Sunday, March 25, 2012

Antonio Tabucchi, um tributo emocionado






Antonio Tabucchi


"E' morto Antonio Tabucchi
Ci ha lasciato un amico, un compagno di strada, un uomo che è stato dentro il suo tempo con passione e rabbia, un intellettuale europeo, un grande scrittore. Si e' spento stamattina nella sua Lisbona, la sua seconda patria, la casa dei suoi cari, la casa dei suoi poeti più' amati."

Feltrini Editore, Milano, il 25 marzo 2012





Antonio Tabucchi
Rebeca Yanke/ Wikipedia


Morreu Antonio Tabucchi! O mundo da literatura e da liberdade de pensamento ficou mais só. Sobre Tabucchi escrevi em 2009 aqui.

Vivia em Lisboa depois de se ter aposentado como professor catedrático de Língua e Literatura Portuguesa na Universidade de Siena, Itália. 

Ensinou também em universidades prestigiadas como Bard College de New York, Ecole de Hautes Etudes et Collège de France de Paris





Antonio Tabucchi (1943-2012)
Toni Albir, EPA 

Foi um dos maiores estudiosos de Fernando Pessoa que começou a desvendar há mais de 20 anos.

Assim conta como descobriu Fernando Pessoa:

"Foi uma descoberta casual. Depois de vários meses de tentativas filosóficas, na Universidade de Paris - a filosofia não foi feita para mim - voltei para casa de comboio. Queria ler qualquer coisa na viagem e parei em frente a uma banca de livros. Vi uma edição muito modesta de um tal de Fernando Pessoa, completamente desconhecido para mim. O título francês - "Bureau du Tabac" ("Tabacaria") - era estranho. Li o poema no comboio e foi de tal maneira intenso que quis conhecer a língua."





Antonio Tabucchi
DN Archivo

Veio até Lisboa com uma bolsa de estudo em 1965, depois de ter frequentado na Sorbonne a cadeira de Língua e Literatura Portuguesa e por aqui se dividiu com a Toscana até à sua reforma como professor universitário. 

António Tabucchi recordava que quando chegara, descobrira um país exótico. "Todos de preto e de chapéu, numa Lisboa onde quem andava de sandálias era 'olhado com desprezo. 'Sentia-se um formalismo incrível." Na Universidade de Lisboa foi diferente. Encontrou amigos e o amor da sua vida com quem ainda é casado e teve dois filhos."





Adaptação ao cinema de "Afirma Pereira"
Roberto Faenza | Marcello Mastroianni

Escreveu entre muitos, "Afirma Pereira", um romance publicado em 1994, com o qual conquistou vários prémios (Premio Campiello, Premio Viareggio, Prix Européen "Jean Monnet") sendo considerado uma das obras-primas da moderna literatura italiana.

À Falta de Provas

"Há de imediato, algo de excessivo na biografia deste português, que, com o decorrer dos anos, ameaça tornar-se um dos mais importantes poetas do século XX (...)

Antonio Tabucchi, Afirma Pereira
Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Outubro 1994, pág. 11 

Foi depois adaptado ao cinema em 1995 por Roberto Faenza. Marcello Mastroianni foi o intérprete principal.





Viaggi e Altri Viaggi
Antonio Tabucchi, 2010

"Lo scrittore Antonio Tabucchi si è spento oggi 25 marzo nell’amata Lisbona.
“Il viaggio trova senso solo in se stesso, nell’essere viaggio… è come la nostra esistenza il cui senso principale è l’essere vissuta”, scriveva in “Viaggi e altri Viaggi” pubblicato nel 2010. E lui certo aveva vissuto, aveva letto e scritto e viaggiato e amato."
"Viagens e Outras Viagens" (2010) reunia os passeios reais e virtuais que fez através dos livros. 




Racconti con figures
Antonio Tabucchi, 2011


"Contos com Figuras" saiu na mesma altura (2011). Suponho que não há tradução portuguesa. Tabucchi referiu-se ao livro:

 "São textos que escrevi para os meus amigos pintores, de Paula Rego a Vieira da Silva."




Antonio Tabucchi
Maio 2011

O último livro de Tabucchi, "O Tempo Envelhece Depressa", será editado em português no próximo mês de Abril pela Dom Quixote.  Conjunto de contos sobre a passagem do tempo, passado e presente.

