital restaurada deste icónico realizador-actor do cinema francês será exibida, dentro de breves dias, em Lisboa e no Porto.

Medeia Filmes
Verão com Jacques Tati, assim se denomina a programação preparada pela Leopardo Filmes terá início nos próximos dias, e contará com as seis longa-metragens do realizador.


Jacques Tati O Meu Tio
ilustradora: Catarina Sobral

A retrospetiva começa no dia 20 de Agosto, no Espaço Nimas, em Lisboa, com o filme "Sim, Sr. Hulot” (1971). 

Serão ainda exibidos “Há Festa na Aldeia” (1949), “As Férias do Sr. Hulot” (1953), “O Meu Tio” (1958), “Playtime – Vida moderna” (1967) e “Parade“, o último filme, realizado em 1974 para a televisão sueca.



Playtime | Jacques Tati
ilustração João Moreira


O Espaço Nimas acolherá também uma exposição de seis cartazes, um de cada longa-metragem de Jacques Tati, reinterpretadas por ilustradores portugueses : André Letria, Marta Monteiro, Madalena Matoso, João Fazenda, Catarina Sobral e Sara-a-Dias, alter-ego de Sara Osório.





O público terá ainda a oportunidade de ver sete curtas-metragens, inéditas em Portugal, que o cineasta escreveu ou interpretou.


"Procura-se Brutamontes” (1934), de Charles Barrois, “Domingo Animado” (1935), de Jacques Berr, “Cuida do teu Gancho Esquerdo” (1936), de René Cleement, “A Escola de Carteiros” (1946), de Tati, “Aulas Nocturnas” (1967), de Nicoolas Ribowski, “Especialidade da Casa” (1976), de Sophie Tatischeff (filha, montadora, e assistente de Jacques Tati), e “Força, Bastia” (1978), realizada por Tati e pela filha Sophie Tatischeff.


Medeia Filmes
A 1 de Setembro, o ciclo chega ao Teatro Municipal Campo Alegre, no Porto. Confesso que me desanima o espaço. Um ciclo de Jacques Tati merecia passar pelo Teatro Rivoli.

Jacques Tati, de ascendência russa, francesa e holandesa, protagonizou todos os seus filmes numa personagem encantadora que a todos arrebatou, no seu tempo.




Há Festa na Aldeia | Jacques Tati
ilustração Sara Dias

Se em “Há Festa na aldeia” personificava o distraído carteiro François, nas restantes longas-metragens, exceptuando “Parade”, assume uma das mais conhecidas personagens, que se lhe colou à pele para sempre: o desconcertante Sr. Hulot, de chapéu, cachimbo e gabardine.




Les Vacances de M. Hulot, 1953

A primeira vez que Jacques Tati se filma como Sr. Hulot foi em “Les Vacances de M. Hulot” (1953). O filme foi exibido no Festival de Cannes e teve uma nomeação para os Oscars.





Mon Oncle | Jacques Tati

Seguiu-se a comédia “Mon Oncle" que lhe valeu o Oscar de "Melhor Filme Estrangeiro" em 1959.

Depois dos ambientes campestres, dos tempos de veraneio, e da vida familiar, Tati filmou a vida moderna numa grande cidade, Paris, em “Playtime” – um ícone do cinema, mas um fracasso de bilheteira, o que levou o realizador à falência -, e “Sim, Sr. Hulot”, sobre uma aventura nas autoestradas de França e da Bélgica.



Parade | Jacques Tati
ilustração : Madalena Matoso

Em “Parade”, o filme com que se despediu na década de 1970, Jacques Tati presta um tributo ao mundo do espetáculo e do circo. 

Jacques Tati morreu em 1982, vítima de uma pneumonia, deixando por concluir o projeto “Confusion”. 





Em 2010, o realizador Sylvain Chomet fez o filme de animação L'Illusionniste, partindo de um argumento biográfico escrito por Jacques Tati na década de 50, com referências a uma filha ilegítima do cineasta. “O Mágico” é uma homenagem às antigas formas de entretenimento ligadas ao circo: ilusionistas, ventríloquos, trapezistas e palhaços. Mas é mais do que isso. É uma homenagem ao cinema mudo, e ao grande Jacques Tati.

O filme? Sim, vi-o quando foi exibido em Portugal. Adorei. Suponho que todos os que tiveram o privilégio de ver esta poética animação, não esqueceram mais a mensagem deliciosa do gesto por omissão da palavra.


As cidades de Braga, Coimbra, Figueira da Foz e Setúbal também terão a oportunidade de ver algumas exibições.

Uma retrospectiva que nos traz memórias de Tati, emaranhadas nas de Charlie Chaplin, Buster Keaton.

