Friday, September 11, 2009

Jorge de Sena... o regresso à Pátria




Manuel Balce Ceneta file/AP 2007

http://news.yahoo.com/photos


«a Humanidade tem que estar presente na compreensão da própria e pessoal humanidade, com a qual lhe é dado compreender a dos outros...».

Jorge de Sena

Dos Estados Unidos, o corpo de Jorge de Sena voltou a sua "ditosa Pátria".
"Hoje não é um dia triste, por fim, tantos anos depois, a vontade de seu marido pôde ser cumprida e, embora saibamos que a separação, ele aqui, a Mécia em Santa Bárbara, será dor sobre dor, a satisfação do dever cumprido acabará convertendo-se em serena alegria, a que queremos viver consigo, que tanto ama por haver amado tanto. O seu companheiro de toda a vida, o homem com quem dançou uma tarde e a quem disse que não dançava com desconhecidos, sem saber que os escritores se dão a conhecer imediatamente, porque manejam as palavras e as introduzem no nosso coração para sempre, esse homem, querida Mécia, voltou à terra que sentia com desespero, e agora, todos os que sabemos o que Portugal era para ele respiramos mais fundo, como se partilhássemos um verso ou um afã, ou talvez esse desejo de transformar que os poetas semeiam."   

Pilar del Río
, Carta a Mécia, excerto

http://blog.josesaramago.org


Trinta anos depois da sua morte, Jorge de Sena descansa em seu país, esta Pátria que tanto amou e que tanto o ignorou. Esta Pátria que não o chamou em vida, o maior anseio do autor. Uma Pátria cuja língua e cultura sempre cantou e defendeu, até morrer.

A trasladação dos restos mortais do escritor Jorge de Sena para Portugal é um acto "de reparação e de reconciliação", embora o escritor "não precise de glorificações póstumas", disse hoje o ensaísta Eduardo Lourenço.
Lusa




Colóquio, Fundação Calouste Gulbenkian, 1988


É efectivamente um dos vultos maiores da cultura portuguesa do século XX. A sua obra tão eclética estende-se desde a poesia, à prosa, ao drama, ao ensaio, à investigação, à história da cultura.
Não deveria ter tardado tanto esta homenagem ! Merecia que o país lha fizesse em vida, já que morreu em 1978. Mas não! Sena não teve esse afago que por direito lhe seria tão grato!

Foi então que a Fundação Saramago lhe prestou uma pública homenagem, em Julho de 2008. A propósito desse importante evento escrevi aqui


Na cerimónia de hoje, Eduardo Lourenço foi categórico ao dizer que este é o "regresso do indesejado", apropriando-se do título de uma obra de Sena para recordar a condição de exilado político do escritor.

Lusa


Mécia de Sena, viúva de Jorge de Sena, esteve ausente por questões de saúde, mas duas filhas, netos e vários familiares estiveram presentes.

A cerimónia de homenagem teve lugar na Basílica da Estrela, a actriz Eunice Muñoz disse o poema "Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya" de Jorge de Sena, numa cerimónia que contou com dois momentos musicais de Bach. Poucos devem conhecer os seus textos sobre a música. Leia-se a "Arte da Música" entre outros.





Diário e recordações da vida literária
Espólio Jorge de Sena

http://www.bnportugal.pt


O espólio pessoal de Jorge de Sena está agora depositado na Biblioteca Nacional doado por sua família. Decorreu uma Mostra de 18 de Junho a 11 de Setembro 2009.

Um tempo bem breve para uma obra tão rica e tão desconhecida para quase todos nós!


A Sociedade Portuguesa de Autores juntar-se-à a estas homenagens, com a atribuição da Medalha de Honra a um representante da família no dia 14 de Setembro, no auditório Frederico de Freitas, na sua sede.

fonte: Expresso.pt
Desencontro

Só quem procura sabe como há dias
de imensa paz deserta; pelas ruas
a luz perpassa dividida em duas:
a luz que pousa nas paredes frias,
outra que oscila desenhando estrias
nos corpos ascendentes como luas
suspensas, vagas, deslizantes, nuas,
alheias, recortadas e sombrias.

E nada coexiste. Nenhum gesto
a um gesto corresponde; olhar nenhum
perfura a placidez, como de incesto,

de procurar em vão; em vão desponta
a solidão sem fim, sem nome algum -
- que mesmo o que se encontra não se encontra.

Jorge de Sena, in 'Post-Scriptum'


G-S

Fragmentos Culturais

11.09.2009

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Wednesday, September 2, 2009

Duplo Amor: o filme





Two Lovers | Duplo Amor
http://www.twoloversmovie.com

Admirably Bold. There's somthing grand about the film's sincerity and the intensity of its emotions.

A.O. Scott
, NY Times


Para além de Serralves, e outras paisagens, também o cinema me ocupa alguns fins de tarde.

Não foram muitos os filmes de qualidade em exibição. E por isso, facilmente se dá conta quando aparece um filme de autor.
Raros nesta época do ano.

Duplo Amor, que fez parte da selecção do "Festival de Cannes de 2008", foi um dos poucos filmes a que pude assistir neste final de Agosto.

Two Lovers é o quarto filme de James Gray que aos 24 anos ganhou o "Leão de Prata" em Veneza em 1994 com o seu primeiro filme Viver e Morrer em Little Odessa.


