Friday, September 15, 2006

Simply Red no Porto



Mick HuckNall / Simply Red
Depois dos Rolling Stones foi a vez dos Simply Red tocarem no Porto.

Confesso que fiquei logo apreensiva e quase desmotivada pelo espaço anunciado para o grupo se apresentar - Pavilhão Rosa Mota - péssima acústica e sem ambiente próprio para concertos.

Hesitei, mas acabei por considerar que mais importante do que o espaço era ter a oportunidade de vê-los tocar live e ouvir a voz esplendorosa de Mick HuckNall.

Na realidade, o que esperava aconteceu. A mística que envolve este tipo de espectáculos perdeu-se quase por inteiro.

Espaço demasiado frio, descaracterizado, para um concerto pop. Só a dinâmica sonora e profissional dos músicos conseguiu cortar a barreira que os separou de um público distanciado e em grande número descontextualizado.

Para além dos fãs dos sons dos Simply Red, penso que outros públicos acorreram chamados pelo recinto e não pelo grupo.

Fácil foi constatar que muitas pessoas, embora com bilhetes de lugar sentado, não conseguiram senão ficar de pé!

Os atrasados, e foram uma maioria - lá vem o recinto de novo - depois de subir e descer galerias bafientas, mal arejadas, lá conseguiram um lugar. Mas um número substancial ficou de pé ou sentado nos degraus de acesso.

Com muita boa vontade, já que a massa humana envolvente era muito dispersa, conseguimos concentrar-nos minimamente na banda que actuou na primeira parte.

Os Nate James tinham alguma qualidade sonora, completamente perdida naquela acústica impossível de superar por um grupo sem recursos técnicos de som. Mas lá se assumiram com garra e acabaram por cativar o público mais atento.

Finalmente os Simply Red entraram em palco, num concerto de sons revisitados, com novos arranjos leituras diferentes, acompanhados por músicos e grupo vocal de grande mérito em alargados sons.

Apresentaram-se com sobriedade e muito profissionalismo, num cenário bastante minimalista mas adaptado ao grupo, onde predominaram as tonalidades de azul e roxo condizentes com os sons mesclados dos ritmos in blues.

De salientar a sonoridade de translúcida beleza da flauta de Chris de Margery.
Três novos temas, um dos quais Oh! What a Girl! gravado ao vivo durante a sua actuação no Montreux Jazz Festival 2006.

O Festival de Montreux é um acontecimento de grande renome na paisagem musical do Mundo. Aí sempre se fundem sons e músicos de prestigiada qualidade.

Foi um pouco difícil aderir ao som pop-jazz de inquestionável qualidade do grupo, por tudo o que já enumerei. Porém a voz de Mick 'Red' e o seu talento musical acabaram por tocar nos fãs mais convictos a cadência necessária, para independentemente do meio adverso, e quase na parte final e nos encore se entregarem de alma e corpo ritmados, de pé, em entusiásticos aplausos.

Aspectos a salientar pela negativa: o acesso ao interior do pavilhão fez-se com morosidade, numa organização que já prenunciava ineficácia e falhas de vária ordem.

Outros aspectos caricatos e dignos de nota. O calor insuportável, o ambiente irrespirável, sem hipótese de refrescar, ao simples sabor de uma garrafa de água.

O único bar existente, num escuro confim da cave do pavilhão, antiquado e de pouca serventia, não permitiu tão pouco o acesso à maior parte das pessoas.

Quase no final, um vendedor ambulante tão inadaptado como o espaço, passou ao estilo do picolé fresquinho. Mas nem isso ele transportava no tabuleiro saído de épocas remotas.

O público despediu-se dos Simply Red ao som inigualável de If you don't know me by now.

Gostaria de ter ouvido a versão intimista e divina de Mick 'Red' - Ev'ry time we say goodbye.

Tema inolvidável do jazz vocal em versão masculina de grande qualidade tímbrica.

G-S

Fragmentos Culturais
15.09.2006
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Monday, September 11, 2006

Memória : 11 Setembro 2001




World Trade Center 2006
Créditos: Eric Feferberg/AFP 2006


"O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos.

A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódios... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e morticínios.

Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria.

Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco.

Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido."

Charles Chaplin, O Grande Ditador, filme (1940)

(excerto de Último Discurso, versão em língua portuguesa do Brasil)

G-S

Fragmentos Culturais
11.09.2006
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Monday, September 4, 2006

United 93 - o filme





United 93
Paul Greengrass, 2006
http://www.imdb.com/

"Those who choose to see United 93 will be deeply , honestly moved."

Gene Seymour, Newsday

É um facto! Por isso, pensei bem antes de me decidir a ver o filme. Sabia que não poderia olhar as imagens com o distanciamento comum a outros filmes. Não era uma fábula. Era a tentativa, baseada em imagens autênticas, registos telefónicos de passageiros e tripulantes.

Ninguém esquece. O 11 de Setembro 2001 está ainda bem presente. A partir desse dia, a Humanidade deixou de ver o mundo do mesmo modo.

Vira o trailer e aguardava com expectativa, mas na dúvida de ter coragem de enfrentar imagens e olhares tão intensos de pânico. Excelentes actores que transmitem com realismo sentimentos das pessoas que seguiam naquele voo.

As imagens reais do 11 de Setembro de 2001 são ainda muito vivas no nosso olhar. Todos assistimos em directo.

Posteriormente, ouvi uma entrevista com o realizador Paul Greengrass e fiquei então mais receptiva. Pareceu-me sério nas convicções que o levaram a homenagear todas as pessoas envolvidas (passageiros, tripulação, familiares) na tragédia que desfilou em tempo real perante os olhares atónitos do mundo.





United 93| Voo 93
Paul Greengrass, 2006

A reconstituição 'possível' dos factos que tiveram lugar a bordo do United 93, tradução portuguesa Voo 93durante os 91 minutos que durou o desvio do avião, com base nos testemunhos de familiares, pelos registos dos telefonemas recebidos até ao último instante. Diálogos lancinantes!

Também deixou bem demonstrado a incapacidade das chefias americanas de responder em tempo adequado à tragédia que se abatera nesse fatídico dia 11 de Setembro.

Filme incómodo para as autoridades americanas. Paul Greengrass é um realizador engagé. Seus filmes são sempre de intervenção política e social.

United 93 foi o primeiro filme americano a tentar reconstituir, através do seu enredo, os acontecimento de Setembro 11, 2001.




Paul Greengrass e alguns actores de United 93
59º Festival de Cannes, 2006
créditos: Peter Kramer/ Getty Images

Ninguém abandonou a sala, mal o filme acabou. Nas cadeiras, as pessoas afundaram-se e uniram-se pelo silêncio.  Recolhimento. Prece.

Um filme de grande respeito pelos americanos que seguiam naquele voo. Profundo respeito pela sua morte. Profundo respeito pelos possíveis actos de heroísmo de alguns passageiros, quando entenderam que as altas esferas políticas não fariam nada para os salvar.

A morte, o respeito, a homenagem está presente. Até no final do filme, quando ecrã permanece preto, sem qualquer imagem ou legenda nos minutos finais.


"United 93 is a masterful and hearthbreaking film that does honor to the memory of the victims."

Roger Ebert, Chicago Sun Times


G-S


Fragmentos Cuturais
texto original

04.09.2006
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A visitar o sítio web We Remember: Flight 93 National Memorial


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