"Entre os quadros de humor que ele constrói para nos divertir, há oportunidade para sonhar os sonhos dos nostálgicos, aqueles que encontram em coisas velhas e tristes parcelas de identidade do que um dia foram, mas também sabores e sensações que então eram novos e excitantes e agora estão esgotados."

Aurélio Moreira, in Público


G-S


Fragmentos Culturais


16.08.2015

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Wednesday, August 5, 2015

Ideias frescas . Ler na praia





Praia da Tocha

Há uns anos, de volta do Buçaco, passe por Cantanhede. E foi aí que descobri a Praia da Tocha. Não conhecia. E adorei.

Areal extenso, fina areia, quase branca, limpa, e um mar tranquilo. Pelo menos naquele dia. O Sol, aquela hora batia em cheio na água, dando-lhe um brilho cinza-prata que tanto gostamos de admirar. O olhar se acalma e permanece extasiado. Respira-se. 

Ficámos alguma horas, enaltecendo, fruindo daquele imenso mar. A tarde estava tranquila, embora em época balnear, e o bem estar fez-se sentir na languidão do sol que batia em nós e nos transmitia um calor gostoso. Faz bem à alma e ao espírito. Um dia solto de verão.



Praia da Tocha, Cantanhede

Não voltei lá, mas ao ver esta imagem de uma biblioteca de praia em cima do areal da praia da Tocha, tudo se fez presente.

Ideia original, quase rara, mas de grande criatividade. Só quem gosta muito de livros se lembraria de colocar uma biblioteca na praia. 

Pois bem, ontem ao passar os olhos pela imprensa digital, como faço todas as manhãs, passei por este artigo do Expresso. E a ideia genial de disponibilizar livros em várias praias de país é de louvar.



Praia de Matosinhos

A secção em que estava inserido o artigo não tinha muito a ver com livros, mas a imagem que sobressaiu, prendeu de imediato a minha atenção. 

O poder da imagem! Poderíamos ficar aqui a divagar. Mas não. A imagem foi o despoletar para a descoberta roteiro encantador. Sim, porque se trata de um roteiro. Mas um roteiro bem cultural, ligado a livros e bibliotecas nas praias do nosso país. 



Praia Melides, Grândola

"Depois de colocar o protector solar e entre dois mergulhos, a leitura pode e deve fazer parte de um dia de praia. Nos areais de Portugal pode encontrar diversas bibliotecas e até um frigorífico transformado em espaço de crossbooking."

Querem melhor convite? Bem, eu sou daquelas pessoas que não vai à praia sem um livro na cesta, juntamente com a tolha e o bronzeador.

Mas se passasse por uma destas praias, não ficaria de modo nenhum indiferente a esta iniciativa cultural.



Biblioteca da Praia Torre, Oeiras

Estas iniciativas que se estendem de norte, Póvoa de Varzim, - já nossa conhecida, muito ligada aos livros, quer com Correntes d'Escritas, em Fevereiro, quer com a Feira do Livro, em Agosto. Este ano com a temática "Onde as leituras cheiram a mar" - centro, até ao sul, Albufeira, e vão até meados de Agosto ou Setembro.

É só consultar o roteiro aqui se está de férias em uma destas praias, ou se parte na segunda quinzena do mês.



Bliblioteca Chiado Editora, Torel

Pode e deve aproveitar as diversas bibliotecas, espalhadas pelas praias portuguesas, durante o verão.

Ler na praia! É algo que gosto muito de fazer. Deitada sobre o areal, ou sentada de frente para o mar, há sempre momentos que despertamos para outros paisagens, outros rostos, outras realidades. Este ano, o meu livro de praia é de Alice Munro "Amada Vida". 


Alice Munro | Amada Vida
Relógio d'Agua

Se bem se lembram Alice Munro foi Prémio Nobel da Literatura em 2013. Um estilo delicado, histórias de vidas comuns, contadas com sofiticada sensilibildade. Um registo leve que aprecio para leituras de verão. 


Pois bem, apesar das sugestões do roteiro, não perca o bom gesto de levar o seu livro na cesta, como eu, ou debaixo do braço, se prefere um jornal ou revista. 

Dê preferência aos livros. Acredite. São companhias mais inteiras, que nos absorvem, nos levam a viajar, mesmo que estendidos no areal, com o mar em fundo. Cenário melhor?

Eu hontem passei o dia 
Ouvindo o que o mar dizia. 
(...)

Depois, para se alegrar, 
Ergueu-se, e bailando, e rindo, 
Poz-se a cantar 
Um canto molhádo e lindo. 
(...)

E os poetas a cantar 
São echos da voz do mar! 

António Botto, Passei o dia, ouvindo o que o mar dizia
in 'Canções' 

G-S

Fragmentos Culturais
(em tempo de férias)

05.08.2015
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