Tuesday, May 26, 2009

Salaviza: Palma de Ouro Cannes 2009





Arena | Poster
João Salaviza

www.cinemaportugues.info


Suponho que foi motivo de orgulho para todos nós, saber que um jovem cineasta português foi galardoado em Cannes com o maior prémio deste festival - a Palma de Oiro.



João Salaviza | Palme d'Or Court Metrage



Depois de ter sido seleccionado de entre mais de 3.600 filmes, Arena do jovem realizador português João Salaviza foi o grande vencedor da secção Curta- Metragem do 62º Festival de Cannes.



João Salaviza | AFP François Guillot
http://i42.tinypic.com/2ltg2e1.jpg

Portuguese director, João Salaviza speaks after winning the Best Short Film Award for his movie Arena at the Closing Ceremony of the 62nd Cannes Film Festival on May 24, 2009.

"Obrigado ao Festival por nos permitir mostrar a nossa paixão e amor pelo cinema, obrigado ao júri por seleccionar este filme e obrigado à minha produtora, que não pôde estar aqui esta noite mas está muito feliz".

João Salaviza

O autor-realizador explicou que Arena é um filme sobre violência urbana e juvenil, sobre bairros problemáticos que são verdadeiras "bombas-relógio".

ANC/SS
Lusa/fim
Expresso, 24.05.09

Ao percorrer as muitas fotografias do Festival de Cannes, encontrar-se-ão duas ou três de João Salaviza, duas das quais com legenda errada. Não é o nome do realizador português que nelas consta.

A própria página web
IMB quase o desconhece!


Mas tudo isso que importa?! João Salaviza recebeu a Palme d'Or!

"Tento relativizar porque o filme é anterior a tudo isto. Os prémios são coisas que nada têm a ver com os filmes. Representam a ideia de cinco pessoas que preferiram este filme em detrimento de outros."

João Salaviza


Arena fora já premiado no dia 2 Maio no Festival IndieLisboa, como "Melhor Curta-Metragem Portuguesa".

O que Arena traz é um misto de realismo e narrativa. "O que não é muito comum em Portugal - quando se filmam as franjas, está-se muito mais próximo do documentário do que da ficção".

João Valverde (programador do IndieLisboa)

fonte: cinecartaz





Mais do que captar as transformações de um lugar, interessa-me a tensão dos momentos em que nada se altera. O protagonista de “Arena” está confinado a um espaço e a um tempo limitados. Ao filmar o Mauro em prisão domiciliária confrontei-me com a condição de um homem que não tem para onde ir. Segui esta ideia, desde o guião até à montagem. O princípio de que os planos não se antecipam às deambulações do protagonista, nem lhe sugere caminhos que ele, simplesmente, não pode ver. É justo para alguém que vive com grades nas janelas de casa, e que está secretamente à espera que as coisas mudem por si.

João Salaviza


FICHA TÉCNICA


Realizador:
João SalavizaGénero:
Drama, Ficção
Ano: 2009 Data da Estreia: n/d
Duração:
10m

Com: Carloto Cotta, Rodrigo Madeira

fonte:
Cinema Português

Apesar da Palma de Ouro, Arena ainda não tinha distribuição assegurada, em Portugal, segundo as palavras de João Salaviza no dia da atribuição do galardão.


Esperemos que esta situação se tenha alterado! Isto só nos envergonharia!


G-S

Fragmentos Culturais


26.05.2009

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Saturday, May 16, 2009

Hélia Soveral - uma homenagem d'alma





hem.fyristorg.com/piano

"Não havia limite, o teclado escondia o infinito. Parecia simples, sete oitavas, não mais, um espaço tão curto que cabia dentro dos seus braços - e no entanto tinha a vastidão do mar." (...)

Teolinda Gersão, Os Teclados, Publicações dom Quixote, 1ª edição, Abril 1999

Morreu Hélia de Soveral, minha professora de piano, minha amiga e mestre, numa das áreas em que me especializei.

De grande sensibilidade musical e humana, acompanhou a minha adolescência e depois a minha vida, enquanto a sua saúde o permitiu.

Estudou com Luís Costa, um dos notáveis compositores da música contemporânea portuguesa, e mais tarde com grandes mestres internacionais, destacando-se a sua participação no último curso de interpretação de Alfred Cortot, uma das maiores referências da música de piano.

Foi uma das professoras mais importantes que passaram pelo antigo Conservatório de Música do Porto.

"Não impeças a música. Que música? Antes de mais, a deste concerto que é a vida humana, onde temos obrigatoriamente de ocupar o nosso lugar, pequeno ou grande. Não somos cigarras que gritam perdidamente no ramos de pinheiro em longo dia de verão. Devemos estar atentos ao que se passa à nossa volta: uma boa parte do nosso destino depende da sensibilidade do nosso ouvido, da qualidade da nossa inteligência e do virtuosimo dos nossos reflexos."