Duplo Amor, com Joaquin Phoenix, Gwyneth Paltrow, e Vanessa Shaw é um filme sobre o estado de se estar apaixonado, que é inevitavelmente ridículo, já escrevia Pessoa nas suas Cartas de Amor - mas é desse ridículo que nasce um 'pathos', diz-nos o realizador James Gray.


Um clássico romance passado na insular Brighton Beach, em Brooklyn. A personagem principal tenta a fuga aos condicionamentos familiares, tentação essa contrariada pela força das circunstâncias e a força dos valores.


Os filmes de James Gray condensam uma temática desenvolvida com rigor: a família e a força dos laços de sangue, as comunidades de origem emigrante e as suas tradições.

Há neste último, traços biográficos. Um retrato de uma cultura muito específica e que acaba por apresentar uma visão pessoal do realizador.

Numa entrevista, o realizador não a renega:


É totalmente pessoal. É a minha origem. Sou neto de russos que emigraram para a América. Cresci em ambientes parecidos com os dos meus filmes, conheço muitos dos lugares onde filmo como a palma da minha mão. Tenho um relação profunda com estas comunidades fechadas, onde o espírito familiar se confunde com a preservação de uma identidade cultural e conduz a uma espécie de insularidade. É o mundo de onde venho.

James Gray



Há quem considere Duplo Amor uma interpretação do livro "Noites Brancas" de Dostoievski, mas Gray assegura que embora tenha feito alusão à obra do escritor russo, o filme apenas apresenta algumas similaridades com a história:

Terá sido uma inspiração longínqua, mas o argumento tem na melhor das hipóteses algumas similaridades com a história. Se falei de Dostoievski, foi mais por questões relacionadas com a psicologia das personagens, e por Dostoievski escrever com a noção de que a paixão, o estado de se estar apaixonado, é inevitavelmente ridículo. Mas que é justamente desse ridículo que nasce um "pathos".


James Gray


Gray reconhece sim uma proximidade a "Noites Brancas" de Luchino Visconti e aponta-o como guião emocional, na relação com o espaço (Visconti faz do seu filme uma longa deambulação nocturna por Veneza), e sobretudo na filmagem da 'noção do ridículo', mostrando, numa visão afectuosa, a história de um homem desorientado pela paixão.

Acho que posso dizer que é uma expressão mais pura do meu cinema... Como cineasta o que me interessa perseguir e trabalhar é uma autenticidade emocional...
É o filme que está mais próximo do que eu imaginava e queria que os meus filmes fossem no tempo em que era só um aspirante a cineasta.

James Gray

fonte: ipsilon.publico.pt

Ter que escolher entre a bondade e lealdade Sandra e a paixão intensa e carnal que sente por Michelle é o grande dilema moral da personagem masculina.

As três interpretações são excelentes! De modo algum, Vanessa Show deve ser ofuscada por Gwyneth Paltrow. Duas personagens femininas muito bem definidas.




Gwyneth Paltrow| Joaquin Phoenix
Fotografia: John Clifford
http://www.twoloversmovie.com

Também Isabella Rossellini me agradou muitíssimo! Suponho que é a primeira vez que consegui identificá-la verdadeiramente com a sua personagem. E como está parecida com sua mãe, Ingrid Bergman!

Quanto a
Joaquin Phoenix, é efectivamente um actor que consegue alternar os vários estados, numa amálgama de sentires.

Uma verdadeira revelação na 'cena' da pista de dança, na discoteca! Depois de passar quase todo o filme, como uma personagem tímida, introvertida, quase difusa, eis que surge exuberante. A personalidade bipolar bem caracterizada.

Phoenix é
irmão de River Phoenix um dos actores mais promissores que morreu dramaticamente aos vinte e três anos.  Fama enganadora...


Há pessoas que acham que Joaquin Phoenix é um excelente actor! Mas, eu não consegui identificar-me com a sua interpretação, embora reconheça um valor profundo na fragilidade da personagem, nas inseguranças e falsas expectativas, na dificuldade em ser sincero com a família e com a mulher que o ama, na tentação de se deixar conduzir pela cegueira da paixão por uma mulher que apenas o absorve, quando fica só.
 


Mas talvez seja mesmo isso que lhe foi pedido por Gray.






Joaquin Phoenix| Vanessa Show
http://www.twoloversmovie.com

Interessante! Li várias críticas e sugestões! Todas escritas por homens. Muita simpatia por Leonard. A personagem masculina.

Mas será que as mulheres sentem essa simpatia do mesmo modo? Será que não se sentirão estereotipadas em demasia?


Uma loira, outra morena, uma desinibida, pronta a ultrapassar todos os limites, outra introvertida, serena, passiva, dedicada.

Uma relação a três, baseada na ocultação... para suavizar o conceito.

Pois é! A cena final não me convenceu! E suponho que não terá agradado a muitas pessoas! É como que uma jogada em falso!

A sensação que tive é que o filme apresenta uma visão muito compreensiva do universo masculino.

Bom! Não se deixem influenciar!

Uma banda sonora linda! A anotar....


Beau, profond et bouleversant.
 
Libération


G-S

Fragmentos Culturais


02.08.2009

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Em jeito de glosa: Há algum tempo, O Sabor Da Palavra premiou este espaço com o selo Blog Frescura.

A Gonçalo Cardoso, agradeço sensibilizada tal atribuição!