Sunday, April 27, 2014

Vasco Graça Moura




Vasco Graça Moura no seu gabinete CCB
foto: Paulo Spranger/Global Imagens


Soneto do amor e da morte

quando eu morrer murmura esta canção 
que escrevo para ti. quando eu morrer 
fica junto de mim, não queiras ver 
as aves pardas do anoitecer 
a revoar na minha solidão. 

quando eu morrer segura a minha mão, 
põe os olhos nos meus se puder ser, 
se inda neles a luz esmorecer, 
e diz do nosso amor como se não 

tivesse de acabar, sempre a doer, 
sempre a doer de tanta perfeição 
que ao deixar de bater-me o coração 
fique por nós o teu inda a bater, 
quando eu morrer segura a minha mão. 

Vasco Graça Moura, 
in Antologia dos Sessenta Anos
Edições ASA, 2002

Um intelectual renascentista no século XXI, assim se pode ler no Público | Cultura

Meu tributo emocionado.

G-S 

Fragmentos de luto

27.04.2014

(sinto-me tão chocada que não consigo escrever nada)

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Friday, April 25, 2014

Dos escritores e dos factos




Mario Cesariny | Postais 25 Abril (2006)
http://www.bnportugal.pt/

Vinte e Cinco de Abril

Este é um poema
com saudade da festa 

Dias de vermelho
de damasco e de riso

Das horas de alegria
e de bandeiras,
de cravos rubros postos no vestido

Este é um poema
feito de memória

(...)

Este é um poema 
de visitar a História

Da revolução o ganho
e também o perdido

Da viagem e do mar
da língua portuguesa
onde na paixão me encontro comigo 

Maria Teresa Horta, 22.04.2014
in Maria Teresa Horta, Página Oficial Facebook





"Poets and beggars, musicians and prophets, warriors and scoundrels, all creatures of that unbridled reality, we have had to ask but little of imagination, for our crucial problem has been a lack of conventional means to render our lives believable,

Gabriel García Márquez, Nobel da Literatura, discurso

Gabriel Garcia Márquez, desaparecido há pouco mais de uma semana. 
Escritor columbiano, deixou uma vasta obra: romances, novelas, crónicas, material jornalístico e uma autobiografia. Mundialmente lido e celebrado, a sua influência na literatura universal foi determinante.

O discurso que leu em Estocolmo quando recebeu o Nobel de Literatura, em 1982, "A solidão da América Latina", tornou-se um texto de referência da sua obra literária.



Cerimónia Entrega Prémio Nobel da Literatura, 1082

Galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 1982, Garcia Márquez é um dos mais conceituados escritores de língua espanhola. Mario Vargas Llosa monstrou que as dissidências em vida, não o afastavam da tristeza do momento.

"Morreu um grande escritor cujas obras deram grande difusão e prestígio à literatura da nossa língua", 

Vargas Llosa


Amor em Tempo de Cólera
Edições Dom Quixote

"Gabo" assim carinhosamente tratado no seu país, autor de livros tão famosos como "Cem Anos de Solidão" ou "Amor em Tempo de Cólera", ou Crónica de uma Morte Anunciada.


Amor em Tempo de Cólera foi adaptado ao cinema e passou por cá em 2008.


Garcia Márquez foi muitas vezes apontado como o mais significativo escritor em língua espanhola, depois de Miguel de Cervantes (século XVI) e um dos maiores escritores da literatura contemporânea.



Cem Anos de Solidão

Na verdade, foi o poeta chileno Pablo Neruda que afirmou que "Cem Anos de Solidão" era a maior revelação em língua espanhola desde "Dom Quixote" de Miguel de Cervantes

O 'realismo mágico' da sua escrita, faz com que os seus livros estejam traduzidos em quase todas as línguas.





García Márquez, 1991
Photograph by Ulf Andersen/Getty
Li muitos dos seus livros, se não a maioria. Cem Anos de Solidão ainda na minha adolescência. 
Nenhuma experiência literária é mais rara do que a leitura de um livro que muda a forma como vemos o mundo.

"One Hundred Years of Solitude," Gabriel Garcia Marquez's masterpiece, is unique. Nothing I have ever read conveys as it does the magic underlying the most quotidian events and gives even the most extraordinary occurrences an air of mystical inevitability."

Michael Hiltzik, Los Angeles Times

Interrogado um dia sobre o impacto dos sonhos na sua escrita de 'sonho', Márquez disse que preferia concentrar-se na realidade
"A própria vida é a maior fonte de inspiração", disse ele. "Eu vejo os sonhos como parte da vida em geral, mas a realidade é muito mais rica. 

"Mas talvez", acrescentou, "Eu só tenha sonhos muito pobres."






Garcia Márquez (2007)

Para lá da política e da mitologia, García Márquez nunca deixou de elaborar uma narrativa imensa sobre a morte e solidão.

Sobre o tema da morte. disse um dia " Ce qui me soulage et m'attriste, car il s'agira là de la première expérience que je ne pourrai pas raconter."


Não vou escrever muito mais. Todos leramos muitos artigos, fotogalerias, tributos. 


Um dossiê completo dedicado a Garcia Márquez  nas páginas de El Espectador que aconselho.

"Se fue Gabo, pero nos queda el recuerdo y la admiración a todos los colombianos y mexicanos, porque Gabo era mitad colombiano y mexicano, y en América Latina y en el mundo lo admiran”.


 José Gabriel Ortiz



Não sei se andaremos todos com sonhos pobres. Talvez não. A Primavera essa, continua arredia, como se nos quisesse colocar ainda mais nuvens neste dia feito de memórias.

G-S
Fragmentos Culturais
(em jeito de celebração e homenagem)
25.04. 2014
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Saturday, April 19, 2014

Páscoa : da simplicidade





Ando por aqui rondando, há alguns dias, tentando inspiração para escrever sobre a Páscoa. A semana de aromas de primavera incitava-me a escrever algo de luminoso, já que um ligeiro problema de saúde me retirara muita energia boa. Mas a inspiração não vem quando queremos.

Bastava uma mensagem curta, sem muitas palavras. Por vezes, a ausência de palavras instala-se. 

A Primavera desponta, apesar de alguns dias instáveis. Mais luz, natureza tímida, paisagens que se transmutam lentamente, passo apressado das pessoas. Lugares vazios.

Os afectos sublimam-se, diante da fragilidade humana, e desdobramos intimos anseios de uma Páscoa serena, fraterna, na dor que aperta o coração de tantas pessoas.

Que nenhuma estrela queime o teu perfil 
Que nenhum deus se lembre do teu nome 
Que nem o vento passe onde tu passas. 

Para ti eu criarei um dia puro 
Livre como o vento e repetido 
Como o florir das ondas ordenadas. 

Sophia de Mello Breyner

G-S
Fragmentos Culturais
(em jeito de meditação de Páscoa sem muita inspiração)
19.04. 2014
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