Paul Claudel (1868-1955)

A sua visão sagaz e pioneira da importância da música como parte integrante do ser humano, fê-la avançar posteriormente com dois grandes projectos na cidade do Porto - a Escola de Música do Porto - por onde passaram nomes tão consagrados como Pedro Burmester, António Pinho Vargas, Miguel Henriques e tantos outros.

Mais tarde, compreendendo a importância de formar músicos profissionais - Escola Profissional de Música do Porto - de onde saíu uma nova geração de músicos que hoje são solistas ou integram as grandes orquestras nacionais.

Nunca esqueceu a vertente cultural! Considerava pioneiramente que um músico só seria inteiro se tivesse uma educação cultural alargada.

Daí ter integrado cadeiras de cultura geral nos seus cursos de música, que abriram muitas fronteiras a tantos jovens que buscavam a sua escola.

Teve um outro sonho! Fundar o Conservatório de Música de Viseu, como ilustre viseense que se orgulhou sempre de ser.

Foi com uma imensa mágoa que a vi ontem partir. E lembrei um texto que eu escrevera, em tarde quente de Agosto 2006, num outro espaço:

"Há dias em que as lembranças aparecem e se instalam de mansinho. E vêm para permancer in tempo, na imagética da vida.

Hoje é um deles! Já ontem à noite pairava no ar uma certa nostalgia, que fora arrumando no cantinho da memória, como que não querendo dar-lhe demasiada importância.

Mas, mal acordei, ela ali estava , certa e segura, como que relembrando que não é sentimento que se arrume. A pureza de momentos vividos é para ser presente.
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Fotografia: Mark Tucker

A foto não foi escolhida só pela beleza estética que é inegável. Tocou-me profundamente. E porquê? Pela ilustração quase verídica de momentos próximos de meu ser.

Trouxe-me de volta longas horas sentada em frente ao piano, lendo partituras longas, repetindo repetindo escalas, exercícios, compassos, aprimorando peças, preparando exames, audições, participação em concursos.

Tudo isto fez efectivamente parte de um percurso já percorrido.

Lembro o rosto e o jeito da professora, o seu grau de exigência, um lápis sempre em toques ritmados, ou então o bater os pés nervosamente, quando sentia um compasso errado, num acompanhamento permanente das notas dedilhadas, tantas vezes distraídamente, em tardes de verão quentes, como a de hoje.

(...) Às vezes, ela saía, logo a seguir, caminhava na rua, tocando apenas mentalmente, para não se deixar interromper. Andava pelo meio das casas e ouvia ouvia (...) As árvores balançavam os ramos, e os carros passavam, as pessoas cruzavam-se com ela, mas não a interrompiam. Só quando chovia ela se abrigava debaixo de uma varanda ou no vão de uma porta, parava mentalmente de tocar e fechava o piano.

Teolinda Gersão, Os Teclados
Publicações Dom Quixote, 1ª edição 1999
 
Meus pensamentos voavam sempre para bem longe, pausas de sobrevivência de uma miúda que procurava também nos livros um recanto complementar àqueles pulsares repetitivos e por vezes fastidiosos. Mas o empenhamento, esse sempre foi constante.

E chegado o momento de ver o meu trabalho exaustivo trocado pelo prazer de tocar, mesmo que sob o imenso stresse de ser escutada ou avaliada, era um sentimento pleno de bem-estar melódico.

A música dava-me a outra vertente da minha sensibilidade que se desenvolveu e aprimorou no estudo dos grandes compositores.

Partitura original de Johann Sebastian Bach
Fotografia: Jens Meyer | AP 2006


Talvez que seja o tempo certo - há coisas inexplicavelmente sentidas - para inscrever neste espaço de alguns sentires, o meu enorme carinho pela minha professora de piano, uma afectuosa e sincera homenagem.

Uma excelente profissional e uma pianista de grande mérito que fez muito pelo ensino da música em Portugal, e tão pouco reconhecida.

Actualmente, restringida por uma doença implacável que lhe destruiu a capacidade maior - poder continuar a tocar e a leccionar.
 
Um beijo muito sentido e um abraço musical eternamente fraterno!"
 
G-Souto (texto original)

30.08.2006

Não sei se alguma premonição se adentrou em mim, nessa tarde de Agosto.

(...)"Et non seulement l'imagination musicale, celle d'un Chopin, d'un Schumann ou d'un Fauré, qui se suffit à elle-même et qui traduit, sans le formuler explicitement, les rêves et les désirs humains," (...)

Alfred Cortot, La Musique Française de Piano
Presses Universitaires de France, 3e édition, 1948*
 






G-Souto

Fragmentos em tons dolentes de muita mágoa numa homenagem terna a Hélia Soveral Torres, minha querida amiga e professora, com a lição de piano de Alfred Cortot, seu querido mestre.