Assim se referia aos livros:

- O que gostou nos livros?

- A ideia de poder viajar era fascinante. A literatura facilita o nomadismo intelectual e tem uma virtude terapêutica enorme, percebemos que o universo não é o pequeno buraco onde vivemos."



Retrato de Antonio Tabucchi 
por Emanuel Fucecchi



Sou uma admiradora profunda da sua obra e é com pesar que vejo desaparecer este intelectual considerado pelos jornais italianos de hoje como o "mais original" autor das últimas décadas", o "mais europeu dos escritores italianos".




“El deber de la literatura consiste en indagar las sfumature, en explorar las zonas de intersección, los márgenes ambiguos de la vida”. 



Antonio Tabucchi 


G-Souto

Fragmentos Culturais

25.03.2012
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Referências:

Feltrine Editore



Sunday, March 18, 2012

Florbela - poesia ou cinema?




Florbela | filme


Minh'alma é a Princesa Desalento,
Como um Poeta lhe chamou, um dia.
É magoada, e pálida, e sombria,
Como soluços trágicos do vento! (...) 
Florbela Espanca, Princesa do Desalento

Início de tarde de domingo. Frio demasiado para um passeio até à beira-mar. Sento-me aqui, nesta janela virada para os amigos virtuais e decido-me por escrever. Florbela. Sim, Florbela Espanca. 

Apesar de não ser uma das minhas poetas preferidas, demasiado depressiva, gosto da mulher que foi e do seu desassossego. E admiro a sua poesia.

E foi ontem, naquela tarde de chuva fresca, mas que trouxe consigo o frio. Estava decidida. O filme a ver seria Florbela de Vicente do Ó. 

Um retrato livre de Florbela, a mulher e a poeta,  em momento de vida de busca de inspiração desta enorme poeta com tal sede de infinito. E  o realizador sabe captivar-nos. Ficamos presos às imagens, aos diálogos, ao cenário. 



Florbela

Sala bastante cheia. Mesmo assim, lá consegui um lugar mais recatado para fruir de um momento de interioridade. Sim, porque uma sala de cinema pode conter esse sentimento de estarmos sós perante os outros, apenas sombras, na contra luz do ecrã reflectida na audiência.

Esperava muito! Vira os trailers que me cativaram de imediato, ouvi Dalila do Carmo (Florbela) e Vicente Alves do Ó. Convincentes, sensíveis. 


As duas horas de filme não me desiludiram. Muito pelo contrário. Não estupefacta com a beleza das imagens e com o encanto dos movimentos. Sabia que podia contar com isso, já fora conquistada previamente.

Fascinante! De grande qualidade! Posso dizer muito mais? Não, só vendo! 





Florbela Espanca viveu em tempos conturbados do país. Ainda adolescente, assistiu ao final da Monarquia. Chegou a frequentar o curso de Direito em Lisboa, numa atitude fora do comum no seu tempo – eram pouco mais de uma dezena de mulheres num curso que contava com cerca de 350 homens inscritos. 



Dalila do Carmo | Florbela 

A sua vida afastou-se dos cânones de então, tal como a sua poesia, para o bem e para mal. Era uma alma em constante busca da 'infinitude'. Florbela criou um eu-lírico para os seus poemas, de cariz ultra-romântico, afastando-se dos movimentos literários que surgiam.



Florbela

A poesia desfila na ecrã pela estética de imagens cativantes. Vicente Alves do Ó capta a poeta quase em jeito de poema. E, assim, faz o tributo a uma figura que em vida causou escândalo, mas também arrebatou admiradores. E no final acabará por ser recordada pelas suas palavras e pela sua ousadia.

O que poderia escrever mais? Dalila do Carmo, intensa! Maravilhosa!

Acentuadas referências a grandes autores do cinema: Lars von Trier e Melancholia, Luchino Visconti e Morte a Venezia, François Truffaut no retrato íntimo de "L'Histoire de Adèle H".

Mas todos nós somos feitos de referências do que lemos, ouvimos, vemos. E estas são belíssimas!

Apesar de bem escrito, os diálogos pareceram-me, por vezes,  um pouco limitados para a grandeza de Florbela, mulher e poeta.




