Saturday, December 16, 2006

Copying Beethoven




Imagem: Copying Beethoven (filme)


"Music is the language of God!
Musicians are the closest to God as men can be. We hear His voice. We read His lips."



Copying Beethoven estava no meu roteiro de final de tarde de cinema, há algumas semanas.

Fugindo da azáfama consumista e desatinada que percorre o país nesta época pré-natalícia, procurei o filme cuja temática não atrairia tanto o grande público.

Percorrer musicalmente alguns dias da vida de Ludwig van Beethoven, mais propriamente os últimos três anos, era sem sombra de dúvida uma pausa que me agradava plenamente! 

Nesse silêncio feito de enleio estético, aventrei-me nos sons de excertos musicais de obras suas, num recolhimento e introversão salpicados por excelente diálogos.


Diane Kruger

Traduzido como "Corrigindo Beethoven", o que só por si demonstra alguma falta de cultura musical erudita, já que copying deriva da palavra copyiest, traduzida para língua portuguesa origina a palavra - copista - termo técnico dado à pessoa que escrevia (à mão) as partituras dos grandes mestres e compositores.

Assim, já se atraiçoa, sem querer, a intrínseca intenção da realizadora que afirma:

"The journey during the film is to learn about the music, but also to learn about the man... to come closer and closer to the music and to the man."

Agnieszka Holland

A música é sem dúvida a personagem principal do filme onde o actor Ed Harris incarna com grande mestria os últimos três anos [1824-1827] da vida de Beethoven, mais propriamente os derradeiros que este dedicou à conclusão da 9ª Sinfonia na qual trabalhou durante dez anos.
"He changed the very notion of music, destroying rules, conventions [...] bombastic, brilliant, generous, unforgiving, yet kind hearted, Beethoven ruled over the cultural landscape of Europe in the first quarter of the 19th century."

Agnieszka Holland


Ed Harris & Diane Kruger

A incrível caracterização e sublime interpretação de Ed Harris quase nos leva a crer estarmos diante do próprio Beethoven.

Outra coisa não seria de esperar de um actor que personificara já a figura emblemática da pintura norte-americana -
Pollock - outro ser verdadeiramente dilacerado no seu acto criador.

Copying Beethoven transmite-nos a pungente, silenciosa e desesperada solidão de Beethoven, através dos olhos de Anna Holtz, melhor aluna de Composição do Conservatório de Viena, uma personagem ficcionada a partir de componentes da época, aqui interpretada por Diane Kruger.

Apesar de já se atravessar o século XIX, ainda não era reconhecido à mulher o dom de criar, quer em música, literatura ou outra actividade artística. 

Anna Holtz demonstra aqui a incrível vontade de vencer pelo seus próprios méritos, como criadora e mulher, vendo em Beethoven a sua oportunidade maior de aprender e se afirmar num campo que só era permitido aos homens.
"I may be a woman but I am the best student!"

(Anna Holtz, Copying Beethoven)

Em impressionante diálogo somos transportados à visão divina da música.

"Musicians are the closest to God as men can be.
We hear His voice. We read His lips."

(Copying Beethoven)

Em imagens de incrível beleza cénica, numa fotografia cuidada que realça tantas vezes o divino da criação, sobressaem os momentos de precisão e perfeição da arte de 'copista' musical, as fúrias de Beethoven em revolta permanente contra um Deus que lhe deu o dom tão divino e que depois lhe retira a capacidade de se ouvir, a profunda tranquilidade do mestre nos actos de composição, quer compondo ao piano ou violino, quer em momentos de retirada inspiração no silêncio da natureza onde se refugiava para percepcionar as vibrações que esta lhe transmitia... tudo isto até se chegar à première da 9ª Sinfonia.


Hanna Holtz | Diane Kruger

Guiado pelos olhos e pelas mãos de sua fiel copista, que conhecia de cor a partitura, dando-lhe os tempos necessários para que frente à orquestra como maestro pudesse executar a sua obra-prima.
"I will help you, I will stand where you can see me, I'll give the bite for you."

(Copying Beethoven)

E Anna Holtz, saindo do meio da orquestra, veio afectuosamente virar Beethoven para o público para que este visse as pessoas a ovacioná-lo de pé e ouvisse as vibrações dos aplausos.
"You are the key to my release."

(Copying Beethoven)

Se mais não for, valerá a pena ver para ouvir a interpretação da 9ª Sinfonia interpretada pela Orquestra Sinfónica Kesckemét Húngara onde estão incluídos alguns instrumentos musicais do século XIX, tocados com arcos da época (violinos e violoncelos), o que dá, sem dúvida, o timbre perfeito da música beethoveana.

A não perder o trailer e as entrevistas aos actores no sítio web oficial Copying Beethoven

O filme esteve representado em dois conceituados festivais de cinema:


No final, todos os espectadores permaneceram religiosamente sentados, ouvindo até ao último excerto musical do genérico.

Não houve pipocas.




G-S

Fragmentos Culturais


16.12.2006
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