A lição é em si uma verdadeira lição de poética musical.

16.05.2009

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* Nota: Livros que meus pais me trouxeram de Paris, numa primeira edição, tal como pedira, e que a professora Hélia Soveral me aconselhara, conhecendo ela o meu apreço pela música de Chopin.


Sunday, May 10, 2009

A propósito de "Uma Casa no Fim do Mundo"



A Home at thr end of the world
Michael Mayer, 2004

Uma Casa no Fim do Mundo


A propósito de uma sessão de cinema que a RTP1 transmitiu no sábado passado, a horas demasiado tardias, convenhamos!
Uma Casa no Fim do Mundo, baseado no livro A Home in the end of the world de
Michael Cunningham, livro que lera há alguns anos, para ser mais precisa, no ano da sua primeira edição em Portugal, em Novembro de 2001!

Permaneci estoicamente acordada, até às quatro da manhã... vá-se lá saber por que razão a hora tão adiantada! O filme ostentava até a tão preciosa 'bolinha vermelha'. Mas enfim, bizarrias!

O que é certo é que o encontrei por acaso, ao fazer zapping e fiquei desperta!

É estranho! Cheguei a ver a apresentação do filme há uns dois anos, em sala de cinema, tomei de imediato apontamento, mas... nunca foi exibido, pelo menos aqui na cidade! Por cá não passou! E nestas coisas de cinema, costumo andar atenta!

Voltemos então ao filme! En jeito de sinopse, Uma Casa no Fim do Mundo narra a história de Bobby e Jonathan, dois amigos de infância que se conhecem numa escola dos subúrbios de Ohio nos anos 60 e que, a partir desse momento, se tornam inseparáveis.

Para Jonathan, o pouco convencional Bobby é a ligação a um mundo mais vasto. Para Bobby, a família de Jonathan, em especial a sua mãe, representa uma certa estabilidade que ele nunca conhecera.

Anos mais tarde, separam-se, e já nos anos 80 reencontram-se em Nova Iorque onde Jonathan vive com a sua companheira de casa, Clare.

A sua amizade transforma-se num triângulo amoroso, tendo como base o espírito livre de Clare. E assim aprendem, no dia-a-dia, o que é o amor, a lealdade, o compromisso, inventando uma nova espécie de família até ao nascimento de Rebecca...

Tendo por intérpretes Collin Farrell, Andrew Chalmers, Dallas Roberts e a conceituada Sissy Spacek, o argumento e diálogos são do próprio Michael Cunnigham, uma mais valia do filme. Foi realizado por Michael Mayer, 2004.

The story of two boys growing up in suburban Cleveland in the 1960's who move to Manhattan in the early 1980's where their paths connect with that of an older woman seemed somewhat like my own story. I too spent the first 18 years of my life in the suburbs (of Washington, DC) and moved to New York in 1980. The beautiful but complicated friendship in the book reminded me of relationships that I have had; and the story of creating a family against all odds spoke to me in a very powerful way. At the time, I remember thinking that it would make a wonderful film.

Michael Mayer
É evidente que o filme anula ou omite, como queiramos, muita coisa do livro. Naturalmente.

Suponho que nunca se deverá esperar que um filme seja a reprodução de um livro, mas digamos que a nossa expectativa é sempre forte, quando lemos primeiro o livro. 

No entanto, não devemos nunca deixar de pensar que se trata apenas de uma possível leitura. 

O filme é envolvente, os diálogos são de Michael Cunnigham, o realizador confessa a sua paixão pelo autor, daí que a adaptação seja muito interessante. O Excelentes interpretações. Linda banda sonora.




Capa: Gradiva, 1ª edição, Novembro 2001


Cunningham é um escritor que quase todos conhecem do romance As Horas | The Hours (1999), também adaptado ao cinema, em 2002, com um sucesso muito notório. Suponho que Nicole Kidman foi premiada pela Academia com um Oscar pela Melhor Actriz.
Uma Casa no Fim do Mundo tem uma escrita poética, como o poema literal de Wallace Stevens que o autor introduz:

Ei-lo palavra por palavra,
O poema que tomou o lugar de uma montanha.

Ele respirava no seu oxigénio,
Mesmo quando o livro jazia voltado sobre o pó da mesa.

Recordava-lhe o quanto tinha precisado
De um destino para o seu próprio rumo.

[...]


Wallace Stevens, O Poema que tomou o Lugar de uma Montanha


É um livro forte, vivo, inquieto, numa trama retratista do mundo urbano da nossa época.


Sinto que Cunningham escreve com ternura, como quem considera todas as vidas plenas de significado, apesar das suas fragilidades e tensões, das suas inquietações constantes na procura de um espaço próprio!


Eu adoro bons livros! E fico sempre curiosa de adaptações  de obras literárias ao cinema!

G-S

Fragmentos literários


10.05.2009


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