Banda sonora de inegável qualidade da autoria de Guga Bernardo. Embora talvez demasiado presente. Momentos havia que o silêncio seria o ideal para a emotividade do que desfilava aos nossos olhos.

Negativo, mesmo! O trabalho técnico de mistura de som não foi bem trabalhado. Houve momentos em que o som ambiente, som de fundo, ficavam ao mesmo nível ou acima até, do som dos diálogos, factor que retira qualidade aos mesmos.

Não ver? Imperdoável! Um dos mais belos filmes portugueses feito para 'se amar (...) amar só por amar', poesia cinematográfica, magia cénica, sensível, lindo cinema


Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...
(...)

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

Florbela Espanca, Lágrimas Ocultas 


G-S 

Fragmentos Culturais 

18.03.2012
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Sunday, March 11, 2012

Em jeito de prece por Fukushima





Peónias


Quietude
O barulho do pássaro
Pisando em folhas secas

Ryūichi Tamura, 1923-1998


G-S

Fragmentos Culturais

11.03.2012
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Saturday, March 3, 2012

Lucio Dalla: um tributo





Lucio Dalla, 2008
Créditos: Joel Ryan/AP

Itália está de luto. Lucio Dalla, grande nome da canção italiana, mas também poeta, clarinetista e pianista, morreu repentinamente no dia 1 Março 2012, em Montreux, Suiça, onde se encontrava a fazer uma série de concertos.

Era um mito para os italianos. E foi com muita emoção que eles se despediram de Dalla. O presidente da República italiana referiu-se a Lucio Dalla como  um artista amado por muitos italianos de diferentes gerações.

Nascido em Bologna em 1943, Lucio Dalla começou aí a tocar clarinete num grupo de jazz.

Mais tarde, participou no Festival de San Remo com uma canção autobiográfica intitulada "4/3/1943" (sua data de nascimento) cujo tema retratava a sua própria infância ( a história de uma mulher - sua mãe - que educara sozinha seu  filho).




Questo è Amore | Novembro 2011

Questo Amore é o seu último trabalho editado em Novembro de 2011.

Há duas semanas, sensivelmente, passou de novo pelo Festival San Remo, o mesmo que lhe deu fama, desta vez em dueto com o jovem Pierdavide Carone, para quem havia composto a canção 'Nani'. 





Dalla tinha uma escrita intimista. Evocava a nostalgia do mar e da sua adolescência.

"Ses chansons très intimistes évoquent souvent sa fascination pour la mer (dans "Nun parlà") ou son adolescence (dans "Stella di mare" ou "Futura")."

Depois de Whitney Houston foi com tristeza que hoje li a notícia da morte de Lucio Dalla.



Getty Images



Lucio Dalla

Lucio Dalla era a voz que gostava de ouvir, no célebre tema de sua autoria "Caruso" (homenagem a Enrico Caruso). Um sucesso enorme que começou em 1986 e que vendeu mais de nove milhões de exemplares.

Foi no dueto "Pavarotti & Friends", um CD que o ouvi pela primeira vez. Fiquei presa à nostalgia daquela melodia, naquele seu jeito lânguido de transmitir afectos. Desde aí,  passei a estar atenta ao seu trabalho.

Mas a música, é como tudo! Temos momentos que ouvimos desmesuradamente, outros temos em que nos silenciamos para ouvir a nossa interioridade.

Voltava de quando em vez ao tema "Caruso" interpretado a solo ou em dueto com Pavarotti.



Lucio Dalla compôs também música para filmes e trabalhou com realizadores como Michelangelo Antonioni entre outros

O estilo de Dalla foi influenciado por grandes paroliers italianos.

"Dans son écriture anticonformiste à la fois joyeuse et inquiétante, il jouait avec la langue de tous les jours."




Le Monde dedica-lhe um artigo muito belo. Foi aí que tomei conhecimento da sua morte. A ler aqui.
Quando alguém morre tem o direito de ser recordado pelos momentos mais belos que criaram em nós.

É assim que quero este tributo a Lucio DallaDespertava em mim momentos de insondável interioridade. Esse é o sentimento que fica.


G-S

Fragmentos Culturais

02.03.2012
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